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Olhar os espaços hoje através de ferramentas de Internet que possibilitam explorar ruas de cidades proporciona uma ligeira noção do que era a curiosidade do homem do século XIX, que se comprazia em vagar horas e horas pelas ruas, buscando flagrar as peculiaridades da vida pública moderna. Na literatura, essa atitude aparece em muitos textos realistas como forma de mostrar a rotina das metrópoles, constituindo um tema caro à corrente. Pela pena de Baudelaire, a figura do flâneur, aquele que sai a esmo, deixando-se levar pelos atrativos das ruas e avenidas, é apresentada como apêndice da modernidade, ou antes, como uma visão alternativa de suas urgências. Esse indivíduo imerso e perdido no burburinho dos grandes centros urbanos possui reações contraditórias em relação ao meio em que vive, o amor e o ódio confundem-se nele, resultando em um complexo sentimento de dependência e de repulsa aos objetos que encontra.

159 Narrar essas experiências foi, muitas vezes, o motivo principal dos trabalhos de Machado de Assis. Figurativizar ruas, bairros, prédios de uma cidade como o Rio de Janeiro, é também uma estratégia narrativa na ficção que surge dos embates que o homem do século XIX trava com as transformações adquiridas com a industrialização e com o desenvolvimento. Narrar as nuances dessa experiência foi, em muitas ocasiões, tema de destaque em contos e romances de Machado de Assis; tendo, esse recurso, em outros momentos, aparecido como elemento secundário. Apresentar, nesses casos, as ruas, logradouros específicos, construções típicas, principalmente, do Rio de Janeiro, é um elemento de destaque na construção ficcional desse escritor, o que também, em certo sentido, já se configura como uma tradição no romance realizado no Brasil até então. Nesse processo, o papel do narrador é fundamental para a figuração de lugares, pois é, por meio de seus posicionamentos, de suas impressões e de suas escolhas que as referências históricas e culturais muitas vezes se destacam na descrição, conduzindo o leitor a uma apreciação mais aprofundada do ambiente.

O Rio de Janeiro é uma personagem fixa na obra de Machado de Assis; desde os primeiros escritos, elaborados ainda sob o influxo romântico, suas paisagens, bairros, ruas e logradouros diversos aparecem nas narrativas como elemento fundamental para a composição das personagens. Seja pela mera referência espacial ou pela simbologia, a cidade participa da diegese machadiana sempre com algum propósito maior do que a ambientação geográfica. Muitos desses propósitos já foram revelados, e muitos outros ainda estão por se revelar.

O Rio, ou os Rios, de Machado é também uma cidade que se racionaliza, no sentido dado ao termo por Certeau (1990). Não é mais possível no início do século XX, observá-lo sem considerar os riscos dos projetos urbanísticos subordinados aos interesses políticos da República. É nesse sentido que Machado despede-se do Morro do Castelo, mostrando ao leitor, pelos olhos de Natividade e da irmã Perpétua, de Esaú e Jacó, as peculiaridades físicas e humanas do lugar. Com efeito, Machado revela não apenas as características espaciais do local que deu origem à cidade, mas a sua aparência dinâmica, pela cantiga do pai da Cabocla, pelos comentários dos transeuntes, pelo quadro vivaz que figura para o leitor de existências prosaicas e muito reais do lugar que se revela enquanto Natividade e a irmã caminham:

A mesma lentidão do andar, comparada à rapidez das outras pessoas, fazia desconfiar que era a primeira vez que ali iam. Uma crioula perguntou a um sargento: "Você quer ver que elas vão à cabocla?" E ambos pararam a distância, tomados daquele invencível desejo de

160 conhecer a vida alheia, que é muita vez toda a necessidade humana. (ASSIS, 1962, p. 945).

O contraste entre Botafogo e o morro é marcado na narração pela descrição do lugar. Estratégia incomum nos romances de Machado, essa caracterização do ambiente e das cenas que o complementam preparam o leitor para uma mudança de perspectiva do narrador que objetiva inserir na estória o tom de mistério e de incerteza que envolve as predições da cabocla sobre os gêmeos e sobre sua função no enredo.

