Nas semanas seguintes foram iniciadas as investigações sobre o assassinato de Carlindo e de Aníbal, com a abertura do inquérito instaurado pela Secretaria do Estado do Interior de Segurança (SEIS). No entanto, o crime cometido contra Carlindo somente foi desvendado no dia 04 de maio do ano de 1970, quando a Polícia Federal capturou um dos pistoleiros envolvidos. Edmar Nunes Leitão foi encontrado no Ceará pelas autoridades policiais; sua prisão teve repercussão em todo o Nordeste, principalmente na cidade de Caicó. Antônio Letreiro, como era conhecido, foi levado a julgamento em 27 de outubro do ano de 1971, declarando ao juiz Antônio Lúcio quem foram os mandantes da morte de Carlindo Dantas.
O pistoleiro em seu depoimento confessou que tinha matado o deputado de Caicó, juntamente com seu irmão Edmilson Leitão, o Zé Maria, a mandado do Coronel Bastos Queiroz, dos médicos Pedro Militão, Osvaldo Lobo, mais o então prefeito de Quixaba, Edmilson Queiroz. O contrato estabeleceu que Carlindo seria assassinado em Natal. Aqui não pode ser, havia dificuldades na fuga. Por isso o crime foi transferido para Caicó mesmo, onde existia mais condições para os pistoleiros fugirem (Tribuna do Norte, 16 de outubro de 1971)22.
Edmar Leitão prossegue no depoimento revelando informações sobre o “Sindicato do Crime”.
Vivia fugindo da polícia, um corre-corre por fazenda, lugarejos e várias cidades do Nordeste. Cercado pela polícia viu outro irmão ser morto. Edmar junto com Edmilson iniciou sua vida, o criminoso, associando ao “Sindicato da Morte”, desta vez como executor O “Sindicato do Crime”, onde eram empreitadas mortes para serem executadas em todos os Estados do Nordeste brasileiro. A este sindicato havia os organizadores chefes que tinham homens em armas sempre prontos a executar qualquer assassinato a troco de dinheiro. Os preços variavam de 500 cruzeiros a 20 mil. Havia cinco “coiteiros’ os responsáveis pelo Sindicato do Crime agenciando pistoleiros acobertando-os e infiltrando-se até entre as fileiras da própria polícia como o sargento Mário de Araújo”. (Diário de Pernambuco, 30 de abril de 1970)23
.
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Antônio Letreiro. Tribuna do Norte, Natal, 16 out. 1971.
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Bastos Queiroz, citado pelo pistoleiro no depoimento, era o pai de Onaldo Queiroz. Pedro Militão e Osvaldo Lobos eram médicos; Mario de Araújo Figueiredo era o sargento que dava ordens na delegacia de Caicó. Não foram declarados os motivos pelos quais esses homens foram considerados os autores do crime cometido contra Carlindo. O que se constatou foi que nesse período Carlindo não se dava bem com a maioria dos médicos da cidade, pois “não se enquadrava nos padrões da época, era um transgressor das normas sociais, na vida pessoal e profissional” (MEDEIROS, 2000, p.35).
Carlindo também enfrentava a maioria dos integrantes do quartel de polícia, “batendo boca” muitas vezes com delegados e policiais. Além disso, desde o assassinato de Onaldo Queiroz, do qual Carlindo fora absolvido pela justiça, não deixou de ser visto como aquele que o odiava, como o mandante do crime contra o paraibano. Desavenças políticas e brigas pelo poder eram constantes em uma época marcada pelos crimes de honra e pelo banditismo no sertão, donde imperava a lógica da justiça com as próprias
mãos. Porém, essas eram apenas considerações levantadas durante as investigações, as
quais não foram suficientes para condenar os réus à prisão.
Apesar da apuração realizada com o pistoleiro sobre o Sindicato do Crime e os mandantes da morte de Carlindo, o único condenado (a 56 anos de prisão) foi Edmar Leitão. Este não tinha cometido somente o assassinato do médico Carlindo Dantas e de Aníbal, mas tinha assassinado políticos em vários estados do Nordeste, como na Bahia, em Sergipe, em Alagoas e em Pernambuco. Os autores dos crimes que tiraram a vida do médico e do industrial em Caicó, conforme denunciados pelo pistoleiro preso, foram todos absolvidos pela justiça. O julgamento de Antonio Letreiro e dos mandantes da morte de Carlindo foi noticiado por toda imprensa nordestina. Diário de Natal, A Folha em Caicó, Jornal do Ceará e o Diário de Pernambuco tinham os seguintes títulos de manchete: “Para a advogada, só as forças do Além podem resolver os crimes de Caicó”, “Matar um deputado em Caicó, um plano muito bem traçado e executado”, “Edmar: O crime de Caicó e o trabalho da polícia”.
Edmar se tornou bode expiatório e foi condenado a 56 anos de prisão. Esta reportagem foi noticiada no final do julgamento de Antônio Letreiro, em 1971, que dizia o seguinte:
Edmar foi condenado a 56 anos de prisão, pena a ser cumprida na colônia penal. Atualmente Edmar tem 24 anos, concluída a sentença a qual foi condenada, estará com 80 anos de idade, pelos demais crimes que é acusado e que confessou deverão ser impostas as penas, que sorradas, podem totalizar 150 anos de reclusão, admitindo-se 25 anos por cada crime de morte. De acordo com as penas impostas pelo Tribunal Popular do Juri de Natal. Hoje pode-se dizer sem sombra de dúvidas, que Edmar está condenado a prisão perpetua, vai pagar sozinho pelas as atividades do “Sindicato do Crime”, a mais misteriosa máquina de assassinatos, onde nela Edmar não passa de uma simples peça. (Tribuna do Norte, 28 de outubro de 1971)24.
Esta reportagem apresentou a indignação dos jornalistas e da população caicoense pela absolvição dos demais participantes do crime que matou Carlindo Dantas. “A chacina em Caicó” era um título frequente nas reportagens dos jornais locais que, por sua vez, denunciaram muitos crimes ocorridos após a morte de Carlindo Dantas. Um dos crimes que chamou a atenção da sociedade caicoense, ocorrido no dia 28 de setembro de 1969, foi o de Nilson, filho de Aníbal – encontrado morto às margens da BR 427, próximo ao açude Itans; seu corpo estava com sinais visíveis de tortura.
Segundo o jornalista Orlando Caboré, que reuniu informações de pessoas que vivenciaram o acontecimento, na noite que o jovem foi morto, seu carro foi perseguido por uma Rural da PM, na qual os policiais o arrastaram forçosamente para o interior do automóvel. O motivo de Nilson ter sido assassinado estava associado a sua descoberta sobre os autores do crime cometido contra seu pai. Após a descoberta, Nilson morreu sem chance de defesa, como uma queima de arquivo.
O doutor Pedro Militão, que na época também exerceu a profissão de docente no Instituto de Educação em Caicó, foi assassinado quando entrava na escola para lecionar o Curso pedagógico de formação dos professores. Houve um tiroteio dentro do recinto escolar que atingiu este médico. Não se descobriu a identidade dos assassinos; imperava a lei do silêncio.