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LA CONSTITUTION DE L 'ETRE-A-FAIRE.

Dans le document Le diagnostic préalable au projet (Page 165-170)

2 LES OBJETS PARTICULIERS DES OPERATIONS DU DIAGNOSTIC.

3. LA CONSTITUTION DE L 'ETRE-A-FAIRE.

Bandeiras dos Estados Unidos estavam agitadas em Nova York no dia 2 de maio de 2011. Pessoas buzinavam seus veículos e davam “bravos de vitória” contra a personificação do terror em Osama bin Laden. Cenas não muito diferentes das cenas de alguns palestinos celebrando a queda do Word Trade Center, conforme observamos nas imagens abaixo:

Figura 17 Foto feita em 2 de maio de 2011 pela EPA (European pressphoto agency) e foto publicada na FSP página A17 em 12 de Setembro de 2001.

A repercussão midiática da morte de Osama foi enorme e controversa. Alguns afirmaram que a morte era uma farsa. Outros, que a morte foi em legítima defesa dos soldados. O próprio discurso do governo Obama foi contraditório. Em um momento, Osama estaria armado. Depois, disseram que a arma estava ao alcance dele. Até mesmo Mahmoud Ahmadinejad, presidente do Irã no período, fez uma curiosa observação:

Tenho informação exata de que Bin Laden estava em poder dos militares americanos há muito tempo. Não o mataram durante a luta contra o terrorismo, mas para alimentar a propaganda na sociedade americana e atrair os votos. 305

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Disponível em: <http://noticias.r7.com/internacional/noticias/eua-capturaram-bin-laden-muito-antes-de-mata-lo-diz- presidente-do-ira-20110515.html?question=0>. Acesso em 05/03/2013.

O governo dos Estados Unidos garantiu que Osama foi enterrado com rituais islâmicos, fato também fortemente questionado. Uma placa levantada em Nova York com a frase “Obama 1 X Osama 0” revela o aumento de popularidade do presidente, que acabou reeleito.

Figura 18- Foto feita em 2 de maio de 2001 pela EPA (European pressphoto agency)

Evidentemente, o líder da Al-Qaeda já estava condenado à morte muito antes de ser encontrado. Osama não precisaria necessariamente ser julgado pelo Tribunal Penal Internacional, pois foi capturado por soldados norte-americanos e os Estados Unidos não ratificaram sua participação efetiva no Tribunal Penal Internacional. Mas isso não é suficiente para justificar uma obscura execução. Vale lembrar que soldados norte-americanos também capturaram Saddam Hussein e o encaminharam para um tribunal específico, embora não fosse reconhecido como legítimo para Saddam.

Estes pontos que indicamos ganharam amplo debate na mídia internacional. O fluxo de novas informações – neste caso sobre a morte de Osama – acabou ofuscando as informações sobre os ataques norte-americanos. Esse passa a ser um dilema na relação mídia e informação, no qual um novo fato se sobrepõe facilmente ao outro. O fervor da vitória norte-americana teve espaço na imprensa por semanas. Consequentemente, outros aspectos da guerra ao terror receberam menor importância da mídia.

CONCLUSÃO

De um lado, um grupo que vai além de suas crenças e contraria princípios considerados universais. Eles se armam, recrutam jovens e movimentam milhares de pessoas contra outras nações em nome de Allah, num ato amplamente reprovado por vários religiosos muçulmanos e pela comunidade internacional. Do outro lado,

um grupo de pensadores que buscam um mundo ideal – assim como os

fundamentalistas. Porém, o fazem não com base no Corão ou em um livro sagrado. Mas, sim, nos ideais enraizados do neoconservadorismo, defendendo que somente suas ideias e o poderio norte-americano são capazes de transformar ou estabilizar o sistema internacional anárquico.

Esta incompatibilidade de objetivos e modos de se socializar, governar e buscar a paz remete ao conceito de distância moral, exposto por Raymond Aron, ao relatar as diferenças entre a Europa e o Extremo Oriente. Um choque de valores entre as duas culturas. Pode-se dizer que estas linhas de pensamento não compactuam ou não fazem parte totalmente do mesmo “sistema”:

[...] Naturalmente, quando na época em que um sistema se forma, isto é, quando o relacionamento dos atores perde o caráter ocasional ou anárquico, os participantes do sistema pertencem, em sua maior parte, à mesma cultura, adoram os mesmos deuses e respeitam as mesmas normas.306

Não há simpatia mútua entre estas linhas. Não são atores que buscam conhecer os papéis que cada um desempenha. Por isso, o relacionamento é ocasional, apenas quando se encontram interesses mútuos.

