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Lectures

Dans le document LES PREMIERS SURVEILLANTS (Page 71-74)

A prática educativa se manteve por muito tempo condicionada a espaços fechados, que isolavam estratégias de ensino capazes de promover a reflexão de conceitos e atitudes. É o caso da abordagem tradicional, que enxerga a escola como um “local da apropriação do conhecimento por meio da transmissão de conteúdos e confrontação com modelos e demonstrações” (MIZUKAMI, 1986, p. 18). Essa abordagem é trazida por Freire (2005, p. 68) como educação bancária, aquela que “conduz os educandos à memorização mecânica do conteúdo narrado”, transformando-os em meros receptores e conduzindo-os à alienação.

Nossa proposta requer espaços educativos que vão para além dos limites fixados pelos muros da escola, que avancem na contextualização a partir do modo de vida dos estudantes, superando a rigidez da educação formal muitas vezes padronizada pelas escolas que vêm motivando o afastamento dos estudantes. Estes espaços são denominados espaços não formais de educação e são definidos por Jacobucci (2008,

p. 56) como “[...] qualquer espaço diferente da escola onde possa ocorrer uma ação educativa”. A autora divide os espaços não formais em duas categorias: os locais institucionalizados e não institucionalizados. O primeiro remete aos espaços regulamentados, providos de infraestrutura e equipe técnica para atender aos visitantes, já o segundo, representa os “ambientes naturais ou urbanos” que, de forma bem planejada, podem ser utilizados para a prática educativa, que permite a interdisciplinaridade, movidas pela cooperação e coletividade.

Nessa perspectiva, classificamos a planície aluvionar do Rio Doce como um espaço educativo não formal não institucionalizado. Apesar de não ser um espaço estruturado, oferece um ambiente propício para se desenvolverem atividades pedagógicas voltadas aos problemas ambientais enfrentados por essa rede hidrográfica, de modo a contribuir para a formação de cidadãos e sua consciência social, fortalecendo a visão integradora de homem e natureza.

Para Jacobucci (2008) os espaços não formais são oportunos para que ocorra a educação não formal. Gohn ( 2010, p. 33) organiza o conceito de educação não formal como sendo

[...] um processo sociopolítico, cultural e pedagógico de formação para a cidadania, entendendo o político, como a formação do indivíduo para interagir com o outro na sociedade. Ela designa um conjunto de práticas socioculturais de aprendizagem e produção de saberes, que envolve organizações, instituições, atividades, meios e formas variadas, assim como uma multiplicidade de programas e projetos sociais.

As mudanças comportamentais, socioculturais e econômicas marcaram o final do século XX e o início do século XIX foram impulsionadas pelos avanços tecnológicos e científicos e têm demandado novas dimensões para as estruturas dos currículos educacionais. Agora, mais do que nunca, as abordagens dos conteúdos científicos devem estar intercaladas à leitura crítica do mundo, buscando solucionar os problemas enfrentados pela sociedade contemporânea, ultrapassando as barreiras da opressão e da alienação, construindo ações de emancipação política, econômica e social. Por isso, é importante a aproximação da educação formal com a educação não formal, deslocando os estudantes dos espaços institucionalizados, para os espaços livres, abertos a novas reflexões e à quebra de paradigmas, de modo que a educação

não formal e os espaços não formais atuem em complementaridade ao espaço formal e à educação formal.

Partindo do pressuposto de que as aulas de campo que desenvolvemos ocorreram em espaços educativos não formais não institucionalizados, adotamos Gohn (2011) para ressaltar outras formas de construção de conhecimento, que ocorrem fora do contexto escolar. Entre as quais destacamos a educação ambiental, no sentido de despertar o senso de responsabilidade para com os problemas locais.

A educação não formal “tem como escopo de trabalho a formação de indivíduos para o mundo, abrindo canais de aprendizagem que poderão levar indivíduos à emancipação de formas de pensar e agir social” (GOHN, 2011, p. 12). Nesse ponto de vista, a autora estabelece um diálogo com as concepções de Paulo Freire, ao tratar a educação como um processo social que leva o sujeito à conquista da autonomia. No cenário econômico em que se configura a economia capitalista, a formação de sujeitos conscientes do seu papel social consolida uma sociedade capaz de abraçar a luta em combate aos problemas socioambientais. Portanto, enquanto professores da educação básica, cabe a nós o papel de incentivadores da “[...] busca e produção de saberes que podem vir a ser ferramentas importantes para os indivíduos aprenderem a fazer leituras próprias do mundo em que vivem, dos fatos sociais que os circundam” (GOHN, 2011, p.12).

