A poesia de Derek Mahon mostrava-nos uma necessidade absoluta de partir e regressar ao lar, como se o primeiro momento de ruptura implicasse a danação de um percurso que, a partir desse mesmo instante, se torna irremediável e angustiadamente singular. Recentemente, num ensaio intitulado "O Judeu errante e a deriva moderna", João Barrento reflecte sobre este tema da viagem na literatura contemporânea e da situação recorrente do escritor moderno como um ser culturalmente exilado e desenraizado:
A partir de agora, a literatura moderna (...) assume o seu destino de viagem sem destino. O poeta do último século - Laforgue ou Rimbaud, Jules Verne (o da Esfinge dos Gelos) ou Georg Heym
(O Diário de Shakletorí), Kafca {O Caçador Graco) ou James Joyce - é o Aasvero da duvida na
busca do sentido: (...) A viagem desencantada da literatura moderna leva (como ja anuncia o quadro romântico de Caspar David Friedrich conhecido por 'O mar de gelo', mas realmente intitulado 'Esperança afundada') o navio à deriva para os mares do próprio discurso, condenando-o aos gelos (quase) eternos e a terríveis Maelstroms (Poe, Pessoa, Benn) pelo pecado original da crença inocente na Razão e no Sentido. Esse novo Aasyero erra^pelas paisagens de inverno e pelos desertos {Waste Lands) da literatura moderna (...) (BARRENTO
1996:50 e 51)
Desta forma, quando se elege o exílio e a solidão como desígnios a que o poeta se sujeita durante um percurso individual e doloroso, a escolha da tradução adquire contornos de referência sólida, mas também de uma viagem que permite ao poeta
No prefácio às suas traduções de Philippe Jaccottet, Mahon referia-se à forma como privilegiara o processo de tradução movido pela preocupação de, por um lado, escutar a voz do "outro" e, por outro, manter a inflexão original do texto, uma espécie de "logopoeia" poundiana (POUND 1937: 170 e 171) através dos mecanismos formais da sua própria língua.14 O "outro", que funcionará, neste caso, como caixa de
ressonância do sujeito poético e mecanismo auxiliar das instâncias de enunciação, já que a adopção da voz do estrangeiro permite obter uma estratégia dissimulatória para comentar com outra legitimidade a realidade tão familiar.15
No âmbito do presente estudo, aproveitaremos para entender a tradução como prática intertextual, nomeadamente à luz da afirmação de John Frow num artigo intitulado "Intertextuality and ontology" (FROW 1995: 45), segundo o qual os textos podem constituir vestígios de uma alteridade, ou seja, mecanismos de detecção da presença do outro. Ou seja, decompondo esse processo, misto de transfusão e metamorfose, através do qual se concretiza o relacionamento com o outro, enquanto descoberta de uma alteridade, tal como propõe Antoine Berman (BERMAN 1984: 287). Para George Steiner, a tradução abre-se efectivamente à possibilidade de "experimentar a diferença, sentir a resistência e a 'materialidade' daquilo que é diferente", no fundo, 'Viver uma outra experiência de identidade" (STEINER 1998: 381), enquanto Felix Philip Ingold caracteriza-a como uma relação mediada entre duas entidades ontológicas:
Mais l'auteur, qui s'affirme comme traducteur de l'étranger et l'accueille dans son alterité non- clôturable de telle sorte que ce qui lui demeure insaisissable peut même être accueili par lui, cet auteur est (peu importe à quelle époque il appartient) un romantique. (...) il reçoit, il accepte le
1 2 Veja-se a descrição desse espaço outro onde se processa um misto de metamorfose e transfusão: "E o
tradutor vê-se, para dar conta do seu encargo, obrigado a medir-se não com duas línguas, mas pelo menos com três. Pois só graças a uma terceira língua, como essa a que se refere Antoine Berman (...), só graças àquilo a que chamarei uma língua de ninguém, entre as duas, poderá esperar levar a bom porto o seu navio." (PEREIRA 1998: 29).
1 3 Cfr. Michael Riffaterre: "(...) obviously, when the culture which the text reflects is still within reach,
the reader's task is facilitated by the frequency of references to well-known intertexts, or just by chance encounters with them). These signposts are words and phrases indicating, on the one hand, a difficulty (...); and, on the other hand, pointing the way to where the solution must be sought." (RIFFATERRE
1995: 58).
1 4 "I have tried, in his own words, to be attentive to a foreign voice, and to give to this voice, with the
resources of our language, an embodiment in which the original inflection survives." (PJ1988: 16).
1 5 Efectivamente, ao abandonar a Irlanda, Mahon começa a encarar Belfast como um tipo de alteridade:
"Belfast begins to seem indeed a kind of otherness itself, as the grim ineluctable alternative to alternatives" (TINLEY 1994: 92).
texte étranger, dans le moment où il se laisse transformer par lui; ce qui le transforme, c'est précisément l'étranger: au lieu de se l'approprier, il lui donne la valeur de l'intimement étranger, de l'étranger dans l'original, Pétrangéisation à proprement parler du geste de traduire. (INGOLD
1994: 20)
No caso do poeta norte-irlandês, a procura poética do outro decorre do sentimento de anatematização de alguém que decidiu voltar as costas ao seu povo e que escolhe no espaço intertextual um espaço de hospitalidade e mobilidade, algures entre a tensão de ficar e partir, embora correspondente ao mesmo "desejo de integração e duma vontade ou duma constatação de exílio" ocultos a que Paul Zumthor se refere (ZUMTHOR 1979: 144). Um ponto, aliás, reiterado por Léon Godel, em "«On» devient «Autre»", ao descrever a tradução como abertura e resultado de uma vontade de exílio:
S'ouvrir à l'autre, donc. S'imprégner de la langue (du regard, de l'image, de la musique...) de l'autre. Accueillir au plus profond de soi la voix venue de l'étranger... Et d'autre part trouver refuge dans le verbe d'autrui - l'habiter, l'explorer. Changer de langue comme on change de domicile, de pays, de latitude. Passer sur l'autre rive - donc, se dépayser, s'exiler, se perdre (pour mieux se retrouver). (GODEL 1994: 10)1 6
É, pensamos, em busca desse espaço de hospitalidade que Mahon manipula os textos do outro através da tradução, apropriando-se deles e utilizando-os ao serviço desse alheamento cúmplice "at one remove", dessa forma oblíqua de abordar um mesmo pronunciamento estético, através do qual o poeta se torna outro, "on devient autre", tal como explica Godel (GODEL 1994: 9). Também João Barrento, no artigo citado anteriormente, abordou esta problemática da manipulação da palavra do outro, sob a forma de tradução ou re-leitura de textos outros, como única salvação possível para o estabelecimento de uma ligação com a origem, via unificação da linguagem, face a um desígnio de proscrição que condenou o homem ou tradutor contemporâneo à errância sem fim Veja-se ainda como, para outro autor dedicado aos estudos anglo- -irlandeses, a problemática de viver no estrangeiro pode representar efectivamente uma possibilidade de exílio espiritual, pela criação de um local remoto e periférico, embora evocando paradoxalmente os mesmos sentimentos de ausência e nostalgia comparáveis à perda do mítico Éden:
O poeta-Aasvero moderno, ainda e sempre condenado à errância, salva-se e salva-nos no próprio acto de lembrar, de fixar, na palavra poética e na sua força de atracção, o eco do silêncio loquaz que busca desde o início, desde a saída da Terra Prometida - ou do paraíso perdido. (BARRENTO 1996: 50 e 51)
1 6 Cfr. opinião de Jacques Derrida sobre a aceitação do outro no movimento da hospitalidade: "Or, dans
l'hospitalité pure, sans garantie, cette possibilité que l'autre vienne faire la révolution, voire une forme pire de l'imprévisible, et que l'on soit débordé doit être acceptée." (DERRIDA 1999: 100).