Além desta incompatibilidade, há uma falta de compreensão e uma generalização das partes. No verão de 1993 foi publicado pelo cientista político Samuel P. Huntington o artigo O Choque de Civilizações?, que se tornou um livro e sofreu uma mudança sutil no título. Ao invés de uma pergunta, passou a ser uma afirmação: Choque de Civilizações. Esta alteração demonstra que a problemática de pesquisa sobre o objeto de estudo de Huntington se torna uma hipótese para ele.

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Huntington cita em seu livro o conceito de Dois Mundos: Nós e Eles, e o conceito O Ocidente e o Resto. Interessante observar o esforço do cientista político em criar modelos ideais para analisar o cenário mundial após a Guerra Fria. Com este método, Huntington divide o mundo em nove civilizações: Ocidental, Africana, Islâmica, Hindu, Ortodoxa, Latino-Americana, Budista e Japonesa. Huntington defende a ideia de um novo tipo de conflito, não mais motivado por ideologias, como na Guerra Fria. Mas, sim, pelas diferenças culturais existentes entre as civilizações. Boa parte de sua obra relata o declínio do Ocidente e o ressurgimento islâmico que, segundo ele, pode colocar em jogo a identidade cultural do Ocidente (neste caso os Estados Unidos e a Europa Ocidental). Huntington defende que a cultura ocidental deve encontrar alternativas para permanecer forte diante do crescimento de outras civilizações.

Esta hipótese sobre o declínio do Ocidente e o ressurgimento islâmico acaba gerando outros problemas na leitura extremada dos textos de Huntington. Problemas como a xenofobia presente na Europa e movimentos contra a imigração muçulmana. Assim, Huntington é duramente criticado por vários autores e até mesmo chamado de racista mascarado pelo mexicano Carlos Fuentes, que criticou duramente outro texto de Huntington, o Desafio Hispânico, no qual afirma que a migração mexicana pode dividir os Estados Unidos.

Em contraposição às exposições de Huntington foi publicado um artigo com o título O Choque da Ignorância, escrito por Edward Said, um grande escritor crítico à construção do “outro imaginário” sem o real conhecimento das diferenças entre as sociedades. Said critica as generalizações e apontamentos feitos por Huntington ao ressurgimento islâmico.

A complexidade de uma civilização impede uma elaboração teórica para definir a mesma. Na prática, principalmente ao falar sobre o islamismo, é necessário ter cuidado com as generalizações. Não se pode pensar em um Islã monolítico. Na verdade, há vários tipos de comportamentos sociais que professam a fé islâmica. Certamente, há diferenças entre ser muçulmano no Egito e ser um muçulmano no Irã. Há também diferenças entre ser terrorista e um fundamentalista que somente deseja preservar sua fé. Estas diferenças não são muito claras para grande parte da sociedade ocidental. Assim, um preconceito se forma:

[...] a personificação das entidades chamadas "Ocidente" e "Islã" é imprudente, como se questões extremamente complexas como a identidade e a cultura existissem em um mundo como o do desenho animado Popeye e Brutus, no qual uns lutam contra os outros sem piedade, com um boxeador sempre mais virtuoso que consegue vantagem sobre o adversário307.

Em outras palavras, Said diz que o “conflito” entre Ocidente e Islã não pode ser visto como um simples desenho animado no qual os personagens disputam constantemente, um tentando vencer o outro.

Evidentemente, não se pode afirmar que todo o Ocidente ou, mais precisamente, que a nação norte-americana em geral faz leituras inadequadas destes povos. De fato, alguns da ala neoconservadora na política norte-americana ainda se julgam capazes de transformar o mundo e combater o desafio do ressurgimento islâmico, como se o ressurgimento fosse algo assombrador para o mundo. Logo, percebe-se que há uma falta de compreensão sobre o Oriente e, principalmente, falta distinguir as subculturas que existem dentro da rica cultura oriental.

Nem sempre a liberdade humana será defendida através das armas. Liberdade essa que também pode ser relativa entre as culturas, pois até a liberdade de voto pode ser uma usurpação para um muçulmano. Todos concordam que a luta armada é algo que fere a dignidade humana universalmente.

