Diversamente do defendido pela teoria da responsabilidade subjetiva dos notários e registradores, a doutrina da responsabilidade objetiva argumenta que não se faz necessária a demonstração de dolo ou culpa para a sua responsabilização, mas somente do nexo de causalidade existente entre o ato e o dano.
Os autores que a defendem argumentam que o já citado artigo 22 da Lei nº 8.935/1.994 – que regulamentou o artigo 236, § 1º, da Constituição da República – estabelece a responsabilidade objetiva dos notários e registradores, sendo assegurado seu direito de regresso nos casos de dolo ou culpa dos prepostos.
Nesse sentido, a lição de Luiz Guilherme Loureiro:
A nosso ver, a responsabilidade do registrador é objetiva, diante do exposto no art. 22 da Lei 8.935/1994. A norma é clara ao dispor que este profissional do direito responderá pelos danos que eles e seus prepostos causarem a terceiros, na prática de atos próprios da serventia, sem estabelecer a necessidade de conduta culposa ou dolosa. A regra somente exige o elemento subjetivo do preposto, para que o titular da serventia possa exercer o direito de regresso contra este, caso venha a ser
condenado a indenizar o usuário do serviço público. Logo, para caracterizar a responsabilidade civil do registrador bastam o resultado lesivo e o nexo causal entre o dano e a conduta do agente.60
Adotando esse posicionamento, os seguintes arestos do Supremo Tribunal Federal e do Superior Tribunal de Justiça:
RESPONSABILIDADE OBJETIVA - ESTADO - RECONHECIMENTO DE FIRMA - CARTÓRIO OFICIALIZADO. Responde o Estado pelos danos causados em razão de reconhecimento de firma considerada assinatura falsa. Em se tratando de atividade cartorária exercida à luz do artigo 236 da Constituição Federal, a responsabilidade objetiva é do notário, no que assume posição semelhante à das pessoas jurídicas de direito privado prestadoras de serviços públicos - § 6º do artigo
37 também da Carta da República.61
ADMINISTRATIVO. DANOS MATERIAIS CAUSADOS POR TITULAR DE
SERVENTIA EXTRAJUDICIAL. ATIVIDADE DELEGADA.
RESPONSABILIDADE SUBSIDIÁRIA DO ESTADO. 1. Hipótese em que o Tribunal de origem julgou procedente o pedido deduzido em Ação Ordinária movida contra o Estado do Amazonas, condenando-o a pagar indenização por danos imputados ao titular de serventia. 2. No caso de delegação da atividade estatal (art. 236, § 1º, da Constituição), seu desenvolvimento deve se dar por conta e risco do delegatário, nos moldes do regime das concessões e permissões de serviço público. 3. O art. 22 da Lei 8.935/1994 é claro ao estabelecer a responsabilidade dos notários e oficiais de registro por danos causados a terceiros, não permitindo a interpretação de que deve responder solidariamente o ente estatal. 4. Tanto por se tratar de serviço delegado, como pela norma legal em comento, não há como imputar eventual responsabilidade pelos serviços notariais e registrais diretamente ao Estado. Ainda que objetiva a responsabilidade da Administração, esta somente responde de forma subsidiária ao delegatário, sendo evidente a carência de ação por ilegitimidade passiva ad causam. 5. Em caso de atividade notarial e de registro exercida por delegação, tal como na hipótese, a responsabilidade objetiva por danos é do notário, diferentemente do que ocorre quando se tratar de cartório ainda oficializado. Precedente do STF. 6. Recurso Especial provido.62
Apesar de o artigo 22 da Lei nº 8.935/1.994 não estabelecer, de forma expressa, que a responsabilidade dos notários e registradores seja objetiva, Yussef Sahid Cahali defende a adoção do mesmo critério interpretativo utilizado ao se fazer a exegese do artigo 37, § 6º, da Constituição Federal, pois este também não determina expressamente a responsabilidade objetiva das pessoas jurídicas de direito público e das de direito privado. Veja-se:
60 LOUREIRO, Luiz Guilherme. Registros Públicos: Teoria e Prática. Rio de Janeiro: Forense; São Paulo: Método, 2011, p. 9.
61 BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Segunda Turma. Recurso Extraordinário nº 201.595 – SP. Relator: Ministro Marco Aurélio. Recorrente: Estado de São Paulo. Advogado: Geraldo Horikawa. Recorrido: Paulo Moreno. Advogados: Glória Maria Lotito Arabicano e outros. DJ 20.04.2001, p. 138.
62 BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Segunda Turma. Recurso Especial nº 1.087.862 – AM. Relator: Ministro Herman Benjamin. Recorrente: Estado do Amazonas. Procuradores: Victor Fabian Soares Cipriano e outro(s). recorrido: Condomínio Empire Center. Advogado: Erasmo Lino Alfaia. DJe 19.05.2010.
Em resumo: na linha do princípio inovador inserto no artigo 37, parágrafo 6, da Constituição e da legislação ordinária ajustada aos seus enunciados, a responsabilidade civil dos notários e oficiais de registro define-se como sendo igualmente objetiva, a prescindir de que qualquer perquirição a respeito do elemento subjetivo do dolo ou culpa sua ou de seus prepostos, bastando para o seu reconhecimento a demonstração do nexo de causalidade entre o ato (ou omissão) cartorário e o dano sofrido pelo particular.
Portanto – a símile da parte final do artigo 37, parágrafo 6 da Carta Magna – o dolo ou culpa dos prepostos passam a interessar apenas para o efeito de assegurar aos notários e oficiais de registro direito de regresso contra o causador direto do dano ilícito.63
Por considerarem que a atividade exercida pelos notários e registradores apresenta risco para os direitos de outrem, alguns autores argumentam, ainda, a possibilidade de aplicação subsidiária do § único do artigo 927 do Código Civil de 2.002, verbis:
Artigo 927, § único – Haverá obrigação de reparar o dano, independentemente de culpa, nos casos especificados em lei, ou quando a atividade normalmente desenvolvida pelo autor do dano implicar, por sua natureza, risco para os direitos de outrem.
Conforme Hércules Alexandre da Costa Benício, apud Nicolau Balbino Filho, outro fundamento a ser utilizado para defender esse entendimento é a ausência de relação hierárquica entre o serventuário e o Poder Público, visto que esses agentes públicos somente se submetem à fiscalização – exercida pelo Poder Judiciário (art. 236, § 1º, CF/88). Afirma, ainda, que os notários e registradores, assim como os concessionários e os permissionários, prestam serviços públicos, devendo ser tratados, portanto, da mesma forma, ou seja, sem esquivar-se da responsabilização direta.64
Desse modo, segundo a doutrina da responsabilidade objetiva, a parte que se considerar prejudicada pela prática de um ato próprio da serventia, deverá propor a respectiva ação diretamente contra o serventuário, independentemente de culpa deste, respondendo o Estado somente de forma subsidiária, como nos casos em que o patrimônio do notário ou do registrador for insuficiente para o pagamento da indenização.
63 CAHALI, Yussef Said. Responsabilidade Civil do Estado. 3 ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2007, p.
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