Por fim, considero importante destacar que ao indagar as lideranças entrevistadas sobre os fundamentos da ação coletiva deste período, de forma uníssona elas afirmaram que neste período inicial de constituição dos seus movimentos, autônomos ou de auto-organização de mulheres em movimentos mistos do campo, não havia qualquer reflexão sobre as relações de gênero e nem sobre o feminismo.
Estas lideranças já mantinham relações com o movimento de mulheres existente no espaço urbano e rural, a exemplo das relações com ONG`s e outras organizações nos encontros nacionais feministas. Talvez, o fato de ainda não terem se constituído espaços de formação explique a ausência de um debate sistematizado sobre o tema.
As primeiras reflexões virão a acontecer no momento de emergência do conceito de gênero nos anos 1990 e, como veremos no próximo capítulo adentram nos movimentos sociais a partir da sua articulação com as relações de classe. As ações de formação que as mulheres rurais participaram nesse período eram relativas à formação política mais geral e ainda não havia uma preocupação por parte dos movimentos sociais em incorporar os conteúdos feministas:
Nessa época era assim. É tudo muito novo pra mim, né. É muito engraçado, hoje a gente é quadros políticos, quadros dirigentes. Mas não tinha esse olhar feminista. Não tinha essa, né. E, aí, eu me lembro, por exemplo, um dos primeiros debates que eu vi sobre o tema gênero parecia que era uma revolução pra gente. Pensei, meu Deus, está muito longe daqui [risos] (Elisa, 23/5/2016)
O início dos anos 1990 encerra o que considero ser a primeira fase do movimento de mulheres, o de sua constituição. Momento em que estabelecem relações de cooperação e conflito com os movimentos sociais já existentes e com os novos personagens que entram em cena no processo de redemocratização no país.
Partem de uma diversidade de pautas determinada por realidades locais distintas, que incluem temas como terra, água, serviços básicos de saúde, educação e infraestrutura. O direito à saúde aparecia de forma diferenciada, ora associado ao acesso geral aos serviços, ora especificamente à saúde da mulher. Lutavam, também, pelo apoio à produção e comercialização, com especial destaque para as hortas, os pequenos animais, as plantas medicinais e a organização econômica; e, com muito destaque, pelo direito à participação e representação nos movimentos sociais. As lutas por reconhecimento como trabalhadora rural perante o Estado, como beneficiária de políticas de proteção à pobreza rural no semiárido ou como demandante da política previdenciária, ganharam destaque neste período
A possibilidade de unificação de lutas em torno da previdência e em menor proporção em defesa do sistema público de saúde foram responsáveis pela alavancagem de um movimento nacional no período seguinte. As demandas por direitos previdenciários social presente desde os anos 1960 (CONTAG, 2002) permitiu legitimar o principal objetivo, o de ser reconhecida como trabalhadora, e, com isso também, ter o direito de participar nos movimentos sociais do campo e constituir suas próprias organizações com os mesmos direitos e em igualdade de condições.
Determinadas a expandir as suas lutas, iniciaram a nacionalização do movimento de mulheres rurais criando espaços comuns de diálogo e de organização que resultaram na constituição das primeiras organizações regionais e nos primeiros passos para constituir uma organização nacional, além de participarem da construção de outras de abrangência latino-americana e Caribenha, em meados dos anos 1990, como veremos no próximo capítulo.
Os desafios enfrentados pela diversidade política existente entre estes movimentos, que já se registravam no momento, não impediram a definição de estratégias comuns de organização e de lutas a serem priorizadas, como se observou no processo da constituinte. Foi um momento desafiador, pois o único espaço nacional construído, de maneira ainda incipiente, era uma frente de trabalho específica de mulheres na CUT, que embora tenha adensado as mobilizações conjuntas com o movimento autônomo de mulheres rurais e com os urbanos, não dispunha da capacidade organizativa e articulatória exigida para o momento. Apesar disso as mulheres rurais reuniram as condições necessárias para fazer valer seus direitos e criar um terreno fértil para iniciativas organizativas de maior fôlego no período seguinte.
Cientes dos desafios vivenciados, desbravaram os primeiros espaços de auto-organização nos movimentos rurais mistos.
As conexões entre os movimentos sociais autônomos e os movimentos mistos construídas a partir da solidariedade e das estratégias de articulação foram decisivas na constituição do movimento de mulheres rurais,e seguem sendo até os dias atuais. Foram também importantes as relações com os movimentos sociais de mulheres do país.
As relações de proximidade construídas foram decisivas para o apoio obtido pelas rurais e para o apoio obtido pelas rurais e para aos poucos alargar a agenda e popularizar o movimento de mulheres, embora que ainda de modo incipiente.
Percebe-se como estas distinções de agenda, estratégia organizativa e alianças conformam uma especificidade e nos ajuda a entender dinâmicas próprias dos movimentos de mulheres rurais.
Nesta fase de constituição dos movimentos sociais de mulheres rurais, embora os debates sobre as relações de gênero e o feminismo não estivessem presentes de maneira sistemática observamos distintos pontos de conexão com o debate do feminismo e as entrevistadas relataram tensões importantes sobre este tema.
5 TRANSNACIONALIZAÇÃO, UNIDADE E REPRESENTAÇÃO: A