Para a construção desse sentido de responsabilidade, devemos abrir os portões da escola e mediar a aproximação dos estudantes com a realidade que os cerca, por isso é importante deslocar os estudantes da sala de aula para o contato direto com o ambiente. Precisamos desconstruir a ideia de distanciamento do homem para com o ambiente natural, reverter o quadro de isolamento e propor estratégias de integração, de modo a “ contribuir para o desenvolvimento da educação como um todo, e para os processos de emancipação e autonomia dos cidadãos” (GOHN, 2011, p.15).

Sobre a Nova Ordem Mundial, Gohn (2011) dialoga com as contribuições do geógrafo Milton Santos. A autora destaca que a educação deve ser utilizada em combate às situações de exclusão, fortalecendo-se com os benefícios tecnológicos e científicos para superar os desafios da sociedade global.

A globalização é um novo sistema de poder que exclui e inclui, segundo as conveniências do lucro; que destrói a cultura e cria continuamente novas formas de desejo no setor do consumo. Com isso, gera novas formas de dominação principalmente de ordem cultural. [...]. Ignoram-se a diversidade das culturas e a realidade das comunidades, que passam a se fechar ao redor delas mesmas, como forma de se protegerem da “invasão” da cultura homogeneizadora que se apresenta. Com a globalização da economia, a cultura se transformou no mais importante espaço de resistência e luta social (GOHN, 2011, p.18-19).

Não obstante a luta pela manutenção da cultura local, existe uma contradição nas proposições capitalistas, um exemplo a ser mencionado são as tribos indígenas localizadas no vale do Rio Doce, em especial os povos Krenak que, agora, enfrentam desafios provocados pela tragédia ambiental que lhes trouxe incertezas no olhar sobre o rio, como suporte para a manutenção da sua cultura. Gohn (2011), porém, destaca a crise como uma oportunidade de luta, mobilização e resistência em favor do bem comum, com isso, a educação formal e não formal devem andar lado a lado, na busca por fortalecer os movimentos sociais em favor da manutenção da cultura local, tanto para as tribos Krenak, quanto para moradores ribeirinhos que mantêm seu modo de vida alicerçado ao rio. Por essa razão as ações educativas na Bacia Hidrográfica do Rio Doce devem assumir a perspectiva crítica, trazendo os estudantes para os espaços educativos não formais, levando os representantes dos movimentos sociais para dentro das Unidades de Ensino de modo a estabelecer parcerias com objetivos comuns, no sentido de fortalecer a luta em favor do Rio Doce.

Gohn (2011, p. 90) considera “a participação dos atores sociais nas políticas sociais um elemento vivo e atuante nas sociedades modernas” que ajuda a compor uma sociedade democrática. A autora direciona a educação não formal em quatro dimensões:

O primeiro envolve a aprendizagem política dos direitos dos indivíduos enquanto cidadãos, isto é, o processo que gera a conscientização dos indivíduos para a compreensão de seus interesses e do meio social e da natureza que o cerca, por meio da participação em atividades grupais. [..]. O segundo, a capacitação de indivíduos para o trabalho, por meio da aprendizagem de habilidade e/ou desenvolvimento de potencialidades. O terceiro, aprendizagem e exercícios de práticas que capacitam os indivíduos a se organizarem com objetivos comunitários, voltados para a solução de problemas coletivos cotidianos. [...]. O quarto, e não menos importante, é a aprendizagem dos conteúdos da escolarização formal, escolar, em formas e espaços diferenciados (GOHN, 2011, p. 106-107).

A prática da educação não formal revela ações de preparação dos sujeitos para o exercício do bem viver, participando dos movimentos sociais, contribuindo para a consolidação de processos democráticos e liderando mobilização em favor das demandas étnicas, sociais e ambientais.

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