4.4 Extension to the case where several systems are observed
4.4.2 Consistency and convergence rates according to the number of observed systems . 60
Como já foi dito anteriormente, o corpo, como elemento de pesquisa, depende de fatores sociais, culturais e políticos que o caracterizam em certo momento histórico. Dessa forma, nos diferentes contextos socioculturais e diferentes espaços geográficos, o corpo aparece de diferentes formas. Foi por esse motivo que grupos sócio-religiosos ou étnicos esperavam obter maior controle dos papéis sociais e da vigilância política na vivência e na experiência do corpo. Neste capítulo, temos por objetivo compreender a manipulação mágica do corpo atlético do auriga no contexto das relações de poder que se estabeleceram no cotidiano das cidades norte-africanas por intermédio da análise dos conflitos entre esses atletas. Essa é, em nossa opinião, uma das dimensões históricas e culturais da construção do corpo e de controle da corporalidade (MALUF, 2001, p. 87). Para isso, utilizamos as tábuas execratórias que aludem à desordem endógena entre aurigas no espaço do circo. Estamos teoricamente calcados em conceitos como os de conflito social e magia, associados ao corpo atlético, que é objeto de desejo, disputa e inveja no cotidiano urbano dos espetáculos. Segundo Silva (2002, p. 4),
o corpo tem assim emergido como um palco onde são investidos vários discursos e contra-discursos que de certo modo fabricam o corpo. Parece ser cada vez mais evidente que o corpo humano ultrapassa em muito o plano biológico, sendo social e político, embora não seja claro até onde é que o corpo é socialmente determinado. Os discursos inscritos no corpo não são neutros, pois tem [sic] em vista o exercício do poder. Neste sentido, a gestão do corpo aparece no processo civilizacional como um meio essencial de produzir ordem social.
Intentamos recuperar uma representação urbana de corpo e da beleza atlética masculina por intermédio do discurso associado às práticas religiosas pagãs dentro do Império, práticas estas amplamente difundidas no cotidiano urbano e que nos revelam a importância do corpo atlético dentro do sistema social. Tal abordagem foi possível apenas a partir do exame do texto epigráfico, que nos permite alcançar uma visão de corpo do atleta associado à glória, à estética e à prática esportiva e compreender a manipulação mágica desse corpo, que figura como alvo no contexto das competições esportivas. Em face dessa problemática e com base no arcabouço teórico adotado discutiremos como os competidores do circo concebiam o corpo no contexto das disputas no circus (SILVA, 2002, p. 5). Porém, antes de tratar de aspectos
específicos relativos às práticas mágicas no Império Romano, é necessário explicar a importância e o lugar das factiones, tanto como associação esportiva, quanto como colegiado partidário, e dos iubilatores no espaço urbano e, principalmente, nos circos de Cartago e Hadrumeto.
A PROFISSIONALIZAÇÃO E O PODER DAS FACTIONES
A construção de uma cultura esportiva ao redor do circo exprimiu mais que uma sociedade altamente organizada e motivada que ansiava tais espetáculos, ela manifestou a importância acumulada de laus et gloria (fama e glória) em inúmeras atividades suplementares. A primeira, e já grandemente discutida, foi o financiamento de tais eventos, que mesmo sendo extremamente caros para benfeitores cívicos, os evergetas, foram fundamentais para a popularização do esporte e aumento dos investimentos para o ampliação do calendário de feriados imperiais. Porém, dada à escassez de benfeitores privados no final do terceiro e no início do quarto século, bem como o inversamente proporcional interesse das populações locais pelo esporte, um novo problema emergiu (HUMPHREY, 1986, p. 53). Necessitava-se de um fortalecimento e maior emparelhamento dos integrantes e mecanismos do esporte, de modo a dar conta da imensa responsabilidade de corresponder às expectativas daquela sociedade, fato este que motivou o investimento de capital, tempo e esforço necessário para a construção e profissionalização da operação entre a diversa rede de interesses que cercava os estábulos, não mais apenas e simplesmente ligada à procura e pagamento de serviços
esporádicos de modo a oferecer os melhores jogos.93 Nesse contexto, a reorganização desses
atletas em facções ou associações próprias foi fundamental, agora elas eram geridas por eles próprios, desenvolvendo assim um modo de dar conta dos problemas da diminuição do investimento privado e do aumento do número de jogos, recriando o modo como as organizações esportivas se comportavam no Ocidente e dando aos espectadores o que eles sempre tiveram: um espetáculo conveniente, eficiente e consistente apresentando seus aurigas e equipes favoritas (BRYK, 2012, p. 30).
