• Aucun résultat trouvé

_ The Conference may limit the time allows! to each sneaker and the number of times each representative may speak on any question,, except on procedural

Um aspecto que diferencia a obra de Orwell da de Collins, no entanto, é a revolução, seu desenvolvimento e desfecho, além da maneira como os protagonistas se colocam diante dela. Em 1984, Winston busca a revolução. É iniciativa dele procurar o grupo rebelde com a intenção ativa de derrubar o governo e estabelecer uma sociedade melhor. No entanto, sua tentativa de revolução acaba sendo uma farsa visto que seu mentor era parte do governo e acaba prendendo-o e torturando-o.

Katniss, em contrapartida, nunca teve a intenção de participar de uma revolução. Apesar de ter consciência dos erros cometidos pelo governo e de não concordar com sua política, a única ambição de Katniss é sobreviver para cuidar de sua família. Apesar disso, ela se vê jogada no meio da revolução, sendo considerada um símbolo e uma líder. Além disso, a rebelião da qual Katniss participa é aparentemente legítima e vitoriosa.

Ao comparar os desfechos das duas obras, é importante observar que distopias são fortemente influenciadas pela sociedade que as produzem. Tais romances funcionam como um alerta para humanidade, ressaltando os perigos que certos comportamentos nocivos representam para o ser humano e para o mundo. Assim, cada obra distópica funciona com um espelho da sociedade na qual o autor se encontra.

1984 foi escrito em 1949, durante o período da Guerra Fria e bem depois do fim da

Segunda Guerra Mundial (1939-1945). O muro de Berlim ainda estava de pé, o fantasma da Terceira Guerra Mundial parecia rondar cada vez mais próximo e a luta entre as ideologias capitalista e socialista crescia acirrada. Além disso, o mundo presenciara direta ou indiretamente, havia pouco tempo, um governo totalitário que chegava à beira do limite. Os horrores do nazismo e do fascismo ainda assombravam a população, e o medo de que pudessem retomar o controle ainda estava no ar. Assim, 1984 apresenta o totalitarismo levado ao extremo e todos os resquícios de liberdade retirados. Seu desfecho reflete, portanto, a falta de esperança e o pessimismo, que tomavam conta do cenário mundial, uma vez que chegando àquele ponto, não haveria maneira de voltar.

Jogos Vorazes, no entanto, é uma obra contemporânea. O mundo ocidental vive

diariamente nas telas das nossas TVs, parecem distantes. Mas essa aparência, não é real. Collins utiliza os reality shows, programas que se tornaram extremamente populares e que são compartilhados atualmente por grande número de espectadores, e para mostrar quantos absurdos acontecem sob nossos olhos de forma disfarçada e manipulada pela mídia.

É visível que Jogos Vorazes, assim como 1984, utiliza os aspectos mais perigosos da sociedade para lançar seu alerta.

Jogos Vorazes, em termos contextuais mais amplos, expõe os medos da sociedade norte-americana em relação a uma série de eventos e condições que tem marcado o país na última década. O atentado às Torres Gêmeas, em 2001, e a crise do mercado imobiliário que se refletiu em toda a economia, em 2008, são eventos marcantes de uma nação que tem visto seu poderio global ser enfrentado e as diferenças sociais internas, através da concentração de renda, se radicalizado. Collins, a partir disso, expressa os seguintes medos: divisão radical entre grupos sociais; precariedade e escassez para a maioria da população a fim de manter um grupo bem abastecido; fim do controle sobre o próprio destino e perda de esperança; ausência de mobilidade social; uso da mídia como forma de opressão, ameaça e entretenimento vulgar; sistema produtivo baseado na exploração humana; vida fútil e autocentrada (Capital) versus vida ameaçada (Distritos). (NEUMANN, SILVA, KOPP, 2013)

Nesse sentido, Jogos Vorazes, assim como o romance de Orwell e outras distopias, funciona como um alerta para a sociedade. Os medos mais comuns da população estão ali de forma exagerada e com graves consequências. No entanto, seu desfecho a faz diferir de suas antecessoras, visto que a revolução é, até certo ponto, bem sucedida. O Presidente Snow foi derrubado, os Jogos acabaram.

O tom esperançoso do fim de Jogos Vorazes faz com que a obra se diferencie das distopias literárias produzidas nos séculos anteriores e talvez a razão para isso esteja também no contexto social em que foi produzida. Há que se considerar que, apesar de ainda haver uma mídia de certa forma unilateral e controladora na nossa contemporaneidade, esse contexto é mais flexível que nunca. A presença das mídias sociais, tais como Facebook, Twitter, Instagram e outros, dá à população uma nova autonomia, expandindo sua capacidade crítica. A juventude em especial tem a oportunidade inédita de ser ouvida ao redor do mundo. A mídia convencional ainda existe

com força inegável, mas em nenhum outro momento da história a mídia alternativa teve tanto espaço. Blogs, vlogs, dentre outros meios, têm um poder de divulgação muito superior à mídia impressa, que era a única forma que rebeldes tinham para espalhar sua mensagem no tempo de Orwell.

Assim, Katniss Everdeen representaria essa juventude que tem acesso e controle de uma parte da mídia. Desde o momento em que se voluntaria para substituir a irmã, ainda que inconscientemente, ela utiliza a mídia a seu favor. Um veículo que antes era apenas forma de opressão e manipulação transforma-se em objeto da revolução. É através da mídia que os aliados de Katniss conseguem patrocinadores para ajudá-la durante os jogos; é utilizando a mídia que Katniss populariza os elementos, tais como a imagem do pássaro tordo, que se tornam símbolos da revolução associados a ela.

Em Jogos Vorazes Collins faz mais que dar um alerta; ela apresenta uma saída. É importante observar que a trilogia foi publicada no gênero young adults, ou jovens adultos, tendo como público alvo crianças e adolescentes, que são também os usuários mais ativos das redes sociais. Collins indica ao público ao qual a produção se direciona, primariamente, a arma poderosa que eles têm nas mãos.