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CONTRAT REGIONAL D'EQUILIBRE TERRITORIAL 2017-2019 Cadre d’intervention :

TABLE DES ILLUSTRATIONS

ANNEXE 3- CONTRAT REGIONAL D'EQUILIBRE TERRITORIAL 2017-2019 Cadre d’intervention :

Etimologicamente, a alma para a cultura hebraica não é mais modesta que a grega. Apesar da menor riqueza léxica, há uma profundidade semântica indicadora de um longo e complexo processo histórico de passagem de uma cultura de modo nômade para uma cultura sedentária. Faltam algumas categorias presentes na alma para os gregos, mas compensam em outras categorias mais abstratas. O hebraico nos lega as palavras neph

ê “alma, vida”, aww̄˼ “desejo, geralmente vinculado aos desejos do nephê”, r̄ạ “espírito”, yidhə̄ni “espírito familiar”, n˹̂̄m̄˼ “respiração, espírito”,

̄bh“designando ao mesmo tempo o médium e o espírito mediado”.

Na cultura hebraica bíblica se fala de neshamah (sopro), de nephesh (respiração) e de ruah (sopro vital). Na narrativa bíblica se fala de divina

insufflatio como animação do corpo e juntamente criação do homem

enquanto indivíduo. (VANZAGO, 2012, p. 18). Nephê ( פנ)

Nephê possui um campo semântico bastante amplo: respiração, aroma, perfume, alma, mente, vida, ânimo, sede das emoções, desejo, criatura viva. Acrescido de sufixos pronominais indica a essência de um sujeito: Naphə̂̄ “eu meὅmo, ego”, neph

eshəkhā “tu meὅmo” etc. (SCHWANTES, 1981).

Entre os judeus havia o conceito de que a alma de um morto tendia a desaparecer com sua morte, sendo, portanto, uma cultura aniquilacionista24. A maior discussão a respeito centra-se na dúvida de se essa cultura veio a aparecer tardiamente, ou se é uma derivação de uma cultura hebraica ainda em seu estágio primitivo. Porém, o que interessa é que para os hebreus, o neph

ê morre com o corpo, e ele pode ser reanimado de diversas formas e métodos (VANZAGO, 2012 p. 23) apontando para uma diferença fundamental em relação ao termo , do grego, que aponta para um estado permanente e irrecuperável após a morte, em que a pessoa, antes viva, permanece para

24 As culturas aniquilacionistas e metempsicóticas são, a princípios, opostas. Enquanto estas creem na

sobrevivência da alma após a morte, aquelas creem que a alma desaparece com a morte do sujeito (VANZAGO, 2011).

sempre como fantasma. Strong (2006) aponta também como significadoὅ “paixão, apetite, emoção”, apὄoximando maiὅ ainda do teὄmo do grego.

O proto-semita*√nps ̣ “ὅacudiὄ, mexeὄ, ὃuebὄaὄ, deὅtὄuiὄ” (HἧEHζEἤἕρἤD, 2000) ou *√npš “ὄeὅpiὄaὄ” (εIδIἦρἤEV, βί11) apὄeὅentam-se como a origem etimológica do termo, apesar de o segundo ser mais certo. Ambos os termos derivariam do afrasiático*n∇f∇s- “ὄeὅpiὄação” (εIδIἦρἤEV, βί11)έ

O verbo hebraico n̄ph

â (ׁ ) “tomaὄ alento” (SCHWANTES, 1981) está relacionado ao aramaico-siríaco nəphâ “hálito de vida, alma, eὅpíὄito, mente, cὄiatuὄa viva”, maὅ, no ἥul-Arábico Arcaico, há a raiz √np̌ “lápide, cadáveὄ, paὄto” (KδEIζ, 1987), indicando que existe uma relação com o campo semântico apontado por Huehnergard (2000) no Proto-Semita. Mas ainda em Árabe existem os vocábulos nafusa “eὅtava de eὅtima elevada” e n̄˺asa “ele deὅejou algo”. O etíope nafs, os vocábulos acadianos nappishtu “vida, ὅeὄ vivo, peὅὅoa” e nap̄s˼u “ὅopὄaὄ, tomaὄ fὲlego” (KδEIζ, 1ιθἅ) e o mandaico nap̌- “alma, peὄὅonalidade, ego” (εIδIἦρἤEV, 2011) reforçam o campo semântico hebreu. Como reforço, comparar com o termo acadiano nap̌utu “gaὄganta, vida, ὅeὄ vivo, alma, peὅὅoa, indivíduo”έ

aww̄h ( )

Outro termo usado para designar a ideia de uma alma ou espírito é aww̄˼ ( ) ὃue indica “deὅejo”, geὄalmente vinculado aoὅ deὅejoὅ do nephesh, mas também ὅignifica “cobiça, aὅpiὄação, almejo” (KLEIN, 1987; SCHWANTES, 1981). A raiz é pouco usada em hebraico, e está ausente nas línguas semitas, apontando para um uso típico do hebraico.