O que queremos ressaltar é que, na prática, como mencionamos no capítulo anterior, a tendência sob o Império de que os aurigas fossem cada vez mais bem remunerados levou à
93 Entendendo que temos consciência de como é complexo o uso do termo amador e profissional nos jogos e nas competições esportivas do Mundo Antigo, sobre a temática, cf. Gager (1992, p. 46).
formação de uma categoria profissional, como se constata no exemplo dos aurigas, que faziam parte de equipes divididas por cores, as chamadas factiones circi, factiones quadrigariorum ou greges (HARRIS, 1972, p. 173; CAMERON, 1976, p. 5 e ss.; LAWRIE, 2005, p. 38). Porém, as primeiras facções ainda não completamente organizadas começaram a aparecer já na metade do quinto século a.C. (BRYK, 2012, p. 25). Tito Lívio (1, 35-8-3; 56.2), por exemplo, afirma que existiam doze carceres para quatro equipes correspondentes desde 429 a.C. (HARRIS, 1972, p. 187; POTTER; MATTINGLY, 2001, p. 237; HUMPHREY, 1986, p. 137). Cada uma das agremiações esportivas era chamada factio, adotava uma cor distintiva e, ―ao contrário do que ocorria com os ludi gladiatórios imperiais, era um fenômeno independente [...], se tratava, por tanto, de uma empresa privada, com uma finalidade fundamentalmente lucrativa‖ JIMÉNEZ SÁNCHEZ, 2001, p. 104): não poderia ser diferente, uma vez que as facções se inspiravam no exemplo das guildas e dos collegia, que tinham à sua disposição seus próprios decuriones e populus, todos eles baseados no modelo urbano. Tradicionalmente eram quatro: existiam as de cor vermelha (factio russata), branca (factio
albata), a azul (factio venēta) e a verde (factio prasina). Essas cores representavam as
estações do ano e os elementos. Assim, o vermelho, o verão, o fogo e o deus Marte; o azul, o outono, os céus, a água e o deus Netuno; o branco, o inverno, o vento leste e o deus Júpiter; e o verde, a primavera, a terra e a deusa Vênus (CAMERON, 1976, p. 5 e ss.; JIMÉNEZ SÁNCHEZ, 2001, p. 102; BALSDON, 1969, p. 314-315; AUGUET, 1996, p. 117-128; MARROU, 1980, p. 32).
Pela tradição, no período republicano, havia apenas duas facções, a russata e albata. No início do primeiro século augustano, foram adicionadas a prasina e a venēta. O imperador Domiciano (81-96), outro amante das corridas, chegou a criar mais duas equipes, a dourada (factio aurata) e a púrpura (factio purpurea), mas ambas não tiveram vida longa, desaparecendo com sua morte. Essas duas de curta vida representavam as cores do poder imperial e eram organizadas e financiadas com os recursos da casa imperial (Suet., Domit., 7; Marc., Ep., 14.55.2; Dio., 67.4; CAMERON, 1976, p. 45). A historiografia tradicional defendia que, já nos anos finais do século terceiro, os brancos se uniram aos azuis e os
vermelhos aos verdes, voltando ao status quo de disputa entre somente de duas equipes
(POTTER; MATTINGLY, 2001, p. 296; EDMONDSON, 2005, p. 19-21), porém, Alan Cameron (1976, p. 45) defende que,
não estranhamente, foi assumido ou implícito [pela fama e constante vitória dos Verdes e Azuis, inclusive pelos problemas políticos e conflitos sociais constantes como o da Revolta de Niké] de que os Vermelhos e Brancos desapareceram
completamente. Isso certamente não é assim [de acordo com a epigrafia, principalmente]. Certo, até pelo menos o século XII, que sempre havia uma equipe vermelha e branca em todas as corridas [tanto em Bizâncio e Roma], e sem dúvida que muitas vezes ainda ganhavam.
