Vygotsky (1998) compreende que a formação biológica do homem garante sua capacidade de adaptação a ambientes diversificados, favorecendo seu processo de formação, marcado pela influência do ambiente no qual se insere. Sendo assim, além de biológico, o homem é resultante de um processo histórico e social, sendo a cultura parte integrante da constituição humana.
A natureza do próprio desenvolvimento transforma-se, do biológico no sócio histórico. O pensamento verbal não é uma forma natural de comportamento, inata, mas é determinado pelo processo histórico-cultural e tem propriedades e leis específicas que não podem ser encontradas nas formas naturais do pensamento e do discurso. Desde que, admitamos o caráter histórico do pensamento verbal, teremos que o considerar sujeito a todas as premissas do materialismo histórico, que são válidas para qualquer fenômeno histórico na sociedade humana. (VYGOSTKY, 1998, p. 54)
Oliveira (1997) discute as concepções vygotskianas a partir do conceito da mediação, apontando que a constituição do homem, enquanto sujeito sócio histórico, ocorre por meio de sua integração com a natureza, a qual não se processa de forma direta, mas mediada. Portanto, a mediação se estabelece como um elemento de intervenção entre o sujeito e o objeto. Para Vygotsky (1998, p. 12) “a transmissão racional, intencional de experiências e de pensamentos a outrem exige um sistema mediador, que tem por protótipo a linguagem humana nascida da necessidade do intercâmbio durante o trabalho”, ou seja, o desenvolvimento do pensamento perpassa pela linguagem, indispensável no processo de mediação. A relação entre professores e estudantes se traduz como um processo de mediação, o professor atua como facilitador dos processos de aprendizagem aproximando os estudantes aos conteúdos ministrados. A interação entre os estudantes também traduz um espaço de aprendizagem mediada, sendo que as obras de Vygotsky apontam que
A interação face a face entre os indivíduos particulares desempenha um papel fundamental na construção do ser humano: é através da relação interpessoal concreta com outros homens que o indivíduo vai interiorizar as formas culturalmente estabelecidas de funcionamento psicológico. Portanto, a interação social, seja diretamente com outros membros da cultura, seja através dos diversos elementos do ambiente culturalmente fornece matéria- prima para o desenvolvimento psicológico do indivíduo. (OLIVEIRA, 1997, p. 38)
O dinamismo das relações sociais é facilitado pela linguagem, cuja função primordial é o intercâmbio cultural. Foi a necessidade da comunicação que levou o homem ao desenvolvimento da linguagem, a qual permitiu o aperfeiçoamento das suas ações e intervenções sobre o meio, bem como a internalizações dos processos de mediação, fazendo o uso de representações mentais que são compartilhadas por membros do grupo social. Estas, facilitam a comunicação entre os indivíduos e o aprimoramento da interação social, o que acabou por consolidar os grupos culturais. A linguagem seria um instrumento facilitador do desenvolvimento psicológico do indivíduo, estimulando a aprendizagem, daí a importância da inserção do indivíduo em um grupo social participando de suas vivências culturais (OLIVEIRA, 1997).
Sobre os processos de aprendizagem, Vygotsky (1984) desenvolve o conceito da zona de desenvolvimento proximal, que se relaciona aos processos mentais que ficam entre a etapa que o indivíduo tem o conhecimento consolidado e consegue
desenvolver as atividades de forma independente (nível de desenvolvimento real) e a etapa em que o indivíduo consegue realizar as atividades com a colaboração de outro indivíduo (nível de desenvolvimento potencial). Portando, o nível de desenvolvimento proximal é aquele que irá ajudar o indivíduo a consolidar uma aprendizagem que necessitaria a interferência de outro indivíduo (OLIVEIRA, 1997).
A zona de desenvolvimento proximal define aquelas funções que ainda não amadureceram, mas que estão em processo de maturação, funções que amadurecerão, mas que estão presentemente em estado embrionário. Essas funções poderiam ser chamadas de "brotos" ou "flores" do desenvolvimento, ao invés de "frutos" do desenvolvimento. O nível de desenvolvimento real caracteriza o desenvolvimento mental retrospectivamente, enquanto a zona de desenvolvimento proximal caracteriza o desenvolvimento mental prospectivamente. (VYGOTSKY, 1984, p. 58)
É na zona de desenvolvimento proximal que a escola precisa atuar. Para desempenhar seu papel no desenvolvimento do indivíduo, é necessário conhecer o nível de desenvolvimento dos estudantes, analisando os conhecimentos que ainda precisam ser incorporados, direcionando os avanços. A zona de desenvolvimento proximal pode funcionar como um instrumento de análise das potencialidades já adquiridas pelos estudantes, bem como aquelas que estão começando a ser despertadas ao longo das atividades que a escola disponibiliza.
Considerando que o desenvolvimento da pessoa humana está interligado com o meio ambiente e as relações sociais e que Vygotsky (1984) trabalha com a ideia de reconstrução dos significados passados pelo grupo social, então, desenvolver aulas de campo na planície de inundação do Rio Doce poderá possibilitar a reconstrução de conceitos, a se recriarem atitudes e a se desenvolver a responsabilidade social a partir de questões provocadoras de aprendizado.
Essa proposta se justifica porque, conforme defende Morin (2007), a compreensão crítica de um problema local, que mantém as inter-relações com a realidade planetária, ajuda a construir as relações multidimensionais, a partir da leitura do espaço habitado. Também Freire (2001) defende que a leitura do mundo precede à leitura da palavra e os temas geradores das discussões no processo de ensino- aprendizagem devem nascer na prática social. Por essa razão, a crise hídrica pela
qual passou a cidade de Colatina, em novembro de 2015, tornou o tema ainda mais relevante.
Na concepção que Vygotsky tem do ser humano, portanto, a inserção do indivíduo num determinando ambiente cultural é parte essencial da própria constituição enquanto pessoa. É impossível pensar o ser humano privado do contato com o grupo cultural, que lhe fornecerá os instrumentos e signos que possibilitarão o desenvolvimento das atividades psicológicas mediadas, tipicamente humanas. (OLIVEIRA, 1997, p. 78)
Portanto, a constante recriação da cultura por parte de cada um dos atores sociais é a base do processo histórico, sempre em transformação, na sociedade humana. Milton Santos nos faz refletir sobre as transformações sociais ocorridas no território com base no viés econômico. É preciso estar ciente desta proposta, uma vez que as dificuldades para a formação para o exercício da cidadania se fazem presentes à medida em que se consolida uma sociedade engessada nos princípios capitalistas.