Os resultados preliminares que se apresentaram ao longo dos capítulos, colaboram para a compreensão dos sentidos que, através de suas experiências, os discentes atribuem ao artista-pesquisador-docente e como eles o relacionam à proposta curricular deste curso. Neste sentido, ressalta-se que o recorte que singulariza a questão da tese consiste na relação estabelecida pelos discentes entre a proposta pedagógica do curso e o perfil do egresso.
Portanto, os capítulos foram escritos de forma que cada um compusesse uma parte necessária para a compreensão do todo. Isto porque a questão da tese passa por compreensões que tangem esferas como: as experiências e os sentidos; o currículo e o Teatro; a proposta curricular do Curso de Teatro/ICA/UFC; os discentes; e o artista-pesquisador-docente. Logo, nestas conclusões serão revisitados os principais pontos abordados nos capítulos anteriores.
Assim, o segundo capítulo demonstra que as experiências dos discentes enquanto artistas-docentes balizaram as suas considerações a respeito de suas identidades profissionais. Da mesma forma, os sentidos que eles atribuíram à proposta pedagógica do curso foram deflagrados a partir da reconstrução destas experiências através de suas narrativas. Portanto, quando se intenta responder à questão da tese, toca-se nas subjetividades dos sujeitos e nas suas inferências quanto à relação entre proposta pedagógica do curso e o perfil do egresso.
Uma vez que se reporta a estas experiências, tomam-se os discentes como sujeitos das experiências. Estas experiências de docência artista podem ser comparadas a uma experiência teatral, no sentido de que ela não acontece se atores e espectadores, ambos, não se encontrarem mergulhados em seus papéis, em suas diferentes configurações, esforçando-se para produzir um sentido.
Por isso, não se pode deixar convencer pelo argumento falacioso de que o Teatro é território de ninguém, local privilegiado onde cada um fala e entende o que quer. O espetáculo teatral é, antes de tudo, uma vivência intencional e quem participa dele pretende uma experiência que lhe estabeleça sentido. Da mesma forma ocorre com o currículo, ou seja, aqueles que se colocam a percorrer um caminho intencionam esta experiência na busca contínua de sentidos que irão corroborar com a construção de suas identidades profissionais.
Sequencialmente, no capítulo terceiro, pode-se concluir, também, que diante da tarefa de encontrar uma definição para currículo, a analogia entre ele e o Teatro, foi fundamental para que os discentes pudessem refletir sobre a proposta pedagógica do curso. Isto porque, ao
refletirem sobre a proposta curricular do curso, tomando como base esta analogia, os discentes avançaram na compreensão de currículo como organização de conteúdos. Assim, refletiram sobre sua condição de espectadores ou atores nas ações curriculares chamando para si a responsabilidade nos processos de ensino e aprendizagem.
Neste capítulo, salienta-se, ainda, a importância de compreender que uma docência artista caminha para além de seus aportes estéticos. Pois, ao se buscar forjar um artista- pesquisador-docente a partir das bases do Teatro do Oprimido, nota-se preponderante que este professor de Teatro reflita sobre os modos de se posicionar ética e politicamente diante da docência e da arte.
Já o capítulo quarto torna claro o vínculo embrionário do Curso de Teatro- licenciatura/ICA/UFC com o Curso de Artes Dramáticas, cujo histórico de reformulações curriculares retira da graduação a primazia do estudo sistemático do Teatro. Comparando, ainda, as duas integralizações curriculares que vigoraram deste sua implementação com o estudo de Santana (2000), notam-se aproximações e diferenças entre estas e as dos demais cursos de licenciatura em Teatro.
Uma das razões destas diferenças recai sobre a implementação do curso ter se dado após a DCN de 2004 e as integralizações curriculares analisadas por Santana (2000) precederem a implementação desta Diretriz. Deduz-se, também, que outra razão possível seria a herança curricular do Curso de Artes Dramáticas. Isto porque, como o CAD foi um curso de formação de atores, ele pode ter influenciado para uma maior carga-horária destinada a disciplinas de formação artística. Ademais, o próprio perfil do egresso, pouco comum a outras propostas pedagógicas, colabora para os desvios que singularizam este currículo da média dos outros cursos.
