NUTRITIONAL VALUE OF TANNIN-RICH TREE/BROWSE LEAVES AND AGRO-INDUSTRIAL BY-PRODUCTS
4. CONCLUSIONS AND FUTURE RESEARCH
3.6.1. Educando o nosso olhar...
O documentário chamado Janela da Alma (2001), dos diretores brasileiros João Jardim e Walter Carvalho, é uma produção significativa para pensarmos a questão da importância da educação do olhar no mundo contemporâneo. O documentário representa de uma maneira singela, porém profunda, algumas de nossas compreensões acerca desse mundo
audiovisual, marca da sociedade pós-moderna. Nesse sentido, consentimos com a assertiva de Arfuch (2006) ao assinalar:
(...) la imagen no es solamente visual, sino también – y tomando otra de sus acepciones clásicas – la imagen como idea, la imagen del mundo, la que tenemos de nosotros mismos e de los otros, la que se relaciona con el imaginario, tanto en su acepción de un “imaginario social” (ideas, valores, tradiciones compartidas) como psicoanalítica, de una “identificación imaginaria” (ser como). Todas estas imágenes confluyen entonces en esa configuración de subjetividades, en sus acentos individuales y colectivos25
(ARFUCH, 2006, p. 76).
O referido documentário nos mostra por meio de dizeres, imagens e sons como vemos o mundo de maneira desfocada. Quantas vezes a própria câmera estava fora de foco, demonstrando o modo como enxergamos certos fatos em nossa volta. A imagem que fazemos da realidade parte daquela criada por nós mesmos. Se levarmos em consideração que a imagem construída sobre nós mesmos está atrelada a esse ideal da promessa de felicidade do mundo pós-moderno26, consequentemente, nos tornaremos frutos de uma sociedade de consumo, cujo objetivo está centrado no movimento.
Segundo o cineasta Wim Wenders, “a maioria das imagens que vemos não tentam nos dizer algo, mas nos vender algo”. Diz, ainda, “na verdade, a maioria das coisas que vemos, revistas, televisão tentam nos vender alguma coisa”.27
Concordamos com o seu posicionamento, pois compreendemos o mundo audiovisual como parte da sociedade pós- moderna, a que concentra os seus maiores esforços na divulgação de produtos a serem consumidos. As imagens não são meras imagens, sem objetivo aparente; pelo contrário, estas possuem e produzem significados e nos convocam a compartilhar e acreditar em determinadas ideias e um dos caminhos encontrados é por meio de aparatos midiáticos. O capitalismo sente a necessidade de se reinventar com uma constância incrível e, para isso, fomenta a aproximação e a “necessidade” da sociedade pelas tecnologias e artefatos midiaticosos. Vale frisar que esses são poderosos para instigar o desejo consumidor. Costa corrobora com nossa compreensão ao afirmar que “as imagens deixaram de ser simples representações,
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(...) a imagem não é somente visual, senão também – e tomando outra de suas acepções clássicas – a imagem como ideia, a imagem do mundo, a que temos de nós mesmos e a dos outros, a que se relaciona com o imaginário, tanto em sua acepção de um imaginário social (ideias, valores, tradições compartilhadas) como psicanalítica, de uma “identificação imaginária” (ser como). Todas estas imagens confluem então nessa configuração de subjetividades, em seus acentos individuais e coletivos (tradução própria).
26 Ver Capítulo 2 da presente dissertação.
interpretações ou expressões das ações humanas e tornaram-se o centro das atividades que conectam as pessoas entre si e com a tecnologia” (COSTA, 2012, p. 264).