Ainda existe muito por fazer para aproximar o Ocidente do Oriente. Impressiona que após tantos anos de interação os dois grupos permaneçam tão distantes e tão desconhecidos. Essa falta de conhecimento é, sem dúvida, o fator fundamental de muitos dos maiores desafios da humanidade atualmente.

No Brasil, percebemos que nossos meios de comunicação analisados possuem discursos muito próximos aos dos noticiários norte-americanos. O que nos faz ter um filtro de informação, impedindo o conhecimento mais profundo sobre os conflitos no Oriente Médio. Temos, em geral, uma visão ocidental que põe o mundo divido entre o bem e o mal.

Ao falarmos sobre o mal, lembramos que este mal geralmente é provocado pela falta de conhecimento, o que gera a cultura do medo. Medo do desconhecido que se perpetua através dos noticiários e dos filmes de Hollywood. O escritor Mia Couto, em uma conferência sobre segurança internacional, chamou a atenção ao ler

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um texto de sua autoria. O texto extremamente crítico em relação ao evento que acontecia - mas em tom poético:

[...] A nossa indignação, porém, é bem menor do que o medo! Sem darmos conta fomos convertidos em soldados de um exército sem nome e, como militares sem farda, deixamos de questionar. Deixamos de fazer perguntas e discutir razões. As questões de ética são esquecidas porque está provada a barbaridade dos outros, e porque estamos em guerra, não temos que fazer prova de coerência, nem de ética, nem de legalidade. É sintomático que a única construção humana que pode ser vista do espaço seja uma muralha, a Grande Muralha, que foi erguida para proteger a China das guerras e das invasões. A muralha não evitou conflitos nem parou os invasores. Possivelmente morreram mais chineses construindo a muralha do que vítimas das invasões que realmente aconteceram. Diz-se que alguns trabalhadores que morreram foram emparedados na sua própria construção. Esses corpos, convertidos em muro e pedra, são uma metáfora do quanto o medo nos pode aprisionar. Há muros que separam nações, há muros que dividem pobres e ricos, mas não há hoje no mundo um muro que separe os que têm medo dos que não têm medo. Sob as mesmas nuvens cinzentas vivemos todos nós, do Sul e do Norte, do Ocidente e do Oriente. Citarei Eduardo Galeano acerca disto, que é o medo global, e dizer: os que trabalham têm medo de perder o trabalho; os que não trabalham têm medo de nunca encontrar trabalho; quando não têm medo da fome têm medo da comida; os civis têm medo dos militares; os militares têm medo da falta de armas e as armas têm medo da falta de guerras e, se calhar, acrescento agora eu, há quem tenha medo que o medo acabe.

Olhando por esta perspectiva alternativa de crítica política: seria talvez a arte um caminho para aproximação? O texto de Mia Couto, os grafites de Banksy, ou a retomada das comédias críticas de Chaplin, como o filme O Grande Ditador. Talvez estes movimentos ajudem nossa população a compreender e a refletir sobre a construção do outro, sobre a propagação de um mal desconhecido e a criar novas aproximações.

A reflexão de Mia Couto mostra que o medo se vai a partir do momento em que conhecemos aquilo que tememos. O medo dos chineses ou medo do pensamento de Marx que foi muito presente no Ocidente, hoje já não são encarados como um grande perigo ao mundo a partir do momento que os conhecemos.

Esses fantasmas tiveram o fim de todos os fantasmas: morreram quando morreu o medo. Os chineses abriram restaurantes à nossa porta, os ditos terroristas são hoje governantes respeitáveis e Karl Marx, o ateu barbudo, é um simpático avô que não deixou descendência.

Os grafites de Banksy nos fazem refletir sobre guerra e segurança. São imagens com grande conteúdo crítico, de fácil compreensão e com grande ironia ao sistema político atual. Guerra, entretimento e liberalismo econômico são postas lado a lado como símbolo dos valores enraizados nas grandes potencias ocidentais.

Figura 19 - Grafite realizado por Banksy.

A mudança no paradigma “nós e eles” é a grande chave para uma aproximação cultural. No entanto, enquanto a obsessão econômica e a política da guerra na tentativa de estabelecer a paz forem os principais tópicos da agenda internacional, continuaremos na mesma situação. Aguardamos um dia em que o debate sobre a fome, as doenças, as mudanças climáticas e a econômica solidária e sustentável entre nesta agenda. Enquanto isso, a mídia de forma autônoma pode ajudar a esclarecer os fatos, denunciar os abusos de Estado e informar à população que, aquilo que tememos nem sempre é um perigo real para nós.

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