11. SPECIAL CONSIDERATIONS
11.4. Consideration of the interface between security and safety
A falta da escuta da voz/som materna poderá propiciar um não afastamento do corpo da criança e da mãe, e o olhar e demais sentidos marcarão uma dualidade, para que seja possível uma identificação especular. Ainda no início, a criança com surdez poderá encontrar dificuldades em perceber a permanência dos objetos e da figura materna, experimentando sentimentos de abandono quando a mãe se ausenta de seu campo visual. O tato torna-se
fundamental no desenvolvimento da unidade do ser para que a criança perceba os limites de seu corpo (Solé, 2005).
O sujeito que possui a capacidade de audição da voz/som da figura materna é, desde sua chegada ao mundo, submerso em sons e em uma sonoridade que lhe embala e invade mesmo que não permita, pois os ouvidos não se fecham. Contudo, somente os sons puros não garantem que o infans será tomado como objeto de desejo do Outro. Faz-se necessário que o Outro carregue a mensagem de desejo e tente decifrar as demandas do bebê, antecipando qualquer capacidade real de compreensão do código linguístico. Pensando no sujeito com surdez, o momento de sua chegada ao mundo simbólico é mudo, no que diz respeito aos sons. Assim, o olhar parece assumir o lugar de reconhecimento do sujeito em articulação com o objeto voz, mostrando que este deve encontrar outros caminhos para o bordejamento de seu vazio.
Costa (2010) esclarece que, para Freud, a criança possui um corpo pulsional e uma sexualidade pré-genital, com características autoeróticas. Apesar de haver zonas vitais para estimulação, como a boca, todo o corpo da criança pode se comportar dentro da zona erógena. A satisfação do prazer atingida pela criança não corresponderá à satisfação plena e esta distância marcará a busca pelo objeto de desejo no intuito de suprir o que falta.
Para Solé (2005), existe uma diferença entre audição e escuta da voz materna. A audição possibilita ao sujeito o acesso aos sons e a escuta aparece ligada a um significante. Há um desejo da mãe em relação ao filho que marca o corpo da criança, de modo que pode-se falar da possibilidade da criança surda escutar a voz materna. Diz ainda que, na criança ouvinte, o ouvido se constitui em uma zona erógena, na qual pode sentir-se prazer ou desprazer no encontro com a estimulação da voz. Esta zona erógena, em conjunto com as demais, contribuirá para a unificação do sujeito. Na criança com surdez congênita, não há a
estimulação do ouvido e sendo assim, este não se torna uma zona erógena e o sujeito encontrará outros caminhos em sua constituição por meio dos outros sentidos.
Cabe ressaltar que o registro erótico nem sempre irá coincidir com o órgão do sentido no corpo. Um exemplo é um fumante que possui registro de caráter anal e não oral, associando o cigarro ao odor de fezes. E também ao considerar os surdos, pode-se entender a pulsão invocante relacionada ao sinalizar das mãos e não no registro oral.
O ouvido é uma zona erógena que nunca se fecha e, pensando na criança ouvinte, não há como se desviar dos sons. Assim, a audição possui um importante papel na unificação dos demais sentidos e sua sincronia. Quando há uma perda auditiva abrupta após um período breve de escuta, a criança pode experimentar uma desintegração de sua imagem corporal. Mesmo a criança com surdez profunda poderá ser capaz sentir sons fortes, como buzinas, máquinas utilizadas na construção civil e aviões, os quais produzem uma forte vibração. Tais vibrações invadirão o psíquico de modo a causar um desprazer, uma invasão difícil de simbolizar, tornando-se um som assustador. Desse modo, o ouvido pode se tornar algo a ser eliminado, o que virá a causar dificuldades na aceitação de próteses auditivas, pois não há um investimento pelo sujeito nesta zona (Solé, 2005). Tal desprazer aponta que o surdo estabelecerá uma relação com o ouvido e com o ouvir, não no que diz respeito ao acústico, mas o lugar que o significante ouvir assumirá na relação com o Outro.
Solé (2005) aponta que para alguns psicanalistas a formação subjetiva está associada à audição da palavra para que haja a passagem para o campo simbólico. Destaca que, para os surdos, o que é da ordem do visual possui um importante papel nesse processo e quando a criança não é inserida em uma língua de forma precoce pode haver prejuízo na articulação simbólica.
Acredito que a ausência de uma língua abrange não apenas a inexistência de um código linguístico na relação, mas, também, a língua enquanto transmissora do desejo. Se o
Outro se coloca como incapaz de simbolizar as reações do infans, dando-lhes sentidos e enlaçando a criança, todo o resto, como a transmissão da herança familiar, da cultura e de um nome, ficará prejudicado.
Para Solé (2005), a surdez estará intimamente ligada a conflitos quanto à sua origem e possível depósito da culpa nos pais, além de fantasias pela criança surda de sua filiação. Freud escreveu sobre os romances familiares, apontando o momento inicial do infans em sua relação com os pais, sendo estes admirados e com qualidades que o filho deseja alcançar. Ao circular em outros ambientes sociais, a criança passa a comparar seus pais a outros adultos e assim coloca em dúvida as virtudes insuperáveis que até então lhes atribuía (Freud, 1909/1996). Sobre isto aponta que,
O estádio seguinte no desenvolvimento do afastamento do neurótico de seus pais, que assim teve início, pode ser descrito como o ‘romance familiar do neurótico’, sendo raramente lembrado conscientemente, mas podendo quase sempre ser revelado pela psicanálise, já que uma atividade imaginativa estranhamente acentuada é uma das características essenciais dos neuróticos e também de todas as pessoas relativamente bem dotadas. Essa atividade emerge inicialmente no brincar das crianças e depois, mais ou menos a partir do período anterior à puberdade, passa a ocupar-se das relações familiares. Um exemplo característico dessa atividade imaginativa está nos devaneios que se prolongam até muito depois da puberdade. Se examinarmos com cuidado esses devaneios, descobriremos que constituem uma realização de desejos e uma retificação da vida real (Freud, 1909/1996, p.1-2).
Ao considerar a criança com surdez algumas fantasias podem ser concretizadas, exemplo é a busca na comunidade surda por um nome diferente do que foi dado pelo pai. Cada sujeito com surdez ganha um sinal de seus pares que lhe nomeia e passa a ser seu nome e o que lhe identifica (Solé, 2005).
Tais impasses que surgem na relação parental com um filho surdo podem ter suas origens em um sofrimento narcísico dos pais ao estar diante da surdez e à experiência de falta e fragmentação que dela decorrem. Poizat (1996) citado em Solé (2005) aponta que o que ocorre é uma falência do Outro, enquanto representante da ordem simbólica. Há um desfalecimento do Outro pela ausência da escuta.