Chapitre 2 - Etat des lieux du parc résidentiel collectif genevois en 2010
2.5 Caractéristiques énergétiques du parc résidentiel collectif genevois
2.5.3 Consommation thermique unitaire IDC en 2010
A Idade Média é o período da grande ascensão da Igreja Católica, assim como dos seus valores e punições. Apesar da tentativa inicial dos Imperadores de restaurar o paganismo, o medo instaurado pelo cristianismo conseguiu garantir uma grande adesão popular. Como aponta Sandra dos Santos (2010), o catolicismo inaugura uma nova perspectiva religiosa, até então inexistente no paganismo e nas religiões politeístas que é a ideia de que a vida terrena é pouco significativa diante de uma vida eterna que pode ser repleta de suplícios ou de glórias.
Para essa autora, o grande diferencial é impor a ideia de salvação como algo futuro, gerando a dúvida e através dela a aposta na libertação pós-morte.
Detentores do controle do conhecimento, da informação e da cultura, os religiosos afirmavam que estavam constantemente impondo a superioridade divina sobre o oponente demoníaco que poderia a qualquer momento tomar os humanos como servos de seus intentos. Fundamentados na afirmação da inferioridade das mulheres devido a sua identificação com Eva, responsável pelo pecado original, facilmente os clérigos associaram estas ao risco contínuo. Se as mulheres foram excluídas dos registros históricos ao longo da Idade Média elas só aparecem em registros de homens da Igreja que se mantinham afastados delas e que as representavam como misteriosas, demoníacas e dominadoras do mal (VENTORIM, 2005).
Oliveira e Bergamo (2014) afirmam que as mulheres foram as principais vítimas da tirania da Igreja Católica, principalmente através da perseguição de todas aquelas que por algum motivo eram consideradas bruxas, feiticeiras, subversivas. Aquele comportamento que destoasse do proposto pela lógica cristã era passível de execução, inclusive as práticas medicinais, ritualísticas e de transmissão de conhecimento entre mulheres que eram reconhecidamente parteiras, curandeiras e rezadeiras. Avançando por essa lógica, a Idade Média pode ser considerada como um período onde a misoginia conseguiu executar milhares de mulheres com apoio dos imperadores (que não queriam se indispor com a Igreja) e com aval da população (tomada pelo medo do demônio que a própria Igreja causava).
Demonizada por sua proximidade com o pecado, as mulheres têm a sua redenção possível desde que se dediquem exclusivamente a sua capacidade reprodutiva, principalmente se essa produção gerar novos homens (SWAN, 2007). É desse modo que o Cristianismo tem um papel fundamental na discussão sobre os significados que foram atribuídos às práticas abortivas, inaugurando um novo conjunto de signos sobre a feminilidade, reduzindo-a a uma representação do que deve ser controlado e repudiado e que precisa estar em constate vigilância para transcender a uma suposta natureza pecaminosa.
A produção discursiva da Igreja defende a maternidade como redentora das mulheres, através da abnegação e do sacrifício. Elisabeth Badinter (1985) apresenta que, de acordo com essa lógica, cabe às mulheres aceitarem essa ‘vocação’ ao sacrifício e anulação de sua individualidade em prol da criação dos filhos, porque esse é o caminho pelo qual elas podem extinguir os resquícios da sensualidade e da rebeldia da pecadora Eva. A resistência a esse
modelo facilmente gera não uma discordância política ou religiosa, mas a culpabilização das mulheres pela desordem do mundo.
A dogmática cristã foi a primeira a colocar o feto no centro da discussão sobre aborto e equiparou a prática ao homicídio, discurso que é defendido até os dias atuais pelos religiosos. Representantes discutiram por séculos sobre qual seria o momento de animação da alma do feto, para pensar a intensidade da punição da mulher que aborta, focando que este era um crime sem perdão para Deus, pois o que estava em pauta não eram os interesses do pai, nem do Estado, nem da mulher, mas o do feto que era entendido como uma produção divina (GALEOTTI, 2007).
Negar a maternidade e, consequentemente, abortar era uma infração grave o suficiente, era requerer liberdade nas suas práticas reprodutivas e, também, nas suas práticas sexuais e isso consistia (e ainda consiste) em um tabu para a Igreja. O Concílio de Elvira (a.C 300-303) definiu, ainda que, de modo indireto, uma sanção para mulheres que abortassem, para as mulheres que recorressem ao assassinato de seus filhos (sem realizar distinção entre aborto e infanticídio) para encobrir relações sexuais ilícitas (assumindo o entendimento que todo aborto é fruto de uma relação escusa) a expulsão permanentemente da comunidade cristã (GALEOTTI, 2007).
A estipulação de uma punição religiosa para esse tipo de prática é, sem dúvida, uma punição bem severa se considerarmos como a Igreja passou a representar um espaço significativo para as mulheres. É preciso destacar, ainda, o protagonismo da Igreja Católica na busca por penalização e criminalização das práticas abortivas:
Obras contra o aborto de apologistas cristãos famosos, como Atenágoras e Tertuliano, precederam, não por acaso, importantes leis romanas contra o aborto (por exemplo, os rescritos de Severo e Caracalla ou a aplicação da lei Cornelia às drogas abortivas e àqueles que tinham a ver com elas). Não parece, portanto, de excluir uma crescente influência a nível popular do cristianismo sobre a opinião pública e, consequentemente, sobre a esfera jurídica em relação ao aborto e a favor da promoção da vida – ainda que isso não signifique que os Romanos, de alguma maneira, tenham abraçado a visão cristã (Galeotti, 200, p. 57-58).
Expandindo suas fronteiras territoriais a Europa partiu para dominação de novos territórios, onde seus valores religiosos, políticos e culturais foram violentamente impostos sobre outras sociedades. No que se refere ao controle da sexualidade e da capacidade reprodutiva das mulheres esse aspecto foi utilizado não apenas para estigmatizá-las, mas também para organizar um modelo hierárquico entre estas, criando mitos e estigmas sobre as particularidades da sexualidade de cada etnia. Apesar da resistência desses povos, a imposição
desse modelo social se expande no fim da Idade Média e ganha ainda mais força no início da Modernidade.
De acordo com Foucault (2004), ao impor seus preceitos ideológicos e religiosos em outras sociedades, esse modelo adquiriu o caráter doutrinário de discurso, gerando a percepção que é esse discurso que os une e os liga a certos tipos de enunciação, enquanto paralelamente os proíbe terminantemente de todos os outros discursos.
Foi justamente com a conquista de territórios e a conversão de povos não cristãos que a Igreja conseguiu se consolidar como um discurso religioso hegemônico que influenciava ideologicamente os discursos intelectuais, ditando regras de conduta e moralidade. A dominação de povos não europeus possibilitou uma extensão dos discursos cristãos para outros espaços e uma manutenção da sua hegemonia mesmo com o fim da Idade Média.
1.3. A colonização dos corpos das mulheres indígenas e das mulheres negras: aspectos