• Aucun résultat trouvé

La Construction du Discours et l’Intérêt d’une Perspective Comparatiste

Após a apresentação sobre o Reino e sua ação na terra, será necessário mais um aspecto importante para a compreensão e profundidade do assunto: quem são os beneficiários deste Reino. São encontrados como o necessitado, o que tem carência, àqueles aos quais não é permitido um adequado desenvolvimento humano. A vida dessas pessoas transcorre numa situação de fome e de exploração, de atenção insuficiente com relação a sua saúde e a sua moradia, de acesso difícil à educação escolar, de baixo salário e desemprego, de lutas pelos seus direitos e de repressão, de possuir uma maneira própria de sentir, de raciocinar, de fazer amigos, de amar, de crer, de sofrer, de festejar e orar151. No Novo Testamento a palavra que mais se aproxima de pobre é “ptôchos152” que significa aquele que não somente carece do imprescindível, como é incapaz de consegui-lo através de seu trabalho, sua miséria o reduz à mendicidade153. A pobreza era vista, e ainda é, como uma condição humana criada pela sorte ou pelo destino, aliás, uma realidade permitida pelo ―Deus quis‖, colocando a situação desses filhos e filhas de Deus em um estado de miséria, como se não tivessem condições de uma redenção, ou libertação, usando de afirmações para denegrir a imagem de Deus que cada pessoa tem ao ponto de serem chamados de sobrantes da sociedade. Mas o Reino levanta profetas nesta terra ainda para denunciar as falsas afirmações e lutar por uma sociedade mais saudável com relação ao próximo que deixou de existir para alguns. Muitas vezes pobres são obscurecidos por várias afirmações da classe dominante, para se defender por causa das suas riquezas ou pelo poder adquirido. Comblin propõe uma denúncia para essa classe, que ofusca o evangelho da reconciliação:

151 GUTIÉRRREZ, Gustavo. Beber no próprio poço itinerário espiritual de um povo. Petrópolis: Editora Vozes,

1987, pg.138.

152 No grego do NT, o termo mais usado para referir-se aos pobres é ptôchos. Das 25 vezes que o termo aparece,

22 vezes refere-se aos afligidos e frágeis economicamente. Nos três lugares em que ptôchos se refere ao pobre espiritual (Mateus 5.3; Cf. Gálatas 4.9; Apocalipse 3.17.), é adicionada alguma qualificação. E nos três casos em que Jesus relaciona reino de Deus e ptôchos (Mateus 11.5 = Lucas 7.22; e Lucas 6.20), seu significado também não é espiritual. A conclusão é que no NT e em Jesus, o termo pobre é uma categoria sociológica.

153 BALZ, Horst e SCHNEIDER, Gerhard. Diccionario Exegético del Nuevo Testamento. Salamanca Espanha:

Ediciones Sigueme S.A, 1988, pg. 1259.

―Os ricos sempre procuraram desviar o sentido do evangelho. Inventaram o conceito de pobreza espiritual. Pobres seriam os que não estão apegados à riqueza, os que não se sentem ricos, os que têm sentimentos de compaixão pelos pobres. Interpretam o versículo de Mateus sobre os pobres em espírito como se o espírito fosse o imaterial, o mental, o psicológico. Mas o espírito é vento, força, tempestade como no dia de Pentecostes. Os pobres no espírito são os que são animados pelo Espírito.

Não são os pobres sentimentalmente‖154.

Com esta denúncia Comblin demonstra que os ricos com seus pensamentos, sentimentos e interpretações errôneas dos escritos dos evangelistas deixam claro quem são eles e quais são seus objetivos. São pobres da presença de Deus e seus objetivos sempre será construir abismos sociais entre eles e os carentes de vida. Por isso, a pobreza pode ser definida como acúmulo de poucos155. Apesar de Comblin deixar claro que ser pobre é muito mais do que estar em uma posição econômica inferior, o termo é mais amplo e tem outros fatores como sociais, políticos, emocionais e físicos que indicam a natureza da pobreza. O autor propõe um desenraizamento da riqueza, ou seja, não estar apegado a esta. A pessoa saberia dividi-la, pois o sentimento de compaixão que o Reino produz no ser humano é um dos fatores principais que impulsiona o cristão a seguir uma práxis do reino e um configurar-se segundo a mensagem e a pessoa do próprio Jesus, ou seja, se tornar pobre com os pobres, parece aqui que houve uma escolha de Deus desta personagem, mas isso não é verdade, ela se realizou por si mesma156.

Comblin tem uma concepção do que significa o ser pobre, que vai além daquele que está em dificuldade financeira, mas é aquele que se torna o alvo da injustiça social, assim, se coloca ao lado deles, por isso, pôde escrever com autoridade e deu preferência aos agricultores do nordeste, pobres, excluídos e aos que o ajudaram, se entregando e morrendo entre eles. Assim, é possível concordar com o termo ―terrenalidade‖ da caridade

154 COMBLIN, José Os pobres e a libertação. http://www.ihu.unisinos.br/noticias/42086-os-pobres-e-a-libertacao-

artigo-inedito-de-jose-comblin acessado em 04/02/2012.

155 DUPONT, Jacques. Jesus, Messias dos pobres, messias pobre, São Paulo: Paulinas, 1985, pg. 9.

156 COMBLIN, José. A Oração de Jesus. São Paulo: Paulus Editora, 2010, pg. 68.

de Gustavo Gutiérrez, definido pelo movimento que vai ao encontro do outro, colocando onde a opção do Reino de Deus é o trabalho em prol dos pobres, da seguinte forma:

―Podemos nos certificar da importância da passagem de Mateus 25: 31-46 para a experiência da Igreja. Ela muito nos ajudou a percebermos a exigência da eficácia no servi-lo aos outros. Percepção não só da eficácia, mas também – frente a uma versão espiritualista - daquilo que poderíamos chamar a ―terrenalidade‖ da caridade cristã. A partir deste texto, pudemos compreender que o encontro com o pobre, por meio de obras concretas, é um passo obrigatório para o encontro com o próprio Cristo‖157.

Semelhantemente, é possível indicar que os beneficiários do Reino de Deus são aquelas pessoas que ouvem, vêem e praticam o evangelho se solidarizando suprindo a necessidade do próximo se tornando pobre, mas também o próprio objeto dessa solidariedade, que são os pobres de fato.