O que parece ser um consenso na atualidade é que continuaram existindo quatro equipes esportivas enquanto que suas implicações políticas fora dos hipódromos e circos eram conformadas em apenas dois grupos políticos e de crítica social. E que mesmo os Vermelhos e Brancos tenham produzidos vários campeões notáveis ao longo dos anos, essas equipes foram colocadas à sombra, dados os recordes de vitórias imensamente maior dos Azuis e Verdes. Superioridade essa que foi ainda mais gritante na criação de uma cultura de fãs, ainda no primeiro século, fator que se verifica quando Marco Aurélio menciona em suas Meditações (1.10) que ele era grato por não ser um partidário dos Azuis ou Verdes. Pelo relato que demonstra a reticência do imperador-filósofo com relação aos jogos, pareceu, sim, existir um bipartidarismo que permeou todos os estratos da sociedade romana por um longuíssimo período de tempo (CAMERON, 1976, p. 45; BRYK, 2012, p. 30-31).
Um fator aqui deve ser ressaltado: as cores eram fundamentais nas corridas, pois mais do que conferir visibilidade às equipes, elas exprimiam a lealdade e o sentimento de coesão de grupo. A visão da historiografia tradicional de que ―não foi a rapidez dos cavalos, não foi a arte dos homens, que os atraiu, mas apenas suas cores‖ ADAM, 1830, p. 313-4) se apoia na máxima pliniana (Ep. 9, 6 : ―Agora torcem pelos tecidos, os tecidos amam‖ ‗Nunc panno fauent,
pannum amant‘). Essa máxima apresenta ser verídica visto que não parece ter havido uma
busca de individualização do atleta, pois, em alternativa, a cor de sua facção poderia alavancar para o estrelato qualquer auriga, não importando por quem correu anteriormente. Afinal, a mobilidade dos atletas entre as equipes era muito comum, fazendo com que os fãs se preocupassem mais com as cores do que com os indivíduos que as vestiam. Quanto mais famoso o auriga se tornava, maior era a exigência de aumento de salário feita aos proprietários dos estábulos (factionum domini ou factionarii), sob a ameaça de transferência para uma factio rival (CAMERON, 1976, p. 9). Assim, independentemente de sua agremiação, os cavaleiros mais famosos começaram a ser chamados miliarii, caso tivessem conquistado uma vitória mais de mil vezes (EDMONDSON, 2005, p. 25).
As facções facilitaram a cultura esportiva por meio de uma variedade de funções organizacionais, desenvolvendo outras estratégias de sobrevivência e mecanismos de lazer diversos, para tal, contavam com um edifício voltado especificamente para essa função. Segundo Anna Leone 2007a, p. 66 , ―além de grandes casas, o segundo elemento que
caracteriza as áreas urbanas tardo-antigas do Norte da África são os complexos usados pelos
collegia ou associações‖. Esses monumentos são de maneira essencial dois tipos de edifícios
de uso semiprivado: banhos públicos voltados para um grupo em especial e locais de reunião, caracterizados por uma grande sala de recepção, por vezes, com teto em formato de abóboda. Ainda, segundo Leone (2007a, p. 66-67), em ambos os casos, a identificação arqueológica é muitas vezes problemática, mesmo que a presença desses edifícios seja uma expressão incontestável da preponderância de associações, corporações e collegia com funções religiosas, de lazer ou econômicas na Antiguidade Tardia, sendo vários desses associados aos jogos de circo dentro da lógica de evergetismo das elites locais, reafirmando assim a importância desses espetáculos para identidade da comunidade.
