Dialogando com a Linguística Sistêmico-Funcional (LSF), Fairclough (2003) compreende a modalidade como uma categoria ligada a “comprometimentos”, “atitudes”, “julgamentos”, “posturas” e, portanto, ligada à identificação. Ao fazer uso da linguagem, por meio de declarações, perguntas, demandas ou ofertas, as pessoas escolhem diferentes formas e níveis de comprometimento. Desse modo, a modalidade “é importante na tessitura das identidades tanto pessoal (‘personalidades’) quanto social, no sentido de que aquilo com o que a pessoa se compromete é parte significativa do que ela é” (Fairclough, 2003, p. 166)28.
A modalidade pode ser associada a tipos de troca (de conhecimento e de atividade) e a funções de fala (declarações e perguntas; demandas (ordem/pedido) e ofertas). O foco no primeiro tipo de troca é na troca de informação, ao interlocutor é solicitado que desempenhe um papel verbal - na elucidação de afirmações, nas reivindicações, na afirmação de fatos - a relação que se estabelece, portanto, é entre o enunciado com outros enunciados. Já no segundo tipo, o foco é na atividade, nas pessoas fazendo coisas ou conseguindo que as/os outras/as as façam. Nesse caso, há uma relação do enunciado com ações, frequentemente não textuais. (Fairclough, 2003).
Declarações e perguntas referem-se à troca de conhecimento; demandas e ofertas referem-se à troca de atividade. Em trocas de conhecimento, a modalidade é epistêmica,
27 Tradução minha do trecho “what people commit themselves to in texts is an important part of how they
identify themselves, the texturing of identities”.
28 Tradução minha. No original: Modality is important in the texturing of identities, both personal
refere-se ao comprometimento com a “verdade”; já na troca de atividade, a modalidade é deôntica, relativa ao comprometimento com a obrigatoriedade /necessidade. O quadro a seguir é elucidativo, ao exemplificar cada uma dessas subcategorizações:
Quadro 2 – Tipos de Modalidade
Modalidade Epistêmica:
Diz respeito às trocas de conhecimento. Pode ser nas formas de declarações e perguntas.
Modalidade Deôntica:
Diz respeito às trocas de atividade. Pode ser nas formas de obrigações (necessidades) e ofertas.
Declarações: refere-se ao grau de
comprometimento do autor ou autora com a verdade e podem ser:
Obrigações (Necessidades): referem-se ao
grau de comprometimento do autor ou autora com obrigação ou necessidade e podem ser:
- Afirmações: A lei está clara.
- Afirmações Modalizadas: A lei talvez esteja clara.
- Negativas: A lei não está clara.
- Prescritivas: Siga a lei!
- Modalizadas: Você deveria seguir a lei. - Proibitivo: Não siga a lei!
Perguntas: o autor ou autora explicita o
comprometimento de outrem com a verdade. Podem ser:
Ofertas: expressam o comprometimento do
autor ou
autora em agir. Podem ser: - Positiva não Modalizada: A lei já é oficial?
- Modalizada: A lei poderia já ser oficial? - Negativa não Modalizada: A lei já não é oficial?
- Aceitar: Eu seguirei a lei.
- Aceitação Modalizada: Talvez eu siga a lei. - Recusa: Eu não seguirei a lei.
Fonte: Fontenele (2014, p. 137)
É possível ainda fazer a distinção entre modalidade objetiva e modalidade subjetiva. Na modalidade objetiva, perspectivas parciais podem ser universalizadas, pois a base subjetiva do julgamento está implícita: não fica claro qual o ponto de vista privilegiado na representação, se “o falante projeta o seu ponto de vista como universal ou age como veículo para o ponto de vista de outro individuo ou grupo” (Fairclough, 2001, p. 200) (A Terra pode ser/é provavelmente plana). Na modalidade subjetiva, a base subjetiva para o grau de afinidade é explicitada, deixando claro que a afinidade expressa é do(a) próprio(a) falante (Penso/suspeito/duvido que a Terra seja plana).