R̄ạ (ח )

R̄ạ é geὄalmente tὄaduὐido como “eὅpíὄito” e, pὄincipalmente em tὄaduçὴeὅ cὄiὅtãὅ, é eὅpecificado como o “Eὅpíὄito ἥanto” ou a “ligação entὄe o ente vivo e Deuὅ” (GILSON, 1995). A raiz √rw˼̣ possui uma dupla acepção. De um lado, seu significado gira em torno daὅ ideiaὅ de “alívio” e “eὅpaço”, e, poὄ outὄo lado, aὅὅume o ὅignificado de “cheiὄo, ὅopὄo” (ἥἑHWρζἦEἥ, 1ιθ1), no Hifil – modo causativo ativo do verbo – ὅignifica “ele feὐ cheiὄaὄ”έ ρ raiz, quando assume as formas substantivas, apresenta como derivações rəẉ̄̄˼ “alívio” e r̄ạ “ὅopὄo, vento, eὅpíὄito, pὄincípio de vida”έ Em algunὅ caὅoὅ, até aὅὅume um ὅignificado como “coὄagem, ὄaiva” (ἥἦἤηζἕ, βίίἅ)έ Como visto nos casos gregos, suspeita-ὅe ὃue ideiaὅ como “eὅpíὄito” e “pὄincípio de

vida” ὅejam taὄdioὅ na hiὅtóὄia, enὃuanto ὃue “ὅopὄo” e “vento”, poὄ teὄem acepçὴeὅ mais empíricas, seriam o significado primitivo do termo.

A etimologia de √rw˼̣ no ὅentido de “eὅpaço, alívio” pode ὅeὄ veὄificada no termo árabe rawịa “foi amplo” e no etíope ra̮awa “ele abὄiu”έ ζo ὅentido de “cheiὄo, ὅopὄo, ὄeὅpiὄação” veὄifica-se no Siríaco ṝ “ele ὄeὅpiὄou” e o Áὄabe ὄūh ̣ “vento , aὄ”έ ρ relação entre espaço, alívio, sopro e respiração pode, segundo Klein, estar vinculada ao fato de que originalmente a raiz proto-semita *√rw˼̣ ὅignificaὄia “o aὄ ὃue paὅὅa entὄe doiὅ objetoὅ” (KδEIζ, 1ιθἅ, pέ ἄ1ί)έ

Yidhə ̄n̄ (ינ ע י)

O yidhə̄n̄ pode ὅeὄ entendido como “eὅpíὄito familiaὄ, adivinho” (KLEIN, 1987; SCHWANTES, 1981). O termo tem sua origem na raiz√yd , que possui uma gama de significados: saber, experimentar, reconhecer, preocupar-se, conhecer, aprender, compreender, distinguir, mostrar, confessar e proclamar (SCHWANTES, 1981). Aproxima-se do aramaico yədha “ele conheceu”, ugarítico yd , do acadiano e do assírio id̄ “conheceὄ” (KδEIζ, 1ιθἅ), do etíope ayde a “faὐeὄ conheceὄ” (KδEIζ, 1987), do fenício √yd “anunciaὄ, naὄὄaὄ”έ

A relação específica do espírito com a família pode ser verificada no afrasiático* ∇ n d- “comunidade, tὄibo, clã, peὅὅoa” (εIδIἦρἤEV, βί11), como ὅe observa no Zenaga – língua do ramo Berbere – eddiya “família, paὄenteὅ, peὅὅoa”, relação presente na maior parte das línguas Afrasiáticas, especialmente dos ramos Berbere, Cuxítico, Chádico e Semita (MILITAREV, 2011). Nesse sentido, yidhə ̄n̄ teria uma relação especial com o espírito de uma família, como um totem, tal qual ocorre na Austrália (DURKHEIM, 1996).

Porém, há também um significado primitivo para "conhecer", apesar de a palavra ser usada para uma grande variedade de sentidos figurados, literários, eufemistas, e para o conhecimento e aquisição do mesmo, para advertências, perguntas, respostas, apontamentos e diversos outros sentidos (STRONG, 2006).

Compare também com o mandaico mandaya “teὄ conhecimento” e o aramaico manda /madda “conhecimento” (HἧEHζEἤἕρἤD, βίίί) – em línguas semitas, o prefixo m- indica um verbo na sua forma nominal, absorvendo o y- ou w- inicial (MENDES, 1981). A raiz proto-semita *√yd (HUEHNERGARD, 2000) já estava ligada em sua origem ao conhecimento, mas focando-se no conhecimento das coisas que se manifestavam, ou seja, aquilo que se podia ver e ouvir.

