Como foi sugerido pela estratégia empírica desenvolvida, seriam necessários dados de (1) preços de importação, (2) preços aos produtores, ou também denominado como ao atacado, (3) custo doméstico, (4) custo externo, (5) câmbio nominal, e (6) preço do petróleo. Esta estrutura de dados para modelos econométricos é bastante comum nos trabalhos de repasse cambial, uma vez que representa bem a dinâmica da cadeia de transmissão de choques, como foi buscado por trabalhos comoBelaisch(2003) eMcCarthy(2007), entre outros que também usam modelos VAR. A estimação se valerá do logaritmo das variáveis com periodicidade trimestral.
Seguindo a ordem de disposição denotada acima, serão descritos os dados utilizados para cada uma das variáveis elencadas. Começando pelos preços de importação em moeda estrangeira (neste caso, medidos em dólares estadunidenses), a base de dados utilizada é a do Índice Preços das Importações Brasileiras (IPI) calculado pela Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex). Para os dados de preços ao produtor, também denominados como preços ao atacado, são utilizadas as aberturas setoriais do Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPA) do Índice Geral de Preços - Disponibilidade Interna (IGP-DI) calculado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV).
Os custos domésticos, como já definido anteriormente, terão como proxy as variáveis externas específicas do setor que são as médias ponderadas dos preços dos demais setores da indústria. Por sua vez, é utilizado como proxy dos custos das firmas estrangeiras o Índice de Preços das Importações dos Estados Unidos, calculado pelo Bureau of Labour Statistics (BLS). Tal suposição é justificada por meio da teoria que indica que os preços são composições do
markup e do custo marginal, e uma vez que as importações dos Estados Unidos advém de
diversos países, combinado ao fato de ser um mercado competitivo, o que leva a um markup baixo, os preços destas devem refletir os custos mundiais de tais setores.
Os dados da taxa de câmbio nominal foram obtidos por meio do Sistema Gerenciador de Séries Temporais (SGS) do Banco Central do Brasil (BCB). Mais precisamente, é útilizada a série do câmbio de venda para a média do período, sendo que a unidade da série está em reais por dólar. Já para representar o preço do petróleo, utilizou-se a série de Crude Oil Prices:
Brent (dólar/barril) obtida pelo Federal Reserve Economic Data (FRED) do Federal Reserve Bank of St. Louis, uma vez que este é o dado considerado como referência para tal commodity
pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).
Uma questão enfrentada aqui foi a da compatibilização das classificações dos setores, uma vez que o índice de preços de importação dos Estados Unidos difere do sistema adotado no Brasil, que é a Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE). A pesquisa do BLS era anteriormente divulgada seguindo o Standard International Trade Classification
3.2. Base de dados 53
(SITC) que bastante se assemelha à CNAE. Todavia, o BLS deixou de utilizar este sistema de classficação, passando a divulgar seus pesquisas usando o North American Industry Classifi-
cation System (NAICS), que também é similar à CNAE, mas os dados do índice de preço das
importações nesta classificação só existem a partir do final de 2005. Tal restrição resultaria em um corte significativo das séries históricas utilizadas no exercício.
A fim de evitar a redução da base de dados, valeu-se das demais classificações nas quais o índice de preços é divulgado pelo BLS: a Harmonized System (HS) e a End of Use (EoU), para as quais existem séries mais longas. Para isso, primeiramente, foram selecionados os produtos disponíveis pelas classificações HS e EoU, para unir os preços das aberturas que compõem cada setor. Em seguida, utilizando os dados de valor das importações disponibi- lizados pela Funcex, que têm início em 2005, calculou-se o peso de cada setor no total das importações brasileiras a partir da média dos pesos entre 2005 e 2017, para assim ponderar os itens das classificações EoU e HS.
A tentativa era criar um índice dos custos internacionais, dando pesos para os setores de acordo com a sua importância sobre os preços de importados brasileiros. O resultado obtido foi que as séries ponderadas tinham o mesmo comportamento que aquelas calculadas pelo BLS a partir do NAICS. Assim, o exercício foi capaz de recompor, de maneira muito satisfatória, as séries originais. Logo, concluiu-se que a proxy continuaria a servir para os propósitos deste trabalho, não pois apenas seria capaz de representar os custos mundiais, mas também por recriar os dados originais indisponíveis. Assim, os índices ponderados obtidos foram utilizados para estimar as séries do BLS para o período de 1999 a 2005, que são os dados faltantes da classificação NAICS.
Por fim, é necessário ressaltar que a CNAE divide a indústria de transformação em 24 setores, porém a FGV ao calcular o IPA não inclui o setor de código 18 (Impressão e Reprodução
de Gravações) no índice, o que impossibilita seu uso nas estimações. Além disso, o GVAR
necessita de uma matriz de ponderação dos setores, sendo que para isso é utilizada a matriz de insumo-produto estimada usando dados do Sistema de Contas Nacionais (SCN)27. A questão é que o SCN, apesar de usar a CNAE, coloca os setores de Produtos Diversos e Móveis como apenas um. Desse modo, para o IPI dos Estados Unidos e o brasileiro foi utilizado o peso médio entre 2005 e 2017 do valor das importações brasileiras para cada um destes; já o IPA da FGV foi reponderado utilizando os pesos do próprio indicador, que são disponibilizados juntamente com os índices de preço. Outro setor da indústria de transformação que não é incorporado é o de Manutenção, Reparação e Instalação de Máquinas e Equipamentos, mas este não faz parte nem da pesquisa da Funcex, e nem da FGV.
Código CNAE Setores
10 Fabricação de Produtos Alimentícios 11 Fabricação de Bebidas
12 Fabricação de Produtos do Fumo 13 Fabricação de Produtos Têxteis
14 Fabricação de Produtos do Vestuário e Acessórios 15 Fabricação de Produtos de Couro
16 Fabricação de Produtos de Madeira
17 Fabricação de Celulose, Papel e Produtos de Papel
19 Fabricação de Coque, de Derivados de Petróleo e Biocombustíveis 20 Fabricação de Produtos Químicos
21 Fabricação de Produtos Farmoquímicos e Farmacêuticos 22 Fabricação de Produtos de Borracha e Material de Plástico 23 Fabricação de Produtos de Minerais Não-Metálicos
24 Metalurgia
25 Fabricação de Produtos de Metal, Exceto Máquinas e Equipamentos 26 Fabricação de Equipamentos de Informática, Eletrônicos e Ópticos 27 Fabricação de Máquinas, Aparelhos e Materiais Elétricos
28 Fabricação de Máquinas e Equipamentos
29 Fabricação de Veículos Automotores, Reboques e Carrocerias 30 Fabricação de Outros Equipamentos de Transporte
31 & 32 Fabricação de Móveis e de Produtos Diversos Tabela 3.1 – Setores da indústria de transformação