A declaração “Muita gente há no Rio de Janeiro que nunca lá foi, muita haverá morrido, muita mais nascerá e morrerá sem lá pôr os pés” (ASSIS, 1962a, p. 945) parece aludir também ao provável desaparecimento do lugar, o que de fato aconteceu dezesseis anos depois da publicação de Esaú e Jacó. O morro, cujo simbolismo memoriográfico é inegável, foi arrasado na década de 1920 com o objetivo de planificação da cidade. Já nos últimos anos do Império, cogitava-se a ideia, que nunca era levada a termo devido à sua magnitude. Ao vir abaixo, o Castelo abrigava parte da população marginalizada, o que possivelmente já acontecia na época de Machado. Figura 13 - Morro do Castelo

Fonte: GUTIERREZ...1894 c..

Quando Machado publicou seus dois últimos romances, na primeira década do século XX, o Rio de Janeiro vinha sofrendo uma série de intervenções urbanas que tinham como objetivo sua modernização. E é justamente a impressão de transitoriedade

161 do espaço urbano, de que fala Certeau, que vemos em muitas passagens de Esaú e Jacó e de Memorial de Aires.

A organização funcionalista, privilegiando o progresso (o tempo), faz esquecer a sua condição de possibilidade, o próprio espaço, que passa a ser o não-pensado de uma tecnologia científica e política. Assim funciona a Cidade-conceito, lugar de transformações e apropriações, objeto de intervenções, mas sujeito sem cessar enriquecido com novos atributos: ela é ao mesmo tempo a maquinaria e o herói da modernidade (CERTEAU, 1990, p. 174).

Essa visão de Certeau reproduz, em certa medida, as impressões de Baudelaire sobre os fenômenos urbanos e sua atuação sobre a vida dos indivíduos. As transformações de que foi alvo a Paris do século XIX, a partir dos tais projetos urbanísticos, também com o objetivo de modernização da cidade, provocaram grandes impactos na vida de seus moradores, exigindo expressões que possibilitassem a comunicação desses efeitos, fosse pela moda, pelo posicionamento crítico na cidade, ou pela arte. A figura do flâneur é sempre associada ao ato de andar ao acaso na medida em que essa ação permite uma observação consciente da metrópole, atitude que expressa também uma resistência à velocidade e à pressa que impedem a contemplação. Sem compromisso, o caminhante detém-se nos lugares, deixando-se seduzir pelos atrativos de cada um deles em meio ao sentimento de transitoriedade.

Assim ele vai, corre, procura. O quê? Certamente esse homem, tal como o descrevi, esse solitário dotado de uma imaginação ativa, sempre viajando através do grande deserto de homens, tem um objetivo mais elevado do que o de um simples flâneur, um objetivo mais geral, diverso do prazer efêmero da circunstância. Ele busca esse algo, ao qual se permitirá chamar de Modernidade; pois não me ocorre melhor palavra para exprimir a idéia em questão. Trata-se, para ele, de tirar da moda o que esta pode conter de poético no histórico, de extrair o eterno do transitório. Se lançarmos um olhar a nossas exposições de quadros modernos, ficaremos espantados com a tendência geral dos artistas para vestirem todas as personagens com indumentária antiga (BAUDELAIRE, 1996, p. 24).

A modernidade, enquanto chave de compreensão para o sentimento que medeia a captação do objeto artístico, é o sentimento que insurge dessa conduta: “é o transitório, o efêmero, o contingente, é a metade da arte, sendo a outra metade o eterno e o imutável” (BAUDELAIRE, 1996, p. 24). Assim percebida, essa atitude orienta a percepção dos fenômenos urbanos e exige a sua aceitação, mesmo que aparentemente se afastem da arte.

As representações simbólicas dos espaços citadinos presentes na obra de Charles Baudelaire permitem a valorização estética do elemento moderno mais proeminente: o

162 espaço público. O observador de Baudelaire e sua visão aprofundada das coisas, como assevera Joseph Frank (1991), dão-lhe um valor atual, ou acentuam o seu valor de tempo. O tempo aparece nessa concepção como um elemento intrínseco à categoria de espaço, pois ele permite a união com o verdadeiro mundo no qual os eventos ocorrem; e desde que o tempo é a mesma condição daquele fluxo e desta mudança, como vimos, o homem quer evitar uma condição do desequilíbrio com a natureza, os estilos não- naturalistas evitam a dimensão da profundidade e preferem o raso (FRANK, 1991, p.650).

