Toda a intervenção social deve utilizar instrumentos de apoio para a avaliação diagnóstica e da intervenção desenvolvida. Todo o processo de intervenção deve ser registado e não dependente unicamente de registos dispersos ou na memória de quem o realiza. Caso assim seja, outro técnico que fique a acompanhar a pessoa não compreende o que foi realizado e qual o motivo para as decisões tomadas. Deste modo, o registo sistemático da informação permite a actualização da informação recolhida, bem como a reavaliação diagnóstica, uma vez que o diagnóstico não está fechado. Por outro lado, o registo da informação possibilita a partilha da informação entre técnicos que intervém em conjunto com a pessoa.
Existem inúmeros instrumentos que os Assistentes Sociais podem utilizar no seu trabalho quotidiano e que ajudam a sistematizar a informação e a intervenção.
Entrevista Psicossocial
A entrevista psicossocial é um instrumento utilizado no atendimento social que tem por base a criação de uma relação de confiança entre o utente e o técnico permitindo a realização de um diagnóstico e compreender e clarificar o pedido do utente. Este estabelecimento de uma relação permite que haja uma partilha de problemas, dificuldades, potencialidades e expectativas de forma a compreender e clarificar qual o motivo que levou a pessoa a procurar o serviço.
É fundamental o acolhimento inicial para a construção de uma relação, na medida em que é o primeiro contacto entre utente-profissional e poderá ser essencial para a estruturação da intervenção. Deste modo, deve haver um contacto físico através de um aperto de mãos, sendo este contacto fundamental quando se trata de uma pessoa em situação de sem-abrigo. Na maioria das ocasiões, as pessoas em situação de sem-abrigo não são tocadas e existe um preconceito para com estas pessoas atendendo, por vezes, às condições de higiene. Por outro lado, deve haver um contacto visual constante e a pessoa deve ser chamada pelo nome que gosta de ser tratado. Estes pequenos gestos são fundamentais numa relação de confiança. Ao longo da entrevista devem ser utilizadas algumas técnicas que facilitam a sua estruturação. Assim sendo, a paráfrase ajuda o Assistente Social a focalizar o conteúdo da mensagem que o utente quer transmitir, ou seja,
118 ajuda a confirmar o significado da mensagem através da repetição da ideia essencial ajudando a pessoa a sentir que foi compreendida. O Assistente Social na entrevista deve colocar questões abertas e fechadas que ajudam a centrar a informação. As questões abertas permitem iniciar a entrevista e por outro lado permitem ao utente desenvolver mais detalhadamente determinado assunto. Enquanto as questões fechadas ajudam a recolher a informação específica sobre o problema e permite o foco da entrevista em factos específicos. Outra das técnicas a utilizar deve ser a clarificação que ajuda ao técnico precisar o sentido de uma mensagem, de palavras ou de sentimentos.
A entrevista psicossocial serve também para informar o utente sobre o funcionamento da instituição e resposta social a utilizar e sobre os recursos a usufruir. Poderá servir ainda para ajudar a pessoa a fazer escolhas através do confronto da pessoa com ela própria ajudando-a aprofundar ideias e a pensar em soluções concretas para a sua situação.
Por fim, o técnico deverá utilizar o resumo como forma de juntar ideias e temas dos aspectos mais importantes da situação da pessoa ou sintetizar a informação da entrevista. Por outro lado, poderá ajudar a preparar a entrevista seguinte.
Biografia
A biografia é um instrumento utilizado que permite ao utente reorganizar a sua história de vida e tomar consciência das significações que foi adquirindo e construindo ao longo da sua vida e, simultaneamente, reflectir sobre elas. A biografia utiliza a técnica biograma que permite uma análise longitudinal dos acontecimentos da vida do indivíduo, englobando a história familiar, percurso escolar e profissional, saúde e serviços sociais.
Áreas Idade Cronológica Observações
Vida Pessoal e Familiar Percurso Escolar
Percurso Profissional Saúde
Serviços Sociais
119 Como se pode observar no Quadro 1, o biograma é constituído por uma série de áreas temáticas da existência da pessoa, organizadas ao longo de um eixo formado pela idade cronológica. No final, o biograma permite a leitura da evolução da pessoa em cada área.
A consciencialização das etapas de vida poderá ajudar o indivíduo a posicionar-se perante o seu presente; reconhecer repetições comportamentais ou escolhas que realizou na vida.
Ecomapa
O Ecomapa é uma representação gráfica da rede social em que a pessoa se encontra envolvida, ou seja, permite avaliar qual a rede social existente (família, amigos, serviços, etc.) e o tipo de ligação existente.
120 De acordo com a Figura 5, percebe-se que é necessário (Cf. Guadalupe, 2009: 91): - Identificar o sistema da pessoa no círculo principal com a informação básica;
- Preencher os restantes círculos externos com a identificação dos sistemas com os quais se relaciona: família, amigos, trabalho, sistema de saúde, instituições, etc.;
- Estabelecer e avaliar as relações existentes entre as pessoas e os restantes sistemas identificados através de linhas pré-definidas;
- Identificar, ao lado de cada círculo, o apoio recebido e a necessidade de apoio de cada sistema social.
Genograma
O genograma é um instrumento que serve para representar graficamente a família e que permite recolher e registar informação da pessoa e da sua família, ajudando a compreender a sua história de vida.
Deste modo, o genograma permite conhecer a constituição familiar, grau de parentesco e o tipo de relacionamento entre os mesmos, no fundo conhecer a estrutura familiar.
O genograma deve ser desenhado em conjunto com o utente e ir-se completando ao longo do acompanhamento social. Para desenhar o genograma são utilizados símbolos que ajudam a interpretar o mesmo.
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Figura 6 - Símbolos do Genograma
Plano de Desenvolvimento Individual
O Plano de Desenvolvimento Individual22 é um instrumento que visa definir áreas de intervenção à pessoa que promovam a sua autonomia e qualidade de vida, respeitando o projecto de vida, hábitos e gostos da pessoa.
122 A elaboração do plano de desenvolvimento individual deve ser adequada às necessidades da pessoa correspondendo às expectativas da mesma. Não deve ser estandardizado, uma vez que cada pessoa é única e individual.
Deste modo, o plano de desenvolvimento individual deve ser definido em conjunto com a pessoa em situação de sem-abrigo, de forma a contratualizar acções que tenham em vista a sua autonomia e a promoção enquanto pessoa, adequada às potencialidades e necessidades diagnosticadas. Este instrumento deve ser constantemente avaliado e alterado, sempre que necessário, ao longo do acompanhamento social tendo em conta a evolução da pessoa.
Escadas da Motivação
Penso que poderia ser útil como instrumento a utilização figurativa de uma escada que permite ajudar a pessoa a situar-se na sua vida. A escala vai do primeiro ao último degrau, em que o primeiro é estar o mais longe possível de alcançar o seu objectivo e o último é já o objectivo alcançado. Começa-se por questionar a pessoa em que degrau da escala julga estar e depois explora-se tentando perceber porque é que a pessoa não se encontra no degrau abaixo (que competências já desenvolveu, o que já conseguiu atingir) e questionando o que poderá fazer para atingir o degrau seguinte. Desta forma, delineamos com a pessoa os objectivos a atingir, bem como a reflectir com a mesma sobre os objectivos, competências, expectativas sobre a sua situação (Figura 7).
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