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1.7 Immobilisations corporelles
1.7.2 Contrats de location-financement
Os anos 70 e 80 esboçaram o momento mais urgente do desejo de comunicação, atentando-se aqui ao fato de que entre esses anos, além dos arroubos poéticos que irrompiam na prosa, Hilda Hilst publicou, em 1974, Júbilo, memória, noviciado da paixão, o livro de poemas com o qual a Editora Globo dá largada à reedição da obra completa da autora em 2001. É surpreendente aperceber-se deste retorno à poesia, depois do drama politizado dos textos teatrais e depois de inaugurada a ficção que, de alguma maneira, distanciava-se da fase poética. Júbilo apresenta uma poesia ainda mais madura e intensa, em que a poeta exercita as influências de Petrarca e Camões, dos trovadores e as cantigas de amigo, os versos arrebatados com o tema do amor, ora eróticos, ora sublimes, ora místicos. Os títulos de cada série de poemas sem títulos (o que poderia ser lido como um mesmo poema) desse livro sugerem reminiscências de um tempo perdido. Neles, há claramente a imagem e a voz de um eu lírico, um Orfeu ou Dionísio: “Dez chamamentos ao amigo”, “O poeta inventa viagem, retorno, e sofre de saudade”, “Moderato cantábile”, “Ode descontínua e remota para flauta e oboé”, “De Ariana para Dionísio”, “Prelúdios-intensos para os desmemoriados do amor” e “Árias pequenas. Para bandolim”.
Numa linguagem muito mais prosaica, a última série de poemas desse mesmo livro intitula-se “Poemas aos homens do nosso tempo”, e a
referência é a do presente sombrio, muito próximo aos escritos de Hanna Arendt e seus homens em tempos sombrios. Os poemas de Hilda Hilst aos homens do nosso tempo foram dedicados aos artistas e mártires que padeceram a guerra e a repressão, a ditadura e a violência. Os vinte e sete poemas trazem cinco homenagens, a Alexander Solzhenitsyn, a Natalia Gorbanevskaya, a Piotr Yakir, Aleksey Sakharov e Pavel Kohout, quatro russos e um tcheco, artistas, poetas dos gulags e dissidentes soviéticos, ou da Primavera de Praga e do Partido Comunista da Tchecoslováquia. Há ainda um poema dedicado ao poeta e dramaturgo andaluz, mártir da Guerra Civil Espanhola, Federico Garcia Lorca, e uma epígrafe de Mário Faustino, onde se lê: “Não há bombas limpas”.
Nos “Poemas aos homens do nosso tempo”, “Cantando o amor, os poetas na noite / Repensam a tarefa de pensar o mundo”. Há inegavelmente um heroísmo e um martírio intrínseco a cada verso, uma ferrenha e exaurida luta já perdida contra os homens políticos, dirigentes, líderes, lobos. Em crônica de 1993, onde a escritora operava a anarquia de gêneros e contagiava o dia-a-dia do leitor acostumado e moldado pela linguagem jornalística, há uma conclamação aos operários da poesia, companheiros da luta vã: “POETAS DE TODO MUNDO, UNI-VOS!”. No poema em homenagem a Lorca, o poeta, diante da voracidade desses homens, expõe sua morte. Hilst canta seu sacrifício após o vaticínio de seu não-lugar no mundo, ela canta a seus pares, “aleijões da praticidade e do cotidiano”, “patéticos inconsumíveis”.
Os poetas são seres irreais, absurdos. Filhos da Quimera, da Ilusão. Não há nada mais esdrúxulo sobre a Terra do que o Poeta. Só o ornitorrinco. E é em homenagem aos poetas-ornitorrincos, os mais extravagantes de todos os seres, os líricos- devastados, os inoportunos, aleijões da praticidade e do cotidiano, os patéticos inconsumíveis, os loucos-outsiders, em homenagem a todos eles que eu transcrevo este meu poema, dedicado a um dos maiores ornitorrincos da Espanha, Federico Garcia Lorca. (HILST, 2007, p. 165)
Reitera-se mais uma vez a pertinência de incluir uma digressão sobre os livros de poemas de Hilst, embora esta tese se proponha a discutir sobre suas narrativas. Os escritos se comunicam, demonstrando também um fluxo intermitente entre os trabalhos, independente de gênero, ou mais precisamente, os gêneros servem para que a linguagem
demonstre sua transgressão. E caso o leitor não seja um “iniciado”, ao menos um dos poemas ganha uma leitura totalmente diversa, sendo que traz implícita um código a ser decifrado, como se houvesse uma exigência ao leitor de conhecer da autora todos os textos escritos anteriormente. No poema XV, há referência direta à narrativa publicada no ano anterior, em 1973, Kadosh, à época Qadós. Lê-se no poema o procedimento intratextual na recorrência de nomes que integraram suas narrativas: Qadós e Agda.