Apesar de sua natureza profissional, segundo Cameron (1976, p. 6-10; p. 79), os membros das facções esportivas ainda eram tradicionalmente pertencentes à aristocracia local ou aos altos escalões, remontando assim ao início do Principado, especialmente, aos particulares (domini
factionum) que alugavam os cavalos e os demais equipamentos necessários aos organizadores
dos jogos de circo (editores ludorum) (ILS 5296; 5297).94 Porém com o avançar do Império,
em algumas das grandes cidades, a propriedade de uma factio pertenceu ao imperador, o que ocorria principalmente na Península Itálica, enquanto que na África e Hispânia os estábulos ainda permaneciam sob o domínio privado das grandes famílias proprietárias de haras e de
todo o staff organizacional.95 Provavelmente esses proprietários eram domini advindos dos
equites, em um primeiro momento, e parecem ter sido os empreendedores das facções até o
final do terceiro século, quando deram lugar aos aurigas seniores ou aposentados (factionarii) na condução dos negócios. Sendo assim, ser membro de uma facção foi, provavelmente, um sinal de riqueza e importância dentro de uma cidade (CAMERON, 1976, p. 10; LEONE,
2007a, p. 67).96 Esse tipo de gestão era corriqueiro para favorecer a criação de alianças
94 Mesmo no período imperial, foi bastante comum ver aristocratas exibindo os nomes de seus antepassados que remontavam aos corredores e condutores de carros (BRYK, 2012, p. 24). O melhor exemplo disso foi a existência de um ramo da família imperial de gens claudiana conhecida como Quadrigarius, remetendo ao veículo de quatro cavalos dos jogos circenses. Os membros mais ilustres dessa ramificação incluem todos os imperadores de Tibério a Nero (HARRIS, 1972, p. 185).
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Mesmo que não pertencentes diretamente ao imperador, as facções tinham uma série de compromissos com a pessoa imperial, principalmente no que concernia ao pagamento em espécie de taxas anuais pelo aprovisionamento e utilização dos equinos de acordo com o Codex Theodosianus (15, 10, 1-2). Para maiores detalhes, cf. Jiménez Sánchez (2001, p. 107).
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―É difícil entender por que o governo imperial tinha interesse em controlar as facções através do dominus [sic] de classificação anteriormente equestre; no entanto, tem sido sugerido que essa mudança deveu-se ao esforço concertado do governo imperial de separar aqueles de alta posição social, daqueles envolvidos na organização do entretenimento público. Alternativamente, esse fenômeno pode ter surgido a partir de uma confluência de fatores. O fator mais óbvio pode ter sido a riqueza de aurigas no período imperial. Em seguida [...], a fama que eles adquiriram, sem dúvida, trouxe a eles, prestígio adicional e mobilidade social‖ BRYK, 2012, p. 27 .
comuns entre as associações colegiadas ou sínodos entre os atletas circenses, gladiadores e pantomimas teatrais, que ganharam força especialmente no final do século quinto (CSAPO, 1995, p. 319; POTTER; MATTINGLY, 2001, p. 264-5; JIMÉNEZ SÁNCHEZ, 2001, p.
108).97
Pela sua riqueza e fama dentro da cidade, essas facções dispunham de espaços privados de sociabilidade para produção de atividades coletivas, se tornando verdadeiras ―[...] confrarias ou irmandades, instituição de solidariedade entre os membros que se exprimem, em particular, no momento dos funerais, e colegiados cujas manifestações mais espetaculares estavam no financiamento de jogos [...]‖ THÉBERT, 1991, p. 193 . Dessa maneira, a principal função dessas associações era a funerária, servindo para executar os ritos funerários dos seus membros, porém, não podem ser rejeitadas as oportunidades de reuniões e banquetes coletivos esporádicos para seus membros nos salões de recepção e nas áreas comuns que serviam para fins de locais de encontros. Elas poderiam ter força local ou até se tornarem populares por diferentes partes da província, captando poder e fama entre os entusiastas dos jogos (LEONNE, 2007a, p. 69-72; 283).