Diante das colocações realizadas anteriormente, nos perguntamos como temos direcionado o nosso olhar para todo esse arsenal convidativo posto pela linguagem audiovisual, especialmente a proveniente da mídia. Basta darmos uma olhadela para as ruas de grandes metrópoles ou, até mesmo, de cidades de porte médio, para percebermos a grande poluição visual existente nelas, como os outdoors de vários tamanhos e de cores diferenciadas, difusores de inúmeras mercadorias atreladas a sonhos e quereres diversos. Isto não é distinto de quando abrimos o computador e nos deparamos, também, com insistentes propagandas online, no afã de seduzir nossos olhos e, por conseguinte, estimular o nosso desejo para adquirir os produtos veiculados.
Sobre esta discussão, é válido recorrer a alguns apontamentos realizados por Arfuch (2006) quando afirma que “son los medios de comunicación y especialmente la televisión los que han tomado a su cargo, de modo prioritario, la construcción pública de una nueva intimidad que se ofrece como un consumo cultural fuertemente jerarquizado28” (ARFUCH, 2006, p. 78). A televisão e suas propagandas de cunho apelativo são importantes pilares para a construção de uma sociedade de consumo. Contudo, entendemos existir um conjunto de imagens e sons que constituem o mundo audiovisual, perpassando desde simples folhetos de propagandas nas ruas até aparatos tecnológicos mais complexos, como é o caso da televisão e do cinema.
A nosso ver, os meios tecnológicos, especialmente a partir do estopim da terceira Revolução Industrial (que ocorreu a partir da década de 1940, logo após o término da Segunda Guerra Mundial), vêm tomando proporções grandiosas. A televisão e o cinema, por exemplo, ao unirem imagem em ação com a sonoplastia, têm se destacado por usarem a linguagem audiovisual, a principal responsável pela reprodução de comportamentos e estilos de vida contemporâneos.
É válido frisar as considerações realizadas por Oliver Sacks, neurologista e escritor, no documentário Janela da Alma, quando destaca “(...) se dizemos que os olhos são a janela da alma... sugerimos, de certa forma, que os olhos são passivos... e que as coisas apenas entram. Mas a alma e a imaginação também saem”. Ele conclui seu pensamento, dizendo: “o que
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(...) são os meios de comunicação e especialmente a televisão os que tomaram como seu cargo, de modo prioritário, a construção pública de uma nova intimidade que se oferece como um consumo cultural fortemente hierarquizado (tradução própria).
vemos é constantemente modificado por nosso conhecimento... nossos anseios, nossos desejos, nossas emoções... pela cultura, pelas teorias científicas mais recentes...”29
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Apesar da questão da recepção não ser o foco do nosso trabalho, concordamos com Sacks, especialmente por compreendermos que, embora a linguagem midiática exerça influências no ato de consumir sobre a sociedade, cada sujeito a receberá de maneira singular e particular, até mesmo porque a experiência de vida de cada um é única. Esta, ainda, fará com que cada receptor não se limite a olhar o visível, mas também o invisível. Toda a produção audiovisual, para nós, deveria ser refletida cuidadosamente, apesar de sabermos que, muitas vezes, ela é absorvida sem passar pelo crivo da reflexão.
Nessa linha de raciocínio, indagamos o seguinte: Se o consumo30 fosse realizado de maneira racional por todos, o que explicaria o fato de consumirmos mais do que, de fato, necessitamos? O que nos faz consumir mais bens do que a real precisão? O cineasta Win Wenders, em seu documentário nos esclarece:
(...) temos muitas coisas em excesso nos dia de hoje. A única coisa que não temos o suficiente é tempo, mas... a maioria de nós tem tudo, em excesso... e ter tudo, em excesso, significa... que nada temos. A atual superabundância de imagens, significa, basicamente... que somos incapazes de prestar atenção.31
Uma explicação pode ser a de Rita Pereira quando diz que “como amamos as imagens e como desejamos nos transformar numa delas” (PEREIRA, s/d, p. 01). Isso, para nós, é uma reflexão certeira. Já Costa explica que “o mundo das imagens transformou-se em potente indústria que mobiliza desejos, vaidades e interesses mercantis” (COSTA, 2012, p. 265).