Leopardos e abstrações rondam a Casa. E as mãos, o ato puro pretendendo. Ainda Que eu soubesse o que tudo vem a ser. A ideia, a garra, de mim mesma não sei A fonte que gerou tais coisas nesta tarde Leopardos e abstrações. Que vêm a ser? Roxura, ansiedade. Memórias de Qadós. Soberba e desafio se fazendo ronda Plúmbeo Qadós diante da luz de Deus? Se as tardes se fizessem meninice Para que eu descansasse. Se as mãos
Fossem as mãos de Agda, eu decerto cavava. E morrendo, descobria a mim mesma Me fazendo leopardo e abstração. Na ociosa crueza desta tarde.55
E no poema XVI, o penúltimo do livro, a poeta evoca os biografemas, as questões recorrentes já iniciadas e aquelas do devir, com passagens que nos remetem aos temas de suas reclamações e ao enfrentamento ao trabalho produtivo, ao lucro, ao ouro. Diante da riqueza do homem, diante da usura, o poeta de Hilda Hilst expõe no sangue e no verso o sacrifício de si, o dispêndio do canto. Segue o poema XVI:
Enquanto faço o verso, tu decerto vives. Trabalhas tua riqueza, e eu trabalho o sangue. Dirás que sangue é o não teres teu ouro E o poeta te diz: compra o teu tempo Comtempla o teu viver que corre, escuta
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O teu ouro de dentro. É outro o amarelo que te falo.
Enquanto faço o verso, tu que não me lês Sorris, se do meu verso ardente alguém te fala. “Meu precioso tempo não pode ser perdido com os poetas”.
Irmão do meu momento: quando eu morrer Uma coisa infinita também morre. É difícil dize- lo:
MORRE O AMOR DE UM POETA. E isso é tanto, que o teu ouro não compra. E tão raro que o mínimo pedaço, de tão vasto Não cabe no meu canto.56
Se nas narrativas, trava-se o combate entre o eu lírico que teima em adentrar a rigidez dos pensamentos conturbados e multíssonos dos narradores da prosa e a linguagem cotidiana e prosaica que tudo desmascara, aparece na poesia a luta entre aquele que vive a busca do ouro “de dentro” e a inépcia do outro “que trabalha sua riqueza” perante o passar do tempo. Tempo este que “não pode ser perdido com os poetas”, pois a poesia é do reino da inutilidade. O “nosso tempo” cantado por H.H. é o tempo urgente num mundo onde os poetas morrem, assim como morre o amor e o ouro de dentro que o poeta canta. Na antologia de trechos de seus escritos selecionados, organizados e apresentados por Luisa Destri e publicados em 2010 sob o título Uma superfície de gelo ancorada no riso, pela editora Globo, Destri afirma que “apoiados na insistente afirmação do valor de sua própria palavra, os textos hilstianos realizam uma contundente defesa da raridade.” Essa apropriação da raridade pelo poeta herói e anjo caído e também pelo narrador das ficções, o “porco com vontade de ter asas”, é de fato uma constante, mesmo nas crônicas, onde a raridade dessa vez é claramente imposta ao leitor.
Ao todo, Hilda Hilst publicou 22 livros de poemas, onze narrativas, novelas ou contos, oito peças de teatro. As crônicas produzidas entre os anos 1992 e 1995 foram escritas por uma Hilda já sexagenária. Esses textos estabelecem com o leitor uma relação irônica, quase ofensiva, de enfrentamento direto, apesar dos constantes extravasamentos com a rememoração de seus poemas para o improvável
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deleite do leitor em sua apatia de domingo57. Na crônica de uma segunda feira, dia 5 de julho de 1993, antes de transcrever os três primeiros poemas da série Alcoólicas, publicado em 1990 pela Maison de Vins, (de fato, uma casa de vinhos), a cronista endereça-se ao leitor “como um soco”:
Com estes três poemas terminam minhas Alcoólicas. Ao todo foram nove. Quando os escrevi não bebi uma só gota. Algum gaiato dirá: bebeu milhares. Não. E espero que alguns “raros” tenham compreendido que é de uma outra embriaguez, de um fervor descomedido, o roteiro voluptuoso destes versos. É triste explicar um poema. É inútil também. Um poema não se explica. É como um soco. E, se for perfeito, te alimenta para toda a vida. Um soco certamente te acorda e, se for em cheio, faz cair tua máscara, essa frívola, repugnante, empolada máscara que tentamos manter para atrair ou assustar. Se pelo menos um amante da poesia foi atingido e levantou de cara limpa depois de ler minhas esbraseadas evidências líricas, escreva, apenas isso: fui atingido. E aí sim, vou beber, porque há de ser festa aquilo que na Terra me pareceu exílio: o ofício do poeta.58
As crônicas de Hilda Hilst servem muito bem de exemplo para demonstrar a eleição dos “raros” que seriam dignos de lê-la. É bem constante a agressão verbal, em tom debochado, ao leitor médio, que ela colocava numa posição de dona de casa desocupada e fútil ou qualquer outro medíocre e entediado trabalhador de classe média. Não poupava ironias quando referia-se a nomes ou citações em latim que muito provavelmente o leitor “não iniciado” não compreendia. Então, entre parênteses, ao lado do nome ou palavra, escrevia em alerta: “(Informe- se)”. Dentre os nomes que apareciam nesses escritos de jornal, figuravam Deleuze, Guattari, Michaux, Camus, Rilke, Hölderlin, Russell, Nietzsche, Simone Weil, Heidegger, Wittgenstein, para citar alguns. A poesia irrompia em meio ao cotidiano, às vezes quase
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Sua coluna começou a ser publicada às segundas-feiras, assim permanecendo até 20 de set. de 1993. A partir de 17 de outubro do mesmo ano até o final de sua colaboração para o jornal, passou a circular aos domingos.