Os edifícios dessas associações, em Cartago e Hadrumeto, especificamente, são atestados tanto por escavações arqueológicas, como inscrições epigráficas (LEONE, 2007a, p. 68; SALOMONSON, 1960, p. 57-62; BESCHAOUNCH 1966, p. 134-157; 1977, p. 490-500; 1978, p. 32-36). Por exemplo, a célebre Mansão dos Cavalos (especialmente o complexo com colunata na Imagem 20), provavelmente do começo do século quarto, foi encontrada decorada com a inscrição ―Felix Populi Veneti‖, fazendo menção à equipe dos Azuis, que sabemos ser uma das duas maiores naquele contexto. Existem também outros mosaicos, datados da segunda metade do quarto século, com representações circenses na parte privada do edifício. Esses fatores levam a crer que ali era a sede (statio) e lugar de reunião (schola) dos partidários dos Azuis (CAMERON, 1976, p. 40; ROSSITER, 1990, p. 223-224;
Curiosamente, segundo Harris (1972, p. 185-186), logo após o reinado de Aureliano (270-275), um imperador de origem humilde, temos os dois primeiros domini, anteriormente aurigas. Ele atenta que mesmo que não se possa provar a intencionalidade disso, tanto os imperadores, quanto os aurigas desse período eram um produto de um ambiente social menos autocrático. Afinal, as facções do circo e os atores sociais envolvidos naquele contexto, principalmente na parte leste do império, eram produtos de uma variedade de fatores sociais, políticos e econômicos que mudavam constantemente e, em especial, no terceiro século estavam sendo repensados.
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Até o século quarto, as facções de circo eram totalmente separadas das facções dos jogos do anfiteatro, porém, em algum momento foram unidas e permaneceram desse modo até o período Bizantino (CAMERON, 1976, p. 193). Segundo Thébert (1991, p. 193), não se pode excluir que essa política colegiada entre essas instituições e facções também envolvesse os participantes dos espetáculos de teatro. ―Nós não temos nenhuma evidência conclusiva sobre em que época isso aconteceu. Sabemos que nos tempos de Teodorico I já tinha ocorrido à fusão. O máximo que podemos fazer é especular e assumir que tal evento ocorreu quase simultaneamente no Ocidente e no Oriente‖ JIMÉNEZ SÁNCHEZ, 2001, p. 108 .
TANTILLO, 2000, p. 124).98 Já como evidência epigráfica podemos citar um fragmento de
African red slip ware (ARS), ou seja, fragmentos de finos utensílios feitos de terra sigillata
(HAYES, 1972, p. 21), encontrado em Hadrumeto, com a inscrição em grego ―Pentasi nika‖, sendo os Pentasii uma coletividade famosa dentro da associação colegiada dos jogos de circo, com origem em Thysdrus, porém, de filiação desconhecida no que diz respeito às quatro facções (HERON DE VILLEFOSSE, 1915, p. clxxviii; LEONE, 2007a, p. 71).
Imagem 20 – Plano da área de Monuments à Colonnes (construções com colunatas ou peristilo) em Cartago,
após René Rebuffat, 1969 (LEONE, 2007a, p. 68).
98
A posição social desse edifício ainda está sendo disputada por diferentes interpretações. Interpretações iniciais pensavam que se tratava de um banho privado, porém, não foi encontrado nenhum sistema de aquecimento que comprovasse essa hipótese (DELATTRE, 1894, p. 299; NICOLET; BESCHAOUCH, 1991, p. 483-485). Segundo Picard (1964, p. 101-118), Squarciapino (1979, p. 278) e Leone (2007a, p. 68-69), de acordo com a análise dos mosaicos, esse edifício serviu para sede da equipe dos Azuis. Hugoniot (1996, p. 638) foi contra essa teoria também pela análise dos mosaicos, que, em sua opinião, por representarem outras facções que não somente os Azuis, não poderiam precisar quem realmente se reuniria ali. Porém, ―[...] a presença de inscrições referindo aos Azuis parece atestar uma conexão entre o edifício e a associação. Outras facções poderiam haver sido representadas, porque os mosaicos reproduziam cenas reais‖ LEONE, 2007a, p. 69 . Jiménez Sánchez (2001, p. 104-105) atenta que os argumentos contrários e favoráveis ainda necessitam de maior solidez.
