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Dado isso, prevaleceu-se por muito tempo no imaginário do católico a tradição religiosa de que era necessária a execução dos ritos fúnebres para se ter uma boa morte e encomendação da alma. A morte repentina era temida pelo fato de não haver preparação, pois a morte tinha que ser natural, sendo esperada no leito junto aos amigos e familiares e seguidos os ritos que caracterizavam o “bem morrer”. Dentre esses seguimentos, tinha-se de início a preparação do enterro e a organização do funeral, bem como a quitação e direcionamento dos bens com a elaboração do testamento. No testamento, o moribundo estabelecia a prestação de contas nos dois planos: o material (terreno) e o espiritual (celeste). No material, havia a quitação de dívidas e encaminhamentos das posses aos familiares, libertação de escravos, doação à Igreja e aos pobres, reconhecimento de filhos ilegítimos, a escolha da mortalha e da sepultura; já quanto ao espiritual, tinham os pedidos de celebração de missas e pagamento de honorários, doações às confrarias e irmandades, pagamento de serviços fúnebres e o gasto com o funeral, era enterrado no espaço sagrado de acordo com a confraria, irmandade ou (dependendo do prestígio) igreja de que o mesmo fosse associado. Eram necessários o cumprimento desses segmentos, já que a alma do enfermo estava pendente de introdução ao reino celeste.

Essa tradição era seguida piamente pelo povo que reproduzia essa ideologia fúnebre temendo as punições resultado do não cumprimento desses dogmas. Essa ideologia fúnebre era de tal forma difundida no imaginário católico que, conforme se pode analisar em iconografias da época, havia uma batalha espiritual no quarto do enfermo que, a partir dali, já se iniciava a saga rumo ao Céu.

A difusão dessas iconografias era feita nas igrejas e capelas, bem como nas confrarias e irmandades, reproduzindo e legitimando a ideia de que a morte era um estágio importante no processo de transição da alma para o encontro com o Salvador.

Figura 1 - O Juízo Particular22

A iconografia da época reproduzia o pensamento que se tinha acerca do post- mortem cristão, desde o leito. Essa era uma das principais razões para a necessidade do sacramento da extrema unção. Nos últimos momentos de vida, se faziam presentes à corte celeste e o diabo e seus subalternos, numa verdadeira batalha espiritual pela alma do futuro morto. O diabo, munido de um livro no qual

22Fonte: Disponível em: <httposegredodorosario.blogspot.com.br2012_11_01_archive.html>. Acesso

apontava as falhas e pecados cometidos pelo moribundo disputava com os santos, que advogavam a favor do réu, tendo sido esses santos evocados quando na escrita do testamento. Esse era o cenário do Julgamento do enfermo, no qual se destinava ao Inferno ou ao Purgatório, onde a alma do morto iria purgar os pecados e purificar sua alma para a entrada no Céu.

Ainda remetendo à concepção post-mortem no qual vigorava na ideologia cristã oitocentista, vemos essa batalha retratada em muitas igrejas do século XVII e XVIII e que perduram até os nossos dias. Na igreja do Senhor do Bonfim, Bahia, é possível ver essa representação do Juízo Particular e que representa essa batalha espiritual presente no quarto do moribundo.

Figura 2 - A morte do Justo. Igreja de Nosso Senhor do Bonfim23

Como o próprio título da obra, a morte do justo é caracterizada pela vitória dos santos contra as investidas do Diabo, que permanece inapto em sua empreitada demoníaca. Ele não tem poder sobre aquela alma que teve uma vida beneficente e em comum às diretrizes e sacramentos cristãos, sendo sua alma requisitada pelos

23Fonte: Disponível em: <httpisajaron.blogspot.com.br201210bahia-parte-2.html>. Acesso em 14 de

santos e destinada ao Purgatório, onde iria verter suas iniquidades e aspectos terrenos, livrando-se do que a torna mundana para ter a característica pura e poder entrar nos Céus.

Figura 3 - A morte do Pecador. Igreja de Nosso Senhor do Bonfim24

Já a morte do pecador é retratada pela vitória das investidas do diabo, que tem todo poder sobre a alma do jazente. Os poucos anjos presente na batalha espiritual nada tem a fazer, a não ser lamentar a alma do ímpio que será levada ao plano do Inferno. Os muitos diabretes regozijam-se em apontar no Livro as falhas cometidas durante a vida do pecador e o descumprimento dos preceitos cristãos.

É dessa prerrogativa que emergem os ritos fúnebres, e do qual enterro ad sanctos é um dos expoentes máximos. Ora, como havia no imaginário – influenciado pela ideologia cristã – a ideia de que era necessário sacralidade tanto em vida, quanto na morte para uma ida aos Céus, os espaços das igrejas se mostravam sagrados e constantemente frequentados por pessoas que podiam interceder pela alma no Purgatório. A respeito dessa intercessão dos vivos para os mortos no Purgatório e a origem do ad sanctos, Alcinéia Santos aponta que,

24Fonte: Disponível em: <httpisajaron.blogspot.com.br201210bahia-parte-2.html>. Acesso em 14 de

A proximidade entre mortos e vivos era conduzida com base na visão acerca do purgatório, esfera onde as almas ficariam esperando o julgamento final, rogando por orações e missas para o alívio de suas faltas. Essa intervenção espiritual, necessária para o progresso da purificação dos pecados e a ascensão ao céu, seria dada pelos vivos. Estar sepultado dentro de uma igreja era não desvincular-se do mundo dos vivos. É importante lembrar aqui que a crença no purgatório está intimamente ligada à convicção e ao desejo da imortalidade – não só à vontade de possuir a vida eterna, mas, sobretudo, à de escapar do inferno e receber as graças divinas, a ressurreição (SANTOS, 2011, p. 95).

Logo, era a partir dessa presunção que se enterrava ad sanctos, pois em contato com o sagrado do Altar (perto do Senhor Jesus), sempre presente nas missas celebradas e perto dos viventes para se apiedar da alma, a pena no Purgatório seria bem mais branda.