O estudo das representações sociais dos alunos adultos acerca do ensino da Filosofia no Ensino Secundário Recorrente por Módulos Capitalizáveis é o assunto da investigação que nos propomos desenvolver.
O Ensino Recorrente é entendido como uma segunda oportunidade de aprendizagem dirigida a todos os que não tiveram acesso ou não foram bem sucedidos numa primeira experiência de ensino, e conduz à obtenção de diplomas equivalentes aos do Ensino Regular. O Ensino Recorrente de adultos compreende a alfabetização, o ensino básico (2º e 3º ciclos) e o ensino secundário.
Os adultos que procuram o Ensino Secundário Recorrente visam alcançar uma de duas metas: ou terminar o 12º ano com o intuito de melhorar a sua situação profissional ou concluir o 12º ano para se candidatarem à universidade. O primeiro grupo é fundamentalmente constituído por adultos que abandonaram a escola há algum tempo (alguns não estudam há vários anos), e que, a par da razão apresentada, retornam à escola por razões pessoais, como sejam a necessidade de conhecer e de contactar com
pessoas22, a vontade de ampliar conhecimentos e de desenvolver competências. Do segundo grupo fazem parte, nomeadamente, alunos jovens-adultos que abandonaram recentemente a escola no final da escolaridade básica ou no início do ensino secundário e ainda alunos com experiência de insucesso no Ensino Regular. Nesta linha de pensamento, Rogers diz-nos que existem duas razões opostas subjacentes ao retorno dos adultos à escola: “(...) aqueles que voltam para fazer uma aprendizagem relacionada
com o seu modelo de vida actual, e aqueles que voltam por razões pessoais e sociais (...). No meio há aqueles que voltam para aprender sobre um assunto (...) não directamente relacionado com a solução de um problema imediato” (1996: 66).
O Ensino Secundário Recorrente por Módulos Capitalizáveslegislado pela Portaria nº 550-E/2004 de 21 de Maio e que entrou em vigor no ano lectivo 2004/05 no 10º ano, nas escolas secundárias públicas do nosso país, enquadra o Ensino Recorrente de nível secundário como uma vertente de Educação de Adultos em contexto escolar, constituindo uma resposta de formação para aqueles que dela não usufruíram em idade própria ou que não a completaram23. Neste regime de ensino os alunos são confrontados
com um plano de estudos, carga horária e certificação idênticas às dos alunos do Ensino Regular. São previstas algumas diferenças no que respeita à avaliação24. Os módulos de aprendizagem são independentes correspondendo cada um deles a um período lectivo; caso o aluno não obtenha aprovação num dos módulos poderá frequentar o módulo seguinte tentando capitalizar o anterior em época de exame.
A Filosofia é uma das disciplinas obrigatórias, que integra a formação geral desse plano de estudos, para os alunos do 10º e 11º anos de escolaridade. É uma área
22 Na perspectiva de Rogers (1996) muitos adultos não retornam à escola com intenção de aprender mas
por necessidade de contacto social, para sair de casa ou agradar a outra pessoa. Alguns estudos apontam para uma forte correlação entre problemas no casamento e algumas formas de Educação de Adultos.
23 Portaria nº 550-E/2004 de 21 de Maio, p. 50.
24 No subcapítulo seguinte apresentaremos o modelo avaliativo deste sistema de ensino.
reconhecida como um campo privilegiado para o desenvolvimento da autonomia, da responsabilidade social, da capacidade argumentativa, do pensamento crítico e reflexivo. Estas competências são indispensáveis numa sociedade que não se contenta com rebanhos clamando antes pelo ‘aprender a aprender’. Freitas diz-nos que:
“(...) face a uma sociedade e a um mundo do trabalho em constante e acelerada mutação, exigindo polivalência e capacidade de adaptação, o que é necessário é evitar a especialização precoce e apostar não nas disciplinas que ensinam a pensar/conhecer tal ou tal realidade, mas naquelas que levam a ‘aprender a aprender’, que permitem a aquisição de competências transferíveis, que, enfim, ensinem a pensar/conhecer o conhecimento e os modos de o adquirir. Ora, sem dúvida, que é esse em parte, o caso da Filosofia” (1999: 180).
A Filosofia desempenhou e desempenha um papel crucial na formação de cidadãos, pessoas críticas, reflexivas e atentas aos problemas da sociedade. Estas competências assumem um lugar de destaque na sociedade competitiva, exigente e global em que vivemos, pelo que não podemos menosprezar o papel que a Filosofia aí desempenha. O lugar desta área do saber na sociedade acentua-se no nosso estudo, dado tratar-se de alunos em idade adulta, alunos já inseridos, na sua maioria, no mercado de trabalho, que exercem uma profissão muitas vezes com contornos muito indefinidos, numa sociedade volátil, exigente e aguerrida. Pelos instrumentos que fornece e as competências que desenvolve, a Filosofia revela-se fundamental para o aluno adulto e coloca-se ao serviço de uma educação ao longo da vida.
