Uma das principais características da realização das aulas expositivas foi a sua vertente dialógica, o que revela a adequação deste formato de aula ao objetivo teórico-metodológico da pesquisa. O uso do vídeo-charge que retratou de forma lúdica a questão dos aditivos químicos permitiu que os alunos sinalizassem as primeiras impressões sobre a temática. Uma das quais se mostrou mais evidente, ocorreu com relação ao término do vídeo, no momento onde a personagem “Lêda” elenca vários aditivos químicos, o que suscitou o seguinte questionamento de um estudante para a professora: “Quais as funções de todas estas substâncias, são conservantes? ”. Logo a professora aproveitou para responder que nem todas desempenham o papel de conservação, exemplificando que alguns exercem outras funções, como as de emulsificação, consistência, coloração, dentre outras funções.
Neste momento, há uma ampliação dos objetos de estudo, de modo que mais alimentos são citados e englobados no grupo dos aditivados. Através destas primeiras discussões, a professora realiza algumas perguntas para os alunos para promover a emergência de alguns posicionamentos no contexto do grande grupo. Ela chama atenção para o fato de que existem conservantes naturais e artificiais, e numa tentativa de trazer explicações a este respeito lança o seguinte questionamento: “Se vocês pudessem escolher, optariam por consumir alimentos com conservantes naturais ou artificiais? ”. Prontamente, a maioria absoluta dos alunos indicou preferir consumir alimentos com conservação natural, o que permitiu a professora
77 solicitar que alguns justificassem o motivo desta escolha. Neste momento, alguns preferiram não justificar os posicionamentos assumidos, enquanto um estudante repentinamente mencionou: “Porque tudo o que é natural, faz bem à saúde”, e muitos dos alunos demonstraram através de suas expressões que concordavam com a afirmação feita pelo estudante. Neste momento, a professora questiona mais uma vez, agora pedindo que eles tentassem embasar tal afirmação, quando um dos alunos retrucou “é o que nós vamos aprender na aula de hoje”. Para além destes questionamentos, muitos outros foram possibilitados, o que permitiu uma introdução mais científica, do que são os conservantes, suas classificações e mecanismos de ação.
Até este momento, podemos considerar, segundo nossos objetivos da pesquisa, que a inserção do vídeo charge se configura através do nosso olhar teórico, como um atendimento ao princípio da não centralidade do livro de texto, do uso de documentos, artigos e outros materiais educativos e da diversidade de materiais instrucionais (Moreira, 2000). Esta perspectiva compreende o entendimento de que os temas mais próximos e consequentemente mais atraentes aos alunos, hoje se encontram disponíveis para muito além dos livros didáticos. Falar sobre os alimentos do tipo “fast-food” implicou em uma pesquisa prévia da professora, sobre os tipos de aditivos químicos utilizados nestes alimentos e suas respectivas funções. Também observamos que uma marca característica desta aula, é a aplicação do princípio da interação social e do questionamento, à medida que o ensino implica em aprender perguntas ao invés de respostas prontas.
Não obstante a isto, vimos que a aplicação deste princípio resultou em um posicionamento por parte dos alunos, ainda que muito baseado no senso comum, quanto todos optaram pelo consumo de conservantes naturais em detrimento dos artificiais. Isto revela algumas construções discursivas possibilitadas por ações pragmáticas do professor, no sentido de proporcionar um ambiente no qual o aluno se sinta à vontade para posicionar-se (De Chiaro e Leitão, 2005). A resposta do aluno “é o que nós vamos aprender na aula de hoje” fornece indícios sobre a necessidade de que ações epistêmicas sejam implementadas pelo professor, para o estabelecimento de outras ações, como as argumentativas.
Temos, no entanto, que promover a argumentação em sala de aula, é uma tarefa nada simplória e que o alcance desta última, necessita de um constante controle do professor. Ressaltamos neste sentido que as finalidades destas aulas expositivas dialogadas iniciais não compreenderam executar todas as ações discursivas do professor para emergência e manutenção da argumentação, mas em alguns momentos, estas ações foram utilizadas para
78 proporcionar nesta fase inicial, o “start” provocativo das relações argumentativas em sala de aula.
No que diz respeito à aula expositiva dialogada sobre a química dos medicamentos, temos que um dos primeiros diálogos compreendeu o intercâmbio de algumas perguntas e repostas entre professor e aluno. No que diz respeito à captação das falas dos estudantes, não é suficiente a contemplação das interlocuções alternadas, mas é preciso apreciação do jogo corporal que se soma ao código linguístico, permitindo que os interlocutores estabeleçam adaptações, continuamente, em suas enunciações, às necessidades do outro e do contexto em que se desenrolam. Tais signos semióticos são parte constitutiva do texto oral, estando presentes, em maior ou menor grau, em todos os gêneros da oralidade (Heine, 2012). Abaixo podemos ver uma pequena conversação, representada pela descrição das falas da professora (P) e o estudante (E).
P - “Ao tomarmos um medicamento para dor de cabeça como a aspirina, por exemplo, o nosso organismo “entende” que algo deve ser feito. O sintoma desaparece quando o fármaco que ingerimos se liga ao biorreceptor responsável pela dor de cabeça”.
E - “E como o medicamento vai se ligar justamente naquele biorreceptor responsável pela dor de cabeça? ” (Indaga o estudante)
P - “Através de mecanismos químicos! Lembra que algumas moléculas possuem muitos grupos funcionais? Você poderia citar alguns... me fale de um que você lembre!
E - “Tem os grupos cetonas, ácidos carboxílicos...” (O estudante demonstra um certo esforço para se lembrar)
P - Exatamente. Na aspirina isto ocorre através de um mecanismo comparativo chamado de “chave-fechadura”, a partir da conformação (dentes da chave) do ácido carboxílico, o anel benzênico, o grupo acetila e a estrutura do biorreceptor (fechadura). É importante frisar que cada indivíduo pode reagir diferente a um medicamento, de acordo com seu biótipo. Por isto grande é a discussão atual sobre a questão da automedicação. Concordam?
E - HA! ISSO É O EFEITO COLATERAL? ALGUNS MEDICAMENTOS TRAZEM MUITOS EFEITOS COLATERAIS NA BULA E A GENTE NUNCA LÊ! (Responde de forma vigorosa)
Fragmento 1. Descrição de conversação entre professora e aluno durante aula expositiva dialogada.
79 Neste breve intervalo de perguntas e repostas, podemos observar uma clara adequação ao princípio do conhecimento prévio para conduzir a situação de transposição do conhecimento, sendo esta uma das condições para ocorrência de uma aprendizagem significativa. Percebemos que neste momento a questão da automedicação já é retratada, surgindo no discurso da professora como uma questão debatível, pois enquanto o conteúdo curricular é ensinado, alguns encaminhamentos são deixados para que os alunos possam refletir sobre a realidade que vivenciam, a partir dos novos conhecimentos que são acrescentados.
Podemos inferir que a última colocação do aluno sugere que o “efeito colateral” assumiu um novo significado para ele, a partir da ação epistêmica da professora. No momento em que a professora pergunta se os alunos concordam com a afirmação feita por ela, também há uma sinalização de uma ação pragmática no sentido de chamar os alunos a argumentarem (discordarem) do ponto de vista por ela colocado, revelando um dos objetivos da etapa metodológica de promover uma inicialização dos discursos argumentativos na sala de aula.