Não é só o ato contemplativo que justifica essa atitude. Na compreensão de Certeau, o sistema geográfico possui a peculiaridade de “metamorfosear o agir em legibilidade” (CERTEAU, 1990, p. 176). Seguindo esse direcionamento, o fato de estar na cidade, e de se deixar envolver por ela por meio de uma influência mútua, implica em desmotivações para a realização do percurso. Assim, andar sem destino certo, perambular, distrair-se pela observação casual dos lugares, das pessoas, das edificações, enfim, de tudo que constitui o organismo urbano, implicaria um ato enunciativo. Caminhar pela cidade, segundo Certeau, guarda uma proximidade com a escrita. Nessa analogia, vagar, assim como verbalizar, é recompor o passado.

O ato de caminhar está para o sistema urbano como a enunciação (o speech act) está para a língua ou para os enunciados proferidos. Vendo as coisas no nível mais elevado, ele tem com efeito uma tríplice função “enunciativa”: é um processo de apropriação do sistema topográfico pelo pedestre (assim como o locutor se apropria e assume a língua); é uma realização espacial do lugar (assim como o ato da palavra é uma realização sonora da língua); enfim, implica relações entre posições diferenciadas, ou seja, “contratos” pragmáticos sob a forma de movimentos (assim como a enunciação verbal é “alocução”, “coloca o outro em face” do locutor e põe em jogo contratos entre colocutores). O ato de caminhar parece portanto encontrar uma primeira definição como espaço de enunciação (CERTEAU, 1990, p. 177).

Essa forma ampla de concepção da escrita permite entender um fenômeno importante no processo mimético: a representação se dá pela ressignificação do espaço, pela sua transformação em linguagem. Assim como na construção dos enunciados linguísticos, o enunciado urbano constitui-se através das escolhas, das exclusões do enunciador. A diferença fundamental é que o usuário da cidade emprega o espaço como significante, ao passo que o enunciado linguístico usa a palavra, o verbo.

A referência às ruas, às construções, atua aí como um mediador entre realidade e ficção, conferindo ao relato um aspecto de “verdade” bastante interessante ao realismo.

163 A familiarização com tais indicações é um dos princípios para que o processo de construção da diegese se complete. No realismo essa técnica pretende usar elementos conhecidos, pertencentes a um universo compartilhado sócio-culturalmente para que o efeito de real seja mais intenso. Mas ela é ainda uma ilusão da verdade. Desse artifício resultam as alusões, vistas em várias obras de Machado, a logradouros específicos do Rio de Janeiro e seu entrelaçamento à trajetória das personagens.

Nos romances e nos contos de Machado, flagramos essa atitude errante. Se o hábito de caminhar pelas ruas da cidade deu ao escritor os temas e as personagens que aparecerão em sua obra, essas mesmas ruas são cúmplices de adultérios, de encontros e de desencontros amorosos, de perseguições, de implicações casuais, de armadilhas financeiras, de atropelamentos; assistiram personagens dormindo ao relento, a queda de imperadores, a ascensão de presidentes e a insurgências populares da mais diversa ordem.

E se a crítica póstuma, representada principalmente por Hemetério José dos Santos36, que, logo após o desaparecimento do escritor, como lembra Brito Broca (1992), levantou suspeitas sobre os meios usados por Machado para representar a sociedade carioca e tentou negar-lhe o título de cronista do Rio, é porque talvez não tenha entendido a dinâmica da palavra em Machado. Longe de localista, sua prosa não se circunscreve à cidade, mas a toma como a possibilidade de representação do mundo. Da mesma forma, suas personagens são, a um só tempo, cariocas e tipos universais, uma vez que sua estratégia narrativa vai agregando à representação valores psicológicos da experiência humana. É a desprovincianização do Rio de Janeiro que Roberto Schwarz (2000) observa a partir da leitura de Memórias póstumas de Brás Cubas.