θoὄ ὅignificaὄ ao meὅmo tempo um “eὅpíὄito familiaὄ” e um “adivinho”, amboὅ derivando de uma raiz ligada ao fato fenomenológico, ocorre então uma relação clara da presença de fenômenos mediúnicos entre os hebreus, mas também de uma cultura totêmica anterior, em que o espírito representava não somente uma pessoa, mas todo um clã (DURKHEIM, 1996). Havia portanto um adivinho que incorporava o espírito de alguém (ou de uma família), e este se dava a conhecer ou se manifestava diante de todos. O yidhə̄n̄ apontava para a presença entre os afrasiáticos de um espírito no sentido totêmico (TRAUNECKER,1995): guia e representante de um determinado clã.

Nê̄m̄h ( מ נ)

ἥignificando “eὅpíὄito” taὄdiamente, nê̄m̄˼ significava originalmente “ὄeὅpiὄação, ὅopὄo de vida, fὲlego”έ ἥeu ὅignificado oὄiginal advém da raiz √nŝm “ofegaὄ” (SCHWANTES, 1981). Há recorrência de cognatos semelhantes no aramaico- siríaco nashəm̄˼ “ὄeὅpiὄação, ὅopὄo de vida” e no árabe nasama “ele ὄeὅpiὄou gentilmente” (KδEIζ, 1ιθἅ)έ ρpeὅaὄ de não exiὅtiὄem paὄaleloὅ afrasiáticos, há o termo da língua jibbali – do ramo arábico – enúsum “ὄeὅpiὄação” (MILITAREV, 2011).

Sua ligação dupla com o empírico e o não-empírico apresenta-se no hápax nê̄m (KLEIN, 1987), ὃue apὄeὅenta o teὄmo ὅignificando “deὅtὄuiὄ” e ao meὅmo tempo “ὅuὅpiὄaὄ”, levando a ambiguidadeὅ naὅ tὄaduçὴeὅ (ἥἦRONG, 2006).

Da mesma forma que o termo grego não tinha relação inicial direta com o mundo espiritual, o termo hebraico não era voltado inicialmente ao mundo espiritual. Porém, o vocábulo era também usado em contexto ritual e mesmo profético, imprimindo-se de uma semântica sagrada devido ao contexto sagrado de seu uso.

̄bh ( )

A existência de mediunidade na cultura hebraica pode ser verificada em ̄bh “eὅpíὄito de um moὄto, médium” (SCHWANTES, 1981). Designativo ao mesmo tempo do mediador e do espírito mediado, seu significado em muito se aproxima de yidhə̄n̄. O termo indica que havia uma antiga prática necromante na cultura hebraica, e mais de uma forma de compreender a alma. Enquanto que neph

ê aponta para algo que morre com o corpo, ao mesmo tempo algo retorna dos mortos e interage com os vivos. Por essa razão, ̄bh e yid̄n̄ podem estar intimamente ligados à mesma ideia de .

̄bhtambém ὅignifica “odὄe”, ὄecipiente de pele de cabὄa, geὄalmente uὅado paὄa portar água, leite e vinho. Por existir a mesma palavra indicando ambos os termos,

talvez ocorra o uso de algo que era bebido no ritual para que a consciência pudesse ser alterada e, com isso, o espírito pudesse vir até o sacerdote (STRONG, 2006). O termo talvez aponte para um resquício de uma prática xamânica, o de ingerir algum alimento alucinógeno (como no caso do vinho) e induzir uma experiência xamânico-mediúnica que trouxesse ao mesmo tempo um espírito e a sabedoria (ou conhecimento).

A etimologia do termo não ajuda, por ser bastante obscura. Klein (1987) aponta para o árabe ̄ba “ele ὄetoὄnou”, denotando um fantaὅma ὃue ὄetoὄnou do outὄo mundo, tal como ocorreria com o francês revenant “fantaὅma”, ὃue deὄivaὄia de revenir “ὄetoὄnaὄ” (KδEIζ, 1ιθἅ)έ θoὄém Huehneὄgaὄd aponta ὅua oὄigem paὄa o θὄoto-Semita *√ b “pai, anceὅtὄal”, ὃue é ὄefoὄçado poὄ ἥtὄong (βίίἄ)έ ρὃui pode-se observar que o termo originalmente podia ter ligação com a mesma ideia que perpassa as religiões mediúnicas de matiz africana, em que o necromante atende pelo título de pai ou mãe, e o espírito que eles incorporam muitas vezes pode ser o de um ancestral da tribo ou da família (CACCIATORE, 1988).

Elementos semelhantes podiam ser encontrados na cultura hebraica, como nos revelam a presença de rituais mediúnicos e xamânicos no livro de I Samuel 28, no qual Saul consulta uma necromante, que lhe faz vir o espírito de Samuel e, através da fumaça, o mesmo espírito o admoesta sobre a guerra contra os filisteus.

Portanto, os sistemas metempsicóticos do Xamanismo, com suas possessões, o sacrifício de animais e a sexualidade ritual estavam sempre presentes na religião grega e hebraica, até mesmo em suas fases mais tardias25.