A posse de uma sede para a associação foi fundamental para organizar todo o staff envolvido, pois uma facção tinha, além das funções básicas de criação de cavalos, a formação de aurigas e de todo o grupo profissional para os espetáculos, o que se apresentavam como tarefas dispendiosas, tanto em dinheiro como em trabalho, especialmente com aumento da demanda para esse tipo de espetáculo. A melhor evidência com mais detalhes concentrados sobre a estrutura organizacional das facções vem de uma inscrição (CIL 6, 2, 10046 = ILS 5313), encontrada em Roma, que data do período de Domiciano, ou seja, do final do primeiro século, concernente à distribuição de óleo. Essa inscrição foi absolutamente esclarecedora, pois nela podemos ter notícias também sobre a quantidade de membros empregados nessas facções, onde ―sob as ordens do factionarius se encontravam os decuriões, no número de 24 ou 25 [...], o que nos permite ver quantos eram os funcionários profissionais de tal empresa. Depois destes, encontramos um maior número de escravos sob suas ordens, para qual o número da equipe subiria até 240/250 membros‖ JIMÉNEZ SÁNCHEZ, 2001, p. 105 .
Essa inscrição faz também menção ao complexo conjunto de profissionais que a factio comportava, de acordo com as funções necessárias para a realização dos jogos. Entre elas se incluíam os próprios condutores de carros (auriga ou agitator), os tratadores de cavalos e adestradores (doctores e magistri), os veterinários (medici), os especialistas em reparação técnica (sarcinatores), os proprietários de um estabelecimento de selaria (sellarii), os guardas dos blocos e gerentes das provisões das cavalarias (conditores), os cavalariços (succonditores), os preparadores responsáveis pela água para diminuir o calor provocado pelo atrito dos eixos das carroças e por aliviar o calor dos cavalos e por aspergir água sobre os animais enquanto corriam (sparsiores ou spartores), os ferreiros (sutores), bem como os intendentes (uilici) empregados pelas facções de circo, os iubilatores ou hortatores, que ainda não têm função muito bem definida, mas que parecem ser como guias e incentivadores de sua
factio, que seguiam os carros, a pé ou em outros cavalos, alardeando a fama dos aurigas e das
facções (ADAM, 1830, p. 313; BALSDON, 1969, p. 315; AUGUET, 1996, p. 126-127; POTTER; MATTINGLY, 2001, p. 293; JUNKELMANN, 2000, p. 98-9; JIMÉNEZ
SÁNCHEZ, 2001, p. 105-6; NARDO, 2002, p. 190; MACLEAN, 2014, p. 580 e ss.).99 Havia
99 ―Uma variedade de trabalhadores de outros tipos também fizeram parte do pessoal de apoio dos jogos romanos. Escravos e libertos atendentes (ministri ou harenarii) foram encarregados de tarefas sem glamour como porte de armas, abastecimento de água ou ajudar um atleta ferido para fora da arena. Unctores (massagistas) administravam massagens terapêuticas (ILS 5084) e as escravas chamadas ludiae são atestadas nas fontes literárias como o fornecimento de companheirismo para os gladiadores (Marc., Ep., 5.24.10; Juv., Sat., 6.104, 266; DUNKLE, 2008, p. 44). Embora essas mulheres provavelmente também tenham exercido funções domésticas, os senhores romanos viam as relações sexuais entre os escravos como um mecanismo eficaz de controle social (BRADLEY, 1987, p. 50-1). Construtores erigiam prédios de armazenamento temporário e
ainda os comissários, que ficavam posicionados dentro dos portões de partida, no início dos