Um fenômeno notório das últimas décadas é o controverso processo de “globalização”, que foi marcado, principalmente nos países periféricos, pela superação das fases iniciais de industrialização, na redução das restrições quantitativas para importar, na abertura comercial e flexibilização dos fluxos de capitais. Logo, não é enganoso pensar que a globalização exerceu influencia fundamental nas mudanças estruturais ocorridas nos diferentes países, mesmo que de maneira indireta, a combinação desses fatores deve ser levada em conta para a explicação do novo padrão produtivo dos países.
Segundo Rodrik e McMillan (2011) o processo de globalização não leva necessariamente a um crescimento sustentado na produtividade, visto que não estimula a mudança estrutural em direção aos setores dinâmicos, mas sim, estimula a especialização produtiva nos bens que possuem vantagens comparativas já estabelecidas. No caso dos
países periféricos essas vantagens são restritas aos setores agroexportadores, atividades marcadas pelo baixo grau de disseminação de tecnologia e produtividade; logo, a mudança estrutural ensejada pelo processo de globalização favorece nesses países o surgimento de um enclave de produtividade, ou no agravamento da condição de heterogeneidade estrutural.
Segundo Cassiolato e Lastres (1998), nessa forma de organização global predomina o protagonismo das grandes empresas transnacionais, que dispõe de condições suficientes para determinar seus caminhos de expansão, por vezes, sobrepujando os interesses das nações com quem travam relações. Nesse sentido, outro valoroso insight para a compreensão das cadeias globais de valor é fornecido pela abordagem do sistema mundo, não cabe aqui uma exploração mais detalhada dessa rica corrente. Essa visão distingue duas esferas politico-economicas distintas, a sistema inter-Estado e o sistema inter-empresas; em suma, os Estados nacionais modernos atuam politicamente na esfera inter-Estado para garantir os interesses das empresas37 (ou conjunto de empresas) com sede em cada território nacional. Ou seja, existe uma franca corrida para ocupar os segmentos mais valorosos de uma cadeia global de valor
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O processo de internacionalização da produção criou a necessidade de um novo tipo de abordagem, que, abarcasse os novos padrões organizacionais adotados pelas principais empresas promotoras do comércio internacional. Surge nesse sentido a teorização sobre as cadeias globais de valor (CGV). Esse sistema é liderado por empresas transnacionais e circundado por empresas fornecedoras e prestadoras de serviços, e, busca explorar as especificidades de cada região e parceiro, que, por sua vez, normalmente se dedicam a especialização nas atividades específicas que realizam.
Segundo Miles (2005) o paradigma ICT disseminou as tecnologias capazes de serem amplamente incorporadas ao setor de
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Na esfera capitalista os Estados amparam a imposição de monopólios, seja através de instrumentos econômicos ou não econômicos, nesse sentido, o capitalismo é “contra-mercado”. (ARIENTI, FILOMENO. 2007).
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As disputas, ou ciclos, assumem formas específicas, que dependem do contexto histórico vigente. Por vezes nações específicas assumem a liderança de um ciclo, todavia, as faltas de sincronização e de liderança exclusiva denotam que “as relações de poder no sistema inter-Estado não são um mero reflexo da liderança nas relações inter-empresas” (ARRIGHI, pág. 26. 1997).
serviços, possibilitando uma quebra de padrão nesse setor como um todo, mas com intensidade diferenciada para seus diferentes ramos, ou seja, mesmo nas atividades onde a introdução de novas tecnologias foi menor o impacto observado foi significativo. Entretanto, essa guinada não significa necessariamente que o setor como um todo observou uma mudança dinâmica nos padrões de inovação, muitos ramos apesar de beneficiários das novas tecnologias permanecem ligados a suas tradições ancestrais ou a características de mercado que inibem ou não estimulam o engajamento de estratégias inovadoras.
Segundo Sturgeon et. all (2013), as CGV são facilmente notadas quando analisados os crescentes níveis de comercio internacional de bens intermediários, em detrimento do comércio de bens finais; bem como a emergência de países e empresas que passaram a se especializar em um segmento das redes de valor organizada pelas empresas líderes. A produção industrial nos países desenvolvidos se tornou declinante, pois, essas atividades se tornaram mais vantajosas quando operacionalizadas no exterior.
A análise do valor adicionado nas cadeias globais de valor demonstra um padrão de comportamento que ficou conhecido como “curva sorriso”, que consiste em que as atividades “da ponta”, como P&D e design, de um lado, e marketing e serviços, do outro, são atividades que contribuem com maior agregação de valor. Por outro lado, as atividades do “miolo”, como logística e a produção, tem perfil mais concorrencial a adicionam pouco valor agregado.