Há, a nosso ver, um processo de identificação da parte de quem compra com a mercadoria consumida. Isso explica, em nossa concepção, porque certos produtos são consumidos e outros não, e também porque certos produtos são mais consumidos que outros. Os atributos apelativos e interpelativos da cultura audiovisual promovem no consumidor um incômodo, um desconforto interno, por não ter uma determinada mercadoria, sendo que esta já é adquirida e utilizada por outros. Ademais, há esse envolvimento emocional por parte do consumidor, uma vez que comprar uma mercadoria é sinônimo de alcançar um ideal de felicidade; uma proposta realizada pelos meios midiáticos.
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Fragmentos retirados do documentário “Janela da Alma” (com tradução própria do documentário).
30 Ver Capítulo 1 da presente dissertação.
Nesse sentido, consentimos com a metáfora usada por Saramago (2003) em seu romance Ensaio sobre a cegueira, no qual ele reflete sobre a ação do homem frente a grandes catástrofes. A população mundial enfrenta uma epidemia que deixa as pessoas cegas, com exceção de uma mulher (a esposa de um médico). O importante neste enredo não é investigar as causas da epidemia, isto é, as pessoas ficarem cegas, e sim, como conduziram suas vidas após terem perdido a visão.
No decorrer da leitura deste livro, nos questionamos se os indivíduos da sociedade pós-moderna, também, não poderiam apresentar algum tipo de cegueira, à medida que a preocupação das pessoas no mundo contemporâneo se encontra cada vez mais na fluidez, no movimento, e menos no fortalecimento da atenção da reflexão; o olhar se volta mais para o próprio indivíduo do que para o coletivo. O arquétipo a ser atingido é o de um consumidor em potencial, pois só assim será feliz. Há, assim, um descarte não só das mercadorias consumidas, senão também das relações humanas intra e interpessoais. O referido autor, no documentário Janela da Alma, faz a seguinte observação:
(...) nós nunca vivemos tanto na Caverna de Platão como hoje. Hoje é que nós estamos a viver, de fato, na Caverna de Platão, porque as próprias imagens que nos mostram a realidade, de tal maneira substituem a realidade. Nós estamos... estamos no mundo a que chamamos mundo audiovisual. Nós estamos efetivamente a repetir a situação das pessoas aprisionadas ou atadas na Caverna do Platão, olhando em gente, vendo sombras e acreditando que essas sombras são realidades.
Pensando e refletindo acerca dos dizeres de Saramago, no referido documentário, concluímos que vivemos, sim, em um mundo audiovisual. Estamos abarrotados de imagens e sons que nos circundam e tentam nos manipular a todo o momento. Nesse mundo, constantemente nos deparamos com a ideia de que consumir é a única alternativa viável, considerando a provisoriedade, efemeridade e temporariedade das relações.
Conforme Costa, “nunca se investiu tanto em imagens para vender, e parece que, quanto mais visual for o texto e mais significados um signo puder condensar, maior será o potencial para conduzir ações em direção ao consumo” (COSTA, 2012, p. 266-267). Por isso pensamos o quanto é importante saber educar o nosso olhar para ser mais crítico e reflexivo; colaborando, assim, para as tomadas de decisões posteriores. De modo mais específico pensamos em como seria pertinente investir na educação do olhar das crianças, para que as mesmas pudessem problematizar a rede discursiva construída em torno dos produtos e aparatos culturais do mundo contemporâneo.
O nosso olhar pode ser direcionado pela emoção que uma imagem nos causa. A linguagem audiovisual, em especial, o cinema causa no público infantil um mundo a ser desbravado e apreendido. Os nossos esforços, nesse sentido, estarão concentrados em compreender os ensinamentos ofertados a criança pós-moderna por meio dos filmes da Barbie. Faremos, nesse sentido, reflexões concernentes ao cinema, as crianças e sua educação; enfim, todos estes elementos relacionados ao artefato cultural Barbie.