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forçosamente, sem muita conexão à primeira vista. Seus poemas eram transcritos frequentemente, como também longos trechos das narrativas, embora a cronista sempre considerasse estar “jogando pérolas aos porcos”. O poeta no entanto, raro, é o herói que da lama tira seu “ouro de dentro”. Nessas suas crônicas, Hilda Hilst obviamente faz referências também aos acontecimentos obscenos ocorrido no Brasil daqueles anos, não muito diferente do Brasil de agora, como os escândalos de PC Farias e Fernando Collor, os anões do orçamento, a chacina da Candelária, as negociatas do FMI e mais uma extensa lista de impunidades, roubalheiras, atrocidades e crimes. Num desses desabafos, H.H. denuncia os poços do nordeste usados para irrigar as privadas e piscinas dos políticos, enquanto “deixam o povão morrendo de sede”. Mistura a primeira dama, ministros, contratos de cem milhões de dólares, lhamas e o poeta. O poeta sai heroicamente como que por encanto dessa crônica que em nada se aproximava da poesia, no entanto, a cronista intempestivamente arrisca: “Poeta e povo jamais compreenderão empréstimos de cem milhões de dólares para irrigar coisa alguma alhures, porque o teu próprio país está doente famélico sedento triste pobre inflacionado demente. Só a poesia salva. Ei-la: [...]” E estrofes inteiras de mais um poema da série “Poemas aos homens do nosso tempo” ganham a página do jornal de uma segunda-feira de 17 de maio de 1993.
De volta aos anos 70 e 80, anos de escrita e publicação desses poemas citados nas crônica, as evidências líricas e o projeto de atingir o leitor de fato tiveram pleno desenvolvimento na intensa produção de narrativas e poesia. Na orelha do livro que traz a última coletânea de narrativas dessa fase, cujo inédito Com meus olhos de cão é também um dos focos centrais para esta análise, um trecho da escritora e amiga Lygia Fagundes Telles endereçada à autora 15 anos antes enfatiza a aura mística da obra, além da suposta “beleza incompreendida” e o leitor raso (ao invés de raro), viciado (ao invés de iniciado), corroborando um caminho que já se iniciara e desde então persistira como uma espécie de projeto fracassado de comunicação. Segue o trecho da carta enviada em 1971 e publicada em 1986 na edição supracitada de Com meus olhos de cão e outras novelas:
Amor e morte com planejamentos místicos são os temas mais constantes dessa verdade que no conceito de Keats é a própria beleza. Beleza que não é fácil de ser entendida, beleza de um tempo que não é, senhores, de inocência, nem de
ternuras, nem de cantigas. Mas a tentativa de comunicação tem que ser feita sem nenhuma concessão ao leitor viciado na leitura rasa, alegre, descomprometida.59
O poeta herói de Hilda Hilst trava guerra com o leitor raso, com os editores, com a mediocridade e com toda cultura do útil e do trabalho, das convenções e do gosto médio, consumível e digerível. Nas narrativas, o poeta herói sabe-se decididamente destituído da auréola, que jaz no fundo da lama, soterrada pelos pés da multidão. Inadaptado, o herói vira o porco ao chafurdar inutilmente nessa lama, vira antes unicórnio, sem fábula, sem poderes, sem mitos. A metamorfose acontece como uma epifania às avessas.
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TELLES, Lygia Fagundes. Orelha do livro Com meus olhos de cão e outras novelas e Suplemento Literário de dezembro de 1971 com transcrição de carta de Teles a Hilst.