Tendo presente a principal finalidade desta investigação, estudar a utilização de um ambiente virtual de aprendizagem e o seu impacto no desenvolvimento de diversas competências num grupo de utilizadores, considera-se como adequado que se inscreva num paradigma qualitativo, privilegiando-se o estudo de caso ao pretender analisar uma situação bem delimitada e particular, num contexto real, dando ênfase à dimensão interpretativa do fenómeno.
O presente estudo afasta-se, assim, dos métodos quantitativos, na medida em que não é objectivo a generalização dos resultados obtidos nem uma medição rigorosa e controlada dos mesmos. De acordo com Vale [2000], “os métodos dominantes em investigação foram durante muito tempo de tipo quantitativo, baseando-se na procura de relações de causa-efeito e na medição de variáveis isoladas.” [p.177]. No entanto, e segundo a mesma autora, estes métodos “mostraram-se insuficientes no estudo de fenómenos educacionais complexos, não sendo capazes de captar os aspectos essenciais desses fenómenos, pois estes são inseparáveis dos respectivos contextos e as suas componentes não podem ser estudadas isoladamente.” [id: ib.].
Já Van der Maren defendia que:
“A investigação no campo da educação só dificilmente é verificativa; ela não se pode verdadeiramente submeter às exigências de uma perspectiva quantitativa. Se se pretender que a investigação seja consistente com as características do objecto e com os obstáculos do campo, ela será sobretudo explorativa-compreensiva.” [citado em Lessard-Hérbert, Gouette & Boutin, 1990: 98].
Também Carmo e Ferreira [1998] referem que a utilização de métodos quantitativos em ciências sociais tem como principal limitação a própria natureza dos fenómenos estudados, de onde se destaca:
- A natureza complexa que caracteriza o ser humano;
- O estímulo que pode desencadear respostas distintas consoante o sujeito em questão;
- O difícil controlo do elevado número de variáveis em causa; - A subjectividade inerente ao próprio investigador;
- A questão da validade20 e fiabilidade21 dos instrumentos de recolha de dados.
Esta investigação, inserida na área do multimédia em educação, caracteriza-se por ser, fundamentalmente, qualitativa e orientada para a descoberta, na qual se privilegia a descrição, a explicação e a análise de uma realidade particular. Neste sentido, o estudo qualitativo é “um método multifacetado envolvendo uma abordagem interpretativa e naturalista do assunto em estudo. Isto significa que os investigadores qualitativos estudam as coisas no seu ambiente natural numa tentativa de interpretar o fenómeno.” [Denzin & Lincoln, 2000: 3].
Percebe-se assim que o investigador é o principal responsável pela recolha de dados, concentrando-se sobretudo “(…) na descrição, na descoberta, na classificação e na comparação.” [Tuckman, 2000: 532], sendo que a sua “preocupação central não é a de saber se os resultados são susceptíveis de generalização, mas sim a de que outros contextos e sujeitos a eles podem ser generalizados.” [Bogdan & Biklen, 1994: 66].
Pelo que ficou exposto, entende-se, então, que:
“Se as metodologias quantitativas são mais adequadas para provar resultados, sendo a administração da prova sempre imperfeita nas metodologias qualitativas, estas parecem mais apropriadas à produção de saberes práticos que não se pretendem generalizáveis, mas transferíveis, ou seja, utilizáveis noutros contextos, como fonte de organização de novas práticas e de análise de outros processos.” [Silva, 1996: 224].
As investigações de carácter qualitativo possuem, na opinião de Bogdan & Biklen [1994], cinco características principais:
- A fonte de dados é, fundamentalmente, o ambiente natural, sendo o investigador o principal responsável pela