Ao mesmo tempo, o principal ponto que aproxima a integralização deste curso com as demais é a carga-horária destinada às disciplinas de fundamentação didático-pedagógica. Neste caso, pode-se considerar que um mesmo conjunto de conteúdos compõe o que se considera como conhecimento fundamental para formar o licenciado. Assim, para o Curso de Teatro-licenciatura/ICA/UFC estes conhecimentos são articulados através de cinco disciplinas ministradas pela Faculdade de Educação (FACED/UFC) para todos os cursos de licenciatura desta Universidade, quais sejam: Psicologia da Aprendizagem na Adolescência; Estudos Sócio-históricos e Culturais da Educação; Didática; Estrutura Política e Gestão Educacional; e LIBRAS.
Ao analisar o corpo discente e o histórico de suas relações com o curso, no quinto capítulo, infere-se que frequentam esta licenciatura dois grupos de alunos: aqueles que desejam ser artistas e também professores, e aqueles que só desejam a formação artística. Este quadro, por sua vez, gera uma multiplicidade de posicionamentos diante do curso. Pois, o modo de experienciar o currículo passa pelo desejo e pela expectativa de formação do sujeito. Os sentidos que os discentes continuamente atribuem ao seu percurso partem de um ponto de vista a respeito do que vislumbram e almejam profissionalmente.
Neste caso, é válido salientar que de quatro ações curriculares apontadas pelo discente como espaços nos quais se poderia ver o artista-pesquisador-docente em ação, apenas uma delas refere-se a uma atividade, que possui caráter de disciplina: Montagem. Todas as outras ações (SDTE, PIBID-Teatro e Aplauso Festival de Teatro) foram deflagradas por iniciativas pessoais dos professores. Este aspecto salienta a importância de se compreender o currículo para além do seu documento prescritivo. Importante frisar, também, que este dado ressalta o engajamento de todos os sujeitos envolvidos no ensino e na aprendizagem.
A questão do artista-pesquisador-docente, abordada no capítulo seis, evidencia a ausência de referências sobre este perfil de profissional. Ao mesmo tempo, busca-se atribuir um sentido ao artista-pesquisador-docente através de uma revisão bibliográfica sobre a docência artista e a questão da pesquisa em Arte. Assim, o sexto capítulo também é propositivo quanto às bases políticas e ideológicas que podem pautar o percurso dos sujeitos e, com isso, sedimentar a construção de suas identidades profissionais. Donde se pode concluir que o pensar sobre este profissional, e, portanto, sobre as ações formativas neste currículo, não recai somente sobre questões estéticas e pedagógicas, mas, também, éticas, políticas e ideológicas.
No entanto, quando este capítulo dedica-se a analisar o perfil de profissional com base nas inferências dos sujeitos investigados, é possível levantar pouquíssimas questões que tangem preocupações dos discentes no campo da ética ou da política. Os discentes pautaram suas considerações principalmente nos desafios que observaram de uma docência artista na escola. As suas narrativas evocavam, principalmente, questões estéticas e pedagógicas. As raras abordagens políticas e ideológicas pautavam-se sobre a necessidade de, mesmo diante das dificuldades enfrentadas, o docente artista se fazer cada vez mais presente na escola, transformando este espaço em um local onde é possível encontrar Arte.
Conclui-se que, mesmo passível de críticas, os discentes avaliaram que a proposta pedagógica do curso prima por um ensino de excelência, tanto na formação do artista quanto do discente. As principais críticas recaem sobre dois pontos centrais, quais sejam: 1- Multiplicidade de compreensões sobre o que seria o artista-pesquisador-docente dificultaria as ações curriculares; 2- Sectarização existente no currículo que ora forma o artista, ora o docente, ora o pesquisador.
Nota-se, portanto, que no que diz respeito à relação entre o currículo e o perfil do egresso, esta é a grande questão que desafia os atores deste curso: disciplinas que preparam, em suas singularidades, um profissional que é plural, ainda pouco definido pelos seus atores, e que habita uma zona de fronteira.
Neste caso, a interdisciplinaridade pode se apresentar como uma alternativa possível para suscitar experiências que sejam capazes de agregar a arte, a pesquisa e a docência. Logo, a responsabilidade recai, mais uma vez, sobre os sujeitos envolvidos nas ações curriculares. Por exemplo, através da proposição de projetos integradores que possam vir a habitar esta zona de fronteira na qual se forma o artista-pesquisador-docente. Para isto, é necessário que discentes e docentes avaliem constantemente o currículo do curso e estejam comprometidos, cada qual com as suas diferentes responsabilidades, com o ensino e a aprendizagem em Teatro.
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