Segundo Gereffi e Fernandez-Stark (2010), existem duas perspectivas principais para desagregar os serviços no contexto das CGVs, são eles: offshoring, que diz respeito a provisão de um serviço além das fronteiras nacionais; e outsourcing, que consiste na contratação de um serviço além dos limites legais da firma. A escolha por esse processo estará sujeita aos interesses da empresa demandante do serviço em questão e depende de diversos fatores, que não se apresentam da mesma forma para as diferentes firmas ou atividades.
Segundo Rodrik e MacMillan (2011) de acordo com a teoria das vantagens comparativas, uma maior abertura comercial no contexto da globalização leva os países a especializar suas estruturas produtivas, ou seja, aprofundar as vantagens comparativas. Os autores frisam que no caso de grande parte dos países periféricos existe a vantagem comparativa em bens primários, predominantemente agrícola, logo, um impulso em direção a uma economia mais aberta e globalizada, sem contrapartes, diminuiria o incentivo para a mudança estrutural. Nesse caso os países incorreriam em um aprofundamento da especialização
agroexportadora, não gerando significativo transbordamento tecnológico para outras atividades.
Esse tipo de especialização estaria atrelado a um padrão em que uma fração muito pequena do pessoal ocupado da economia ganhe salários acima da produtividade, apesar disso, com o aumento da renda tendem a proliferar postos de trabalho no setor de serviços de perfil tradicionalmente improdutivo. Um mecanismo que reforçaria uma trajetória de baixo crescimento da produtividade e, por conseguinte, do produto de longo prazo da economia.
A relação dos serviços com o comércio exterior representa outro aspecto relevante na análise do setor de serviços, essas transações podem ser enquadradas em quatro modos distintos de comércio. O primeiro consiste nos serviços que transpassam fronteiras (ex: software); o segundo se identifica quando são os indivíduos que atravessam as fronteiras (ex: pós-graduação); o terceiro consiste nas empresas que se instalam em outros países para prestação de serviço; o quarto e ultimo, as fronteiras são atravessadas por trabalhadores que vão para outra região prestar serviços (GATS, apud. CNI, pág 22. 2014).
Existem ainda, alguns pensadores que defendem o estabelecimento de um quinto modo. A necessidade se justifica, pois, os outros quatro modos não dão conta dos serviços já incorporados nos bens, nem dos serviços que compõe o valor do bem antes mesmo desse ser exportado. Esse quinto modo daria conta dos insumos de serviços presente em um bem. (CERNAT e KUTLINA-DIMITROVA, 2014; apud. CNI, pág. 22. 2014).
O Estado pode definir diretrizes para uma melhor inserção nas cadeias globais de valor, o foco deverá ser nas pontas da curva sorriso. Segundo UNCTAD (2013) a atuação deverá ser no sentido de capacitar as firmas locais para uma atuação dinâmica global, possibilitar um ambiente que facilite a penetração das CGV, estabelecer um marco institucional adequado, buscar aproveitar sinergias positivas entre investimento e comércio internacionais. Para tanto, é necessário que se tenha em vista os padrões tecnológicos vigentes e as oportunidades que podem se abrir. Politicas econômicas e industriais, apesar de sujeitas a forte incerteza, no que se refere às estratégias geopolíticas das grandes corporações, devem ser elaboradas estrategicamente, e são fundamentais se existe o intuito da uma inserção externa dinâmica.
Mais uma vez, merece ser frisado que apesar de ser composto também por algumas atividades de alto dinamismo e alta agregação de valor, o setor de serviços é extremamente heterogêneo, e as atividades dinâmicas não são distribuídas uniformemente estre os diferentes países.
Este trabalho não pretende destituir ou pormenorizar a importância também de atividades industriais no conjunto produtivo. De fato o que se propõe é que a análise seja tomada de maneira conjunta, considerando a fortes relações de interdependência desses setores no processo de agregação de valor, de geração e de difusão do progresso técnico. Nesse sentido a próxima seção vem com o intuito de esclarecer a sinergia entre o setor industrial e o setor de serviços que tem ganhado importância com o avanço e amadurecimento do paradigma das TIC.
Dessa discussão recente e de ponta se percebe com maior clareza a importância das contribuições do pensador cepalino Fernando Fajnzylberg, que foi abordado em maiores detalhes no capítulo primeiro, bem como a convergência da abordagem das CGV com o pensamento estruturalista-evolucionário. Para esse autor, as empresas multinacionais concentram o progresso tecnológico, e por maior que atuassem de maneira expansiva ao redor do globo foram extremamente zelosas em não deixar que o conhecimento valoroso embutido em suas práticas pudesse fluir. Logo, o processo de internacionalização da produção pode ocasionar na periferia um processo de industrialização inerte, ou seja, não dotado de um núcleo endógeno de progresso técnico. Dentro da concepção das CGV isso representa um enorme obstáculo para a internalização dos elos de maior agregação de valor por parte das estruturas produtivas menos sofisticadas.