No programa de Filosofia para o Ensino Secundário Recorrente por Módulos Capitalizáveis pode ler-se que o Relatório Delors reconhece a importância da disciplina de Filosofia na aprendizagem do novo imperativo educativo: o aprender a viver juntos. Também a UNESCO tem solicitado a todos os Estados a introdução ou o alargamento da formação filosófica a toda a educação secundária, enfatizando as relações entre Filosofia e Democracia e entre Filosofia e Cidadania (Henriques, et al., 2004/05: 3).
Ainda assim, a disciplina de Filosofia é muitas vezes conotada pelos alunos como sendo difícil, desinteressante e inútil para a sua formação. Esta representação é formada muitas vezes sem que tenha havido contacto com a disciplina (comum entre os alunos no início do 10º ano), ditando uma rejeição a priori e conduzindo não raras vezes ao insucesso. Freitas (1999) demonstrou num estudo levado a cabo no Ensino Secundário Regular, que, à excepção da Matemática, a disciplina de Filosofia é a menos preferida pelos alunos. No mesmo estudo é também vista pelos alunos como pouco pragmática, desinteressante ou aborrecida e com um nível elevado de exigência. Muitas vezes a Filosofia aparece aos alunos desligada das suas preocupações, da realidade e da sua situação concreta, o que conduz ao desinteresse face aos conteúdos leccionados. Os adultos não reconhecem na Filosofia a sua forte componente formativa e atribuem pouco valor aos instrumentos que fornece e às competências que desenvolve, os quais são de enorme utilidade em múltiplas situações da vida, quer a nível pessoal quer profissional.
A Filosofia é uma disciplina em que os alunos revelam muitas dificuldades dada a sua falta de preparação nas competências que exige (tais como, interpretação de textos, expressão escrita, capacidades reflexiva e argumentativa, espírito crítico). Daqui resulta que os índices de insucesso na disciplina sejam elevados entre os alunos. A esta realidade não escapam os alunos adultos, os quais, apesar de reconhecerem mais facilmente a importância da disciplina do que os jovens e assumirem uma atitude mais receptiva face à mesma, têm dificuldades acrescidas devido à cristalização a que estão sujeitos dado o período, por vezes longo, em que estiveram sem estudar.
Os estudantes adultos possuem determinadas características que os diferenciam dos alunos mais jovens. A corrente da Andragogia defende que o adulto é um aluno caracterizado por um conjunto de especificidades e que estas devem ser consideradas na
acção educativa. Os adultos têm necessidade de saber assuntos que estejam relacionados com os seus interesses e necessidades; têm a capacidade de auto-dirigir a sua aprendizagem; possuem um manancial de experiências que deve ser recrutado nos processos educativos; têm uma vontade de aprender conhecimentos de que necessitam para enfrentar as situações com que se confrontam na sua vida; têm necessidade de orientar a sua aprendizagem para problemas e não para conteúdos e, finalmente, têm uma motivação intrínseca pela aprendizagem (Knowles, 1984, 1985).
Moscovic (1976) defende que as representações sociais enquanto conjunto de valores, noções e práticas relativas a objectos/situações, permitem a estabilização das práticas sociais e orientam a percepção e a elaboração das respostas. Segundo Santiago (1993), as representações sociais contribuem para a estruturação de modelos explicativos da realidade orientando a intervenção dos sujeitos na mesma. Enquanto modos de ler e de interpretar o mundo, orientando e regulando o comportamento, as representações dos alunos desempenham um papel de relevo no seu percurso escolar.
Considerando, por um lado, a importância das competências que a Filosofia desenvolve, o facto dos adultos apresentarem muitas dificuldades na disciplina e níveis de insucesso e abandono elevados e, por outro, a existência de indicadores diferenciadores dos alunos adultos relativamente aos alunos jovens e a consequente necessidade de contemplar essas diferenças no processo educativo, somos conduzidos a formular da seguinte forma a questão de partida do nosso estudo: Será que o modo como se ensina Filosofia no Ensino Secundário Recorrente por Módulos Capitalizáveis é adequado ao perfil do aluno adulto?
De forma a dar resposta a esta questão enunciámos um conjunto de objectivos que apresentamos no ponto que se segue assim como as questões de investigação a que nos propomos responder.