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CONTEXTE

Dans le document ETMIS2009_Vol5_No10 (Page 26-30)

Em 1964 no Brasil um golpe civil-militar depôs o presidente eleito João Goulart, inaugurando “uma nova etapa na história política nacional, com profundas

repercussões nos aspectos socioeconômicos, culturais e humanos”88. Com o golpe se

instituiu um regime de exceção, marcado pela diminuição das liberdades individuais com o forte objetivo de desmantelamento dos movimentos sociais de cunho democrático, contra as reformas, bem como forma de barrar o processo de politização das organizações da sociedade civil.

O governo João Goulart nasceu, conviveu e morreu sob o signo do golpe de Estado. Se, em agosto de 1961, o golpe militar pôde ser conjurado, em abril de 1964, no entanto, ele deixaria de se constituir no fantasma que rondou e perseguiu permanentemente o regime liberal-democrático inaugurado em 1946 para se tornar uma concreta realidade.89

Desde o início da década de 1960 a hegemonia do projeto populista enfrentava grandes dificuldades. “A crise do populismo se expressou através do crescimento da

86Idem. 87 Idem.

88 WASSERMAN, Claudia. O império da Segurança Nacional: o golpe militar de 1964 no Brasil Org.

Claudia Wasserman et al. In.: Ditaduras militares na América Latina. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2004. p. 27- 44. p.27

mobilização e da radicalização do conjunto dos setores subalternos, bem como a

correspondente reação dos grupos dominantes”90. Além dessa maior mobilização das

classes subalternas – e posteriormente da classe média, o governo Goulart foi

marcado por uma intensa crise política, evidenciado notadamente pela sua incapacidade de aprovar emendas constitucionais, causando um fenômeno chamado de “Paralisia Decisória”. Nesse mesmo sentido, uma crise econômico financeira, cuja saída, segundo a política estabelecida pelo Executivo encontrava-se na aprovação das Reformas de Base, que de forma geral, pretendia a partir de diversas ações

manter o índice de crescimento elevado e controlar a inflação91.

Sem o apoio necessário no Congresso para aprovar as reformas que acreditava serem urgentes, Jango se aproxima da base política de seu partido (movimentos populares e sindicatos), buscando produzir pressão política para efetivar a aprovação das Reformas de Base. Com o aguçamento das greves e das mobilizações em prol da aprovação de tais reformas, defendendo também a democracia e a extensão dos diretos trabalhistas ao campo. Em contrapartida, os setores à direita como IPES, o IBAD, setores da igreja, entre outros, alguns financiado pelo capital internacional e pela embaixada dos Estados Unidos, passam a denunciar por diversos meios a “subversão” e a “comunização do país”, efetuando uma ampla campanha a fim de

desestabilizar e desacreditar o governo de João Goulart92.

A efervescência do período era muito grande, lembrando que, embora todas as medidas propostas pelo Executivo fossem compatíveis com o projeto populista, “eram politicamente explosivas, pois, liquidavam qualquer disposição da burguesia agrária em aceitar a direção política do bloco político constituído sob a direção da burguesia

industrial”93. Nesse sentido, as muitas movimentações durante o período, embora

caracterizassem um período de efervescência política e cultural, não denotava necessariamente uma associação ao comunismo como argumenta Wasserman,

Mesmo que nem toda movimentação desses setores significasse necessariamente uma adesão a qualquer ideal mais progressista, revolucionário ou “comunista”, esta sinalização foi suficiente para servir de

90 MATTOS, Marcelo Badaró; VEJA, Rúben. Op. Cit. p.21.

91 Ver MOREIRA. Op. Cit. Nesta obra, o autor de forma aprofundada retoma o projeto de nação do

governo João Goulart, de forma especial sob uma ótica econômica.

92 TOLEDO, Caio Navarro. 1964: Visões críticas do golpe: democracia e reformas no populismo

Campinas, São Paulo: Editora da Unicamp, 1997.

pretexto aos golpistas de que estava na hora de bloquear estas atividades reivindicatórias, consideradas subversivas.94

No Rio Grande do Sul, os grupos dominantes gaúchos principalmente agropecuaristas e empresários, apoiavam diversos manifestos, muitos deles encontrados no jornal Correio do Povo. Entre estes grupos, alguns haviam defendido a Legalidade em 1961, no entanto, conforme figurava, “a defesa de um Golpe agora aparecia como a defesa da Constituição. Aliás, a Legalidade, gestada no Rio Grande do Sul e que havia sido a senha para aprofundar as mudanças, agora era intolerável

como símbolo da resistência”95.

O governador do estado Ildo Meneghetti, eleito a partir da sigla que unia diversos partidos conservadores, a Ação Democrática Popular – ADP é considerado um dos principais responsáveis no que tange a constituição de hegemonia política e legitimidade do golpe no Rio Grande do Sul. Conforme Wasserman, no final do ano de 1963, o então governador se posicionou publicamente em um manifesto que alertava “os riscos da “comunização”” do país, devido à fragilidade do quadro político e do contato de Jango com os comunistas.

De acordo com o exposto, o estado gaúcho teve um papel de extrema importância nos acontecimentos que depuseram o então presidente João Goulart. A conjuntura era tão difícil quanto no restante do país, com o diferencial da existência de uma bancada pró-Jango bastante significativa, que justificaria, o que será visto mais adiante, a grande preocupação do jornal em descaracterizar aqueles que eram aliados de Jango e Brizola. Somado a isso, a economia do Estado encontrava-se em decadência, o que possibilitava espaços para a mobilização de trabalhadores, realizando greves e reivindicações.

De modo que, as ideias assentadas e projetadas pelo Correio do Povo na sociedade, de caos e de imediatos conflitos, encontram terreno fértil nas difíceis condições em que a economia nacional se encontrava, apelando fortemente para a

94 WASSERMAN, Cláudia. O golpe de 1964: O Rio Grande do Sul “celeiro” do Brasil. In. Ditadura de

Segurança Nacional no Rio Grande do Sul: história e memória. Porto Alegre: Corag, 2010 – v.1; p. 51-70. p. 58

95 KONRAD, Diorge Alceno; LAMEIRA, Rafael Fantinel; LIMA, Mateus da Fonseca Capssa. O Golpe e

a Consolidação da Ditadura Civil-Militar no Rio Grande do Sul. Revista Scielo. ISSN 1852-9615 vol.14 no.1 Mendoza, jun. 2013. Disponível em: http://www.scielo.org.ar/scielo.php?pid=S1852- 96152013000100007&script=sci_arttext Acesso em 12/02/2016.

desconstrução de João Goulart e recorrente associação com o comunismo internacional, construindo as bases para pôr a legalidade de seu governo em cheque.

2 O CORREIO DO POVO E A DESLEGITIMAÇÃO DO GOVERNO JOÃO GOULART

Nesse capítulo evidencia-se principalmente a construção das críticas direcionadas ao governo de João Goulart no primeiro trimestre do ano de 1964, que com o propósito de informar a população, o jornal Correio do Povo nos editorias e artigos assinados dissemina sua ideologia e seu entendimento sobre os eventos, carregado pelos interesses de classe que representa.

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