No que diz respeito à realização linguística, os marcadores arquetípicos da modalidade na gramática tradicional são o “verbos modais” (poder, dever etc), mas existem muitas outras formas de manifestação: modo 29 e tempo verbal; advérbios modais (“provavelmente”, “possivelmente”, “obviamente”); adjetivos equivalentes (é
29 Geralmente, compreende-se que o modo subjuntivo, deferentemente do indicativo, não é categórico, mas
opcional. Entretanto Fiorin (2000) postula que essa afirmação precisaria ser confirmada com a análise de vários exemplos reais.
provável/possível); Além dessas, há uma gama um tanto difusa de formas de manifestação de vários graus de afinidade: indeterminação, padrões de entonação e aspectos da pronúncia, relato em discurso indireto. O quadro a seguir ilustra um pouco dessa variedade de marcadores de modalização:
Quadro 3 – Marcadores Linguísticos da Modalidade
Marcadores Linguísticos Exemplos
Verbos modais (poder, ter permissão para, dever).
Essa necessidade não pode, apenas, estar confinada em nossos discursos de professores.
Advérbios/locuções adverbiais modais (certamente, possivelmente)
(...) com certeza o que a gente tem aprendido
a repensar nossa prática. Advérbios de frequência (frequentemente,
sempre, nunca).
(...) sempre há uma vontade de fazer um mestrado.
Comentários que destacam processos mentais (cativar, atrair, achar, pensar).
(...) mas eu acredito que não dá pra sair preparado mesmo, né?
Particípio com função de adjetivo (requerido, exigido, obrigado).
(...) tem que cumprir tudo que nos é exigido do trabalho e a gente também tem que cumprir o que nos é pedido no mestrado Adjetivos modais (possível, provável, certo) (...) é claro, é minha profissão quero ganhar
dinheiro. Expressões mitigadoras que denotam a
imprecisão do discurso (meio, um tanto. Eu não sei se.., etc)
(...) e aí eu resolvi fazer Letras, né? Mesmo
sem saber bem ao certo o quê que era.
Discurso indireto (atribuição de um comentário a outra pessoa)
(...)dizem que tem preconceito, é, é bem
capaz que tenha. Entonação e aspectos da pronúncia (tom
hesitante, confiante, agressivo)
eu sei que assim, ela é... ela num foi, como é que eu posso dizer?
Elaborado pela pesquisadora com base em Fairclough (2003, p. 170-171), com exemplos retirados do corpus da pesquisa.
Para além dos modalizadores apresentados, os produtores podem, segundo Fiorin (2000), utilizar outros recursos para manifestar a modalidade em textos, até mesmo por meio de grandes blocos narrativos. Como mostrarei na análise das entrevistas, narrativas de experiências próprias podem servir para demonstrar alto grau de comprometimento com as proposições expressas.
Fiorin (2000), com base na Semiótica francesa, apresenta uma teoria das modalidades, que nos interessa aqui pelas contribuições que traz, principalmente no que se refere ao conceito de “sobremodalização”. Essa noção nos leva a perceber que diversas modalidades podem aparecer na mesma frase, com a possibilidade de haver sobremodalização de uma por outra. Pereira (2016), ao discutir esse conceito em seu texto, define-o, a seu modo, como uma “oscilação no comprometimento” do(a) produtor(a). Destarte, é possível perceber
um balanceamento entre asseveração/atenuação da força ilocucionária, ao fazer uso, no mesmo enunciado, de modalidade deôntica de alto grau de comprometimento combinada com um tom mais epistêmico. Concluo, assim, que as falas não são definidas sempre em uma única modalidade e que a análise da acumulação de valores modais pode revelar a força de uma obrigação, permissão ou autorização expressa no enunciado.
Fairclough (2001) destaca a importância do estudo da modalidade não apenas para o significado identificacional, pois há, na realização dessa categoria, mais do que o comprometimento do falante com suas proposições; ela pode também estar ligada a relações sociais, expressando, por exemplo, solidariedade com a pessoa com quem se fala.