A curiosidade pelos monstros humanos, quando exercida fora da esfera da medicina, será viciosa, doentia, perversa. Noutras palavras, uma infração repreensível aos olhos da lei e ao mesmo tempo um desvio psicológico em face da norma (COURTINE, 2008, p. 303).
Tenho experimentado exercícios com a figura do bufão em diversas instâncias. Na preparação de algumas das performances do Artesanato Furioso31, na monitoria das
disciplinas ministradas pelo Profº Dr. Tonezzi, Interpretação I e Interpretação IV, na graduação de teatro da UFPB, onde pude aplicar a oficina de bufão que venho desenvolvendo e aprimorando. Também utilizei exercícios de bufão no Estágio/Docência aplicado na disciplina Metodologia do ensino da dança, na UFRN. Sob a orientação da profª Drª Larissa Kelly de Oliveira Marques, pude investigar estes exercícios a partir da proposta de aplicabilidade no ensino básico e no ensino médio.
Percebo a potência do trabalho com o bufão, porque provoca as relações com o mundo. É uma maneira diferente de perceber a realidade. A sátira, o sarcasmo e o humor 31 Projeto para criações na área de performance eletroacústica e improvisações com objetos amplificados, fundado em 2000 por Valério Fiel da Costa e Fábio Cavalcanti. O coletivo conta hoje com a participação de músicos, cantores, atores e dançarinos, bem como performers de diversas áreas, incluindo artes visuais. Investiga a experimentação, a interdisciplinaridade e está vinculado ao grupo de pesquisa de Desterritorialização da Performance, em atividade na UFPB.
negro, fazem parte desse universo. Penso que pode se tornar muito interessante para o ator investigar e experimentar esta estética grotesca. Como mais uma possibilidade técnica, sim, mas, podendo também provocar reflexões e novas relações com a cena e com o público.
Depois que começamos a entrar nesse mundo, parece que não tem volta. É ver as coisas de cabeça para baixo, é descobrir a beleza nas feridas. O monstro que seduz por sua estranheza. O estranho, o diferente, pressupõe um mistério. Queremos descobrir o que há por trás da horrenda criatura, e desvendar sua humanidade. Pois o monstro é essencialmente humano. “ A monstruosidade depende do olhar que se põe sobre ela. Não se acha tanto enraizada no corpo do outro quanto agachada no olhar de quem observa” (COURTINE, 2008, p. 330).
Temos observado atentamente essas manifestações do incomum e como, artisticamente, podemos utilizá-las como expressão de ideias. Para nós, o grupo Bufões de Olavo, o contato com a técnica do bufão e sua estética grotesca, contribuiu muito para a nossa formação enquanto atores, artistas, pessoas. Nas oficinas que temos trabalhado com outros coletivos, percebemos o interesse gerado por esse trabalho, também em outro artistas.
Em congressos que tenho participado, a exemplo do mais recente, o encontro da ABRACE (Associação Brasileira de Artes Cênicas), participei de um GT criado recentemente intitulado Circo e Comicidade. Nos três dias de discussão tive o privilégio de estar com pesquisadores de vários lugares do Brasil, que se debruçam sobre o cômico. Lembro das palavras de Mário Fernando Bolognesi32 que dizia que o corpo e o
grotesco estão sendo censurados. Penso que é de suma importância estudar o corpo bufonesco como expressão artística e difundir a arte da bufonaria na atualidade. Há muito o que dizer através do discurso do bufão e as técnicas relacionadas a ele, são potencialmente produtivas para o ator contemporâneo. Acreditamos que para a constituição de tal figura o ator deve buscar um corpo que pareça verdadeiro, pela qualidade de sua caracterização e, principalmente, pelo seu trabalho de criação.
Esta pesquisa nos impulsiona e instiga nosso trabalho artístico. O corpo está sendo perseguido! E os bufões continuam existindo para subverter a ordem e provocar a percepção do outro. A arte continua resistindo a toda forma de poder, por mais tirana que 32 Doutor em Artes/Teatro pela USP. Professor titular do Departamento de Artes Cênicas da UNESP.
seja! Esta pesquisa é apenas um começo, um suspiro, ou talvez um pulo no abismo. Porém, vemos o trabalho com a técnica de bufão, sua estética grotesca e suas peculiaridades temáticas, como algo extremamente potente no processo de formação contínua a que nos propomos enquanto artistas. Pudemos perceber ao longo desse processo que os exercícios de bufão tem temáticas diferentes do trabalho com o palhaço e com outras técnicas. Você acaba jogando com temas que geralmente são evitados, como o fanatismo religioso, a convivência com o HIV, a sexualidade exacerbada, a escatologia. Temas que muitas vezes são tabus sociais e que são utilizados para a criação de cenas e experimentação cômica dentro do jogo com o bufão. O corpo tambem, recebe propostas de transformação física que desenvolvem a criatividade e produzem uma busca por novas posturas, maneiras diferentes de se comportar e também de se locomover, a partir de um corpo diferenciado, por vezes, travestido. Transformar o corpo para discutir possibilidades distintas de expressar ideias e provocar o olhar do outro. Observei que nos diversos ambientes em que trabalhei com esta estética bufonesca e os exercícios desenvolvidos a partir da técnica com a figura do bufão, como em alguns exemplos citados acima, a recepção dos envolvidos no processo foi muito positiva. Percebia que de alguma maneira, os exercícios provocavam discussões muito interessantes e criações de cenas criativas. Dentro do nosso grupo Bufões de Olavo, também sentimo-nos muito afetados por essa pesquisa teórica/prática, que estamos desenvolvendo juntos. Não creio que podemos fazer nenhuma afirmação pretensiosa sobre o quanto trabalhar com o bufão tem nos formado artistas melhores, mas, percebo sim, que temos nos tornado artistas diferentes. E que este estudo e esta experimentação a que nos propomos com tanto vigor e seriedade, tem nos provocado, nos transformado e, de alguma maneira, tem feito nossos caminhos continuarem cruzados, com uma estrada longa a nossa frente, mas, que queremos, como andarilhos, por vezes mudos, ou cegos, mas, andar, percebendo tudo que está a nossa volta, não apenas com os olhos, com respostas prontas, mas, sentindo com o nosso corpo.
Percebo que ainda são poucos os grupos que trabalham com bufonaria no Brasil, haja vista a grande quantidade de artistas que temos. Bem como as pesquisas neste campo ainda são poucas, se comparadas com pesquisas nas áreas de atuação a partir de outras técnicas. Vejo que o trabalho do nosso grupo, bem como os ecritos que estão partindo a partir de nossas pesquisas acadêmicas/artísticas, podem contribuir para que
outras pessoas possam discutir sobre este tema e fomentar esta técnica que julgamos ser uma possibilidade a ser considerada dentro dos processos de aprendizagem no trabalho do ator/atriz contemporâneo. Sempre como uma possibilidade, com abertura para novos desdobramentos.
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Relato da Experiência no Carnaval de Olinda- Caravana de Bufões – Nyka Barros Desde que começamos a pesquisar o processo de carnavalização, os bufões na festa dos loucos na Idade Média, a importância do carnaval, festa da carne, da libertação do corpo, que pensava em fazer algum experimento neste sentido. Quando na reunião preparávamos o nosso cronograma compartilhei a ideia de irmos de bufões ao carnaval de Olinda- PE, como um primeiro experimento numa festa de rua. Confesso que não achei que todos fossem topar, mas fiquei muito feliz quando vi que ficaram empolgados em realizar esta ação. Organizamos o dia, horários e marcamos um dia só para escolher figurinos e ter ideias para os personagens que iríamos compor.
Na segunda–feira de carnaval, dia que teríamos ruas cheias de foliões, mas que não estariam tão lotadas a ponto de complicar a locomoção, nós marcamos o encontro matinal. Esta primeira etapa foi muito importante. Colocamos os figurinos, nos maquiamos (principalmente simulando feridas purulentas e ensanguentadas), demos opiniões e
compartilhamos ideias na composição das figuras.
Tonezzi virou um monge profano, com um pingente em formato de pênis servindo de “crucifixo”. Angélica compôs uma velha, a maquiagem ficou ótima, cheia de feridas e junto com a peruca, parecia que ela tinha saído de um túmulo. Flávio se transformou num homem bomba. Com uma trança e barba longa, parecia um árabe. Colocou um cinto de bombas em E.V. A e uma cueca com um passarinho, simulando o sexo, inclusive com pelos falsos saindo da sunga. Eu e Sávio viramos gêmeas siamesas. Com uma única blusa grande e uma única saia, ficamos colados, com uma peruca idêntica e algumas “perebas” na boca e feridas nos rosto e pescoço. Infelizmente João não participou, o que para nós foi uma grande perda e para ele também, afinal foi o nosso primeiro experimento bufonesco ao ar livre, numa festa de rua, num carnaval, para mim este experimento foi emblemático, pois iniciou um novo ciclo na história do nosso grupo.
Viajamos para Pernambuco. Paramos na cidade de Goiana para almoçar vestidos de bufões. Foi ótimo observar a reação das pessoas ao nos ver comendo como se estivéssemos comuns. Claro que o fato de ser carnaval e estarmos nitidamente a caminho de Olinda, configura uma relação mais aceitável ao público. No carnaval as pessoas se fantasiam, blasfemam, profanam. Mas no nosso caso, não se tratava de uma fantasia para curtir o carnaval. Evidente que estávamos nos divertindo, mas muito conscientes de nossa caracterização. Um figurino pensado e montado a partir de nossos estudos sobre o bufão. Acima de tudo estávamos realizando um experimento cênico, relaxado, divertido, mas não destituído de conteúdo.
Ao chegar a Olinda, ganhamos a ruas. Angélica e Tonezzi constituíram personagens mais introspectivas. O personagem de Angélica era uma velha repugnante que pouco interagia, mas comentavam que ela era tão “feia que era bonita”, repúdio e admiração. Tonezzi, com seu monge com um pênis de borracha enorme escondido na batina, estava na espreita. Ora pedia que beijassem seu pingente profano, ora observava as nossas reações. Flávio, com seu homem bomba, se soltou. Ele que era o mais tímido e que estava morrendo de medo de fazer o experimento, se soltou bastante. Ele interagiu com as pessoas, ameaçou explodir as bombas, seduzindo os outros com o seu “passarinho cheio de pentelhos”. Eu e Sávio, ou melhor, as gêmeas siamesas, pareciam estar em casa. Profanas ao extremo, eu acredito que fomos as que mais interagiram. Dando em cima dos homens que passavam, agarrando e alisando eles. Eu beijei vários
homens, que pareciam ter prazer em beijar as “perebas” no canto da boca. È claro que no carnaval de Olinda é tradicional beijar muito, mas juro que não imaginei que cheia de feridas (mesmo que falsas), eu fosse beijar tantos homens. A nossa caracterização estava muito boa, as pessoas não acreditavam que tivéssemos a ousadia de andar coladas por ruas lotadas de gente. Agarradas pela cintura, nós ficamos unidas por mais de uma hora, subindo e descendo ladeiras, penetrando a multidão, tirando sarro com todos, erotizando e blasfemando. Houve um momento que fiquei com o braço dormente, cansei muito e fiquei dolorida no final de tudo. Mas, todo o esforço compensou. Dançar funk, pular e me jogar nos outros colada a outra pessoa foi uma experiência incrível. Agente andava no mesmo ritmo, respirava junto, chegou um momento que parecia um só corpo. Foi muito gratificante e um ponto de partida bem significativo para nossa pesquisa prática de bufão. ANEXOS
RELATO DE ANGÉLICA LEMOS SOBRE A EXPERIÊNCIA COM A MONTAGEM DO