Eu sou migrante de tudo. Migrante das formas, isso é uma parte importante, não? (...) Então
Pessoas adeptas da troca de casais, geralmente em casas de encontros sexuais.
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A e x e m p l o d e s t a m a t é r i a d e T i m e O u t M é x i c o s o b r e o e s p a ç o , d i s p o n í v e l e m :
cruzo desde as fronteiras corporais, como tal, até as fronteiras corporais do território geográfico. Na mostra Guillermo Gómez-Peña. Mexican (IN)documentado, 150 peças compuseram a trajetória individual deste pioneiro da performance arte mexicana, no Museo de Arte Moderno de Mexico, entre os meses de novembro de 2017 à abril de 201897. No mês de dezembro de 2017, foi realizada uma performance pelo coletivo La Pocha Nostra, da qual Guilhermo é um dos fundadores, evocando, como de costume, a fronteiriça imagética etnopop e cuirdecolonial que o caracteriza98.
Nesta ocasião vejo Erika Bulle performando, nua, o corpo rabiscado, desenhado, ofertado à escrita do público em meio a microfones de uma sala do museu. Grandioso corpo de mulher gorda, um corpo aberto, surpreendente, imprevisto. “Incomum imagem”, pensei, embora o corpo de mulher esteja tão naturalizadamente desnudo em sua reiterada fetichização. Mas em que seria esta uma nudez diferente?
Tenho a sorte de receber Erika em minha casa, em um dia especialmente frio do inverno mexicano. Descubro que colabora com La Pocha Nostra há três anos, depois de ter participado de uma oficina com o grupo na cidade de Tijuana. Ela conta ter nascido na capital do país em 1969, sendo criança na década de 1970, quando a cidade era menos povoada, menos poluída, menos perigosa. Nos anos 80, quando a cidade se torna a maior do mundo, e também a mais violenta, Erika começa a definir seus interesses, ingressando no curso de artes visuais na UNAM.
Estudando em Xochimilco - bairro distante do centro da cidade, conhecido pelas embarcações coloridas de seu rio, as famosas traineras -, o longo trajeto desde sua casa à universidade é transcorrido pelo ônibus que leva a um presídio da zona sul da cidade, o Reclusorio Preventivo Varonil Sur. Nele, estudantes universitários, familiares de presos e ex presos que tratam de questões no presídio, convivem, interatuam. E inspiram a jovem artista a criar sobre a relação entre cidade e violência.
Mas a asma leva-a ao deslocamento, buscando entre os anos de 1997 e 1998 um lugar mais quente e menos poluído. Por 20 anos não volta a viver na capital do país, morando em diferentes povoados pequenos da região, numa espécie de exílio que surpreende ao ser quebrado. Assim, ao regressar à sua terra natal, há dois anos e meio, impressiona pessoas que não acreditavam sequer que estivesse viva.
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Maiores informações sobre a exposição estão disponíveis em: <https://mam.inba.gob.mx/guillermo-gomez-
pena-mexican-in-documentado> . Acesso: 15 mar. 2019.
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Maiores informações sobre La Pocha Nostra estão disponíveis em: <http://www.pochanostra.com> . Acesso:
Erika conta que começou na performance arte nos anos 90, em um coletivo chamado SEMEFO, importante influência nas artes contemporâneas mexicanas. Trabalhando sobre o tema da violência, o coletivo gerava também essa violência em suas performances:
El grupo irrumpió en la escena artística mexicana trabajando con partes de cadáveres, fluidos corporales y otros materiales, principalmente orgánicos, que obtenían con o sin permiso de las morgues, aprovechándose de las debilidades del poder del estado y la corrupción administrativa (…) Situándose en la delgada línea entre lo ético y lo repulsivo, lo legal y lo subversivo, el grupo realizó piezas, intervenciones y acciones que no pudieron pasar por alto dentro del marco artístico nacional e internacional. Polémicas instalaciones con sábanas ensangrentadas y grasas humanas expuestas sobre paredes, burbujas de jabón hechas con agua que previamente había sido usada para lavar cadáveres, se convirtieron en expresiones que buscaban romper con ciertos tabúes y que planteaban la necesidad de
transgredir los límites entre lo grotesco, la moral, la política, la idea del arte, lo sublime y lo trascendental (MACG, 2019).
Depois de três a quatro anos trabalhando no coletivo decide sair, por divergências em relação a algumas práticas, o que, segundo afirma, levou a uma tentativa de apagamento de sua presença na história do grupo. Em seu mestrado, desde a gravura, tematiza a morte, seu enfrentamento, a partir de imagens de cadáveres de pessoas assassinadas. É reprovada na primeira tentativa de entrar ao doutorado. Então reorganiza seu projeto de pesquisa, agora refletindo sobre seu próprio corpo e não mais sobre corpos de outras pessoas:
E aí é quando começo com as reflexões sobre meu corpo. Reflexões já deixando de lado o corpo do outro, mas visibilizando-me: Quem sou eu? Como sou? E, originalmente, o projeto vai guiando às minhas origens, que tem a ver com esse avô alemão muito forte, com esta família que migra, tratando-me de perguntar sobre minha sexualidade. Como é minha sexualidade? Como mudou? Como a vivo? Eu a vivo? E quando começo a fazer os primeiros exercícios, de apresentação com este novo mapeamento, aí... Isso da performance é como tentativa e erro. Então você pode propor algo e sair outra coisa. E isso foi o que passou. Então me apresento e descubro que a absolutamente ninguém lhe interessa sobre minha sexualidade, e que o dispositivo mais forte que tenho é meu corpo. Absurdamente, porque não havia pensado nisso. Não havia me pensado como pessoa diferente quanto ao meu corpo. Não sei porque sempre me considerei normal, ou seja... Que não teria nenhum problema. E quando aciono essas primeiras vezes percebo que o dispositivo que realmente bloqueia, ou abre, ou dispara... faz mil coisas, é unicamente meu corpo. A imagem do meu corpo. E aí é onde mudo o projeto, volto a desmembrá-lo, mas já baseado no corpo gordo, como é, suas características - não apenas gordo, porque agora já está aproximando- se da obesidade –, então com estas características, e é quando o projeto é aceito no doutorado (risos).
Erika se dá conta do impacto que seu corpo provoca ao realizar uma performance, apresentada em uma pequena cidade mexicana, na qual ela e outra artista ficavam de roupa interior. Enquanto a outra artista, que é magra, de despe, não há grande reação por parte do público. Mas quando é Erika que faz isso, muitas pessoas se afastam, saem da sala, numa expressão de seu incômodo. Mas o que haveria de tão provocativo num corpo gordo?
México, estatisticamente, tem 70% da população com sobrepeso. Não gosto destes termos médicos, mas é necessário conhecê-los. E somos o primeiro lugar no mundo com pessoas com sobrepeso e com crianças com obesidade, crianças que já ultrapassaram certa quantidade de quilos e por isso lhes chamam obesas. Porque aqui tudo é medido de forma ridícula, que não corresponde necessariamente. Então isso mesmo gera... No sexênio passado, com um presidente que tivemos, chamado Felipe Calderón, e que empreende duas grande guerras, porque ele era muito exagerado no que fazia, então faz duas grande guerras. A primeira é a do narcotráfico, que todos conhecemos, pois vivemos em uma poça de sangue graças a essa grande guerra, e a segunda é a guerra contra o sobrepeso, ou seja, ele declara guerra ao sobrepeso. Então se une a algumas organizações como a OMS (Organização Mundial de Saúde), e como a FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) para receber dinheiro e combater o sobrepeso. Então, esse combate ao sobrepeso o que faz é que haja mexicanos competindo com outros mexicanos para ver qual é menos gordo. Então isso gera uma discriminação contra o mais gordo. Então tem um gordo dizendo a outro gordo: “Gordo!”. Como um insulto. Ou seja, esta guerra resultou em um caos, que não resolveu nada porque evidentemente a estratégia foi nada mais para obter recursos, obter dinheiro, igual na guerra contra o narcotráfico. Ou seja, eu tomo dinheiro, mas não soluciono nada. Porque não existiram planos além das campanhas de televisão, que mostravam o gordo como uma pessoa ridícula, como uma pessoa suja, como uma pessoa de maus hábitos. Inclusive podemos ver em alguns luminosos que estão nas paradas de ônibus, esses cartazes grandes, onde há uma menina com um sorvete e outra que não tem um sorvete. A do sorvete é uma menina gorda, a outra é a mesma menina, porém magra e diz: “Tem certeza de que vai comer?”. Ela diz para si mesma... Então, chegamos a este ponto, não? Onde já é uma questão de controle do corpo regido pela polícia dos corpos, e esta polícia somos nós mesmos, ou seja, somos tolos. E todos estamos tratando de controlar o que come o outro, quanto deve pesar, como deve ser visto. A roupa é cada vez menor, ou seja, não é o mesmo tamanho grande antes e depois. Ou seja, agora é um tamanho grande menor, mais estreito. Noto isso com meu companheiro, por exemplo, que não mudou muito sua estrutura corporal, e é relativamente magro, não tem sobrepeso, e o tamanho grande não fica mais igual ao que ficava a muitos anos, quando ficava
grande para ele. Então, nos convertemos nessa polícia de corpos.
É interessante notar como as políticas públicas de Felipe Calderón, suas grandes “guerras”, recaíram sobre o corpo em perspectiva espetaculosa. Seja na guerra ao narcotráfico, a definir necropoliticamente quais corpos merecem a vida (MBEMBE, 2018), seja na idealização do modelo corporal baseado em parâmetros de saúde internacionais, importados e não necessariamente condizentes com a realidade mexicana, o corpo é o centro da atenção, para onde convergem as práticas de controle superlativadas pela mídia. E, nos dois casos, tais políticas não resolveram os problemas usados como argumento para sua criação.
Além disso, em relação à gordofobia sofrida pelo trabalho artístico de Erika, vale notar que a representação pictórica do corpo feminino sempre esteve condicionada ao olhar masculino, ao seu desejo que orientou a ratificação de um papel social submisso, entre o delicado e o servil:
Nas artes visuais, em especial na história da arte ocidental (principalmente a partir do Renascimento), proliferam representações do corpo nu feminino, que manifestam através de olhares para um fictício espectador a submissão ao próprio artista e ao proprietário da obra. Embora o corpo feminino na arte ocidental estivesse em evidência, isso necessariamente não queria dizer que a própria mulher (como um sujeito com vontade própria) e a sua sexualidade também o estivessem. Na verdade, nas representações dosnús femininos, é a sexualidade masculina que está em jogo, tendo muito pouco a ver com a própria sexualidade feminina (LAPONTE, 2002, p. 28 -287).
Assim, essa estetização do feminino é parte de construção de um ideal, da imposição de um modelo, mas também da construção da própria masculinidade que se reafirma privilegiada em tais representações. Sendo que essas variam de forma de acordo com as expectativas sobre o que é ser mulher:
Mulheres de peitos avantajados e ancas grandes foram “produzidas”, assinalando o papel social a elas delegado: ser mãe. A fartura aliada à adiposidade ligava a expressão estética ao seu desempenho familiar, e nele a mulher/mãe teria papel destacado nessa função que lhe era precípua. A “gordura” despontava como padrão desejável de beleza, equivalendo à fertilidade. Apenas mais tarde, sobre a obesidade, despontaram referências aos contextos de riscos, expressando doenças, misérias ou mazelas sociais (PERROT, 1998, pp.26-28). A demonização da mulher também demorou a transparecer nas artes, e séculos correram até que se chegou a uma solução inversa. No trajeto, devido à dessacralização da mulher como mãe, o padrão magro se impôs avassalando as sugestões pretéritas (LEMOS; OLIVEIRA;
MEIHY, 2015, p.142) .
Forjada nesta tradição pictórica eurocentrada, nossa cultura visual replica o machismo desde a publicidade, que idealiza a figura feminina. Quando pergunto a Erika sobre ser a gordofobia mais rigorosa para as mulheres, ela responde que:
certos cânones para ser boa esposa, boa dona de casa, essa regulamentação, ou seja, também tem que ser útil, produtiva. Então, se é gorda, deixa de ser produtiva, se é gorda, não se deseja, e este não desejar-se implica em não ser desejada por ninguém. E que tampouco deseja sua família, então sua família tampouco tem que querê-la. Então sempre está posto o pé sobre a mulher. Ou seja, sempre está posta esta intenção de ter que ser perfeita. A mulher perfeita... Eu não sei se existe. Ao menos entre as mulheres que eu conheço, não existe essa mulher perfeita. Então é uma situação complicada o manejo do corpo com as mulheres. E o que mais me choca agora, e que me dá muita raiva, são essas novas campanhas de roupa interior, onde saem modelos um pouco cheias, um pouco gordas, que aqui em México se chama a “gordibuena”, temos essa figura que se chama a “gordibuena”, ou seja, essas mulheres com mais cadeiras... Que têm permitido este excesso porque os homens gostam. Ou seja, porque os homens as desejam. Ou seja, eles estão permitindo. Isso me parece uma figura horrenda. Deprimente, não? Porque não temos sequer o direito de sermos gordas porque queremos ser gordas, porque gostamos disso. De vivermos gordas. Mas temos que ter até mesmo nisso a aprovação dos demais.
A expressão mexicana “gordibuena”, citada por Erika, faz-me lembrar da expressão “gordelícia”, usada no Brasil, e do quanto se parecem os dois países, no melhor e no pior. Por ser tão violento esse ideal imposto às mulheres, desobedecê-lo configura uma rebeldia digna de castigo pela cultura patriarcal. E, novamente, o exílio é evocado dos confins da colonialidade. Para Erika:
Partindo da palavra dissidência, eu considero que corpos gordos como o meu ou corpos que tenham movimentos limitados... Que lhes falta um braço... São corpos dissidentes. Porque desejaram ou porque assim foi e não há como mudá-lo. Somos este corpos desobedientes, e estes corpos que nos rebelamos, não entramos no padrão da sociedade. Então, eu sim, me refiro a meu corpo como uma dissidência corporal. Sim, sou dissidente. E creio que todas nós mulheres que estamos fora desse circuito que joga pelo patriarcado, estamos fora. Somos dissidentes independentemente dos gostos, ou das preferências sexuais que tenhamos, não? Porque, bem, há companheiras gordas que são totalmente heterossexuais, e que também estão nessa dissidência, não? Estão nessa dissidência gorda e realmente lutando por mudanças. E se não podem mudar que pelo menos nos respeitem. O que é respeitar? Que não nos patologizem: gordo não é sinônimo de doente. E gorda não é uma má palavra. Então não há porque pensar que nos insultam, se somos gordas. É uma característica (Risos).
Do corpo gordo abundam as associações ao fracasso, à incapacidade. Em uma sociedade com sobrepeso, a gordofobia reafirma o privilégio de poucos, da menor parcela da população. No caso de uma mulher, é dupla a dissidência, dadas as expectativas maiores sobre o corpo feminino. No caso da exposição pública de um corpo gordo de mulher artista, é tripla a transgressão, já que,
historicamente, as mulheres estiveram sujeitas ao olhar masculino, não protagonizando o papel de criadoras na história da arte ocidental (LAPONTE, 2002).
Figura 17: Retrato de Erika Bulle tirado durante esta entrevista.
Foto do autor.
Apesar disso, Erika não vê lugar para o corpo gordo nas discussões e práticas que orbitam a ideia de queer. Como Libertad e Bruna, aqui entrevistadas, ela recorre a uma identidade mais específica para marcar a diferença de seu ativismo. Do mesmo modo, acha muito tímida a presença do corpo gordo nas discussões feministas, o que muito a espanta. Contudo, de todos os ambientes, o mais fechado à causa gorda, para ela, é a universidade. Em seu doutorado, por exemplo, mudou de orientador depois que o primeiro lhe perguntou “A quem de fato lhe importaria os gordos?”.
Erika ressalta que, geralmente, o corpo gordo é tratado na arte como um corpo grotesco, abjeto, mas não como corpo político: puro silenciamento. O exílio do ideal da feminilidade, cuja sexualidade foi forjada desde a estetização pelo olhar masculino, obriga-me a ampliar mais a noção de dissidência sexual e, por consequência, de sexílio. Entendo, agora, que a condição cisheterossexual não implica necessariamente na correspondência ao modelo hegemônico: outras corpóreosubjetividades são expulsas da edênica cisheteronormativolândia.
O privilégio, volto a dizer, não é um monolito uniformemente impermeável, sendo a obra de Erika uma ranhura em sua superfície aparentemente homogênea: mulher cis, branca, em uma relação heterossexual – nada disso impede que seu corpo seja atravessado por estruturas de opressão múltiplas e simultâneas que caracterizam a interseccionalidade (ARIAS, 2015). E se parte do público de uma das primeiras performances em que se desnuda se retira da sala, é justamente
porque olhar é incluir.
Sexilado, político e desejante, não é de se espantar o desinteresse acadêmico pelo trabalho de Erika Bulle, dada a dificuldade de autocrítica da própria academia, ainda tão submersa nas dicotomias sustentadas pela colonialidade. O corpo gordo estetizado pela artista é uma oportunidade de reflexão sobre privilégios e subalternidades, para além de categorias mais tradicionais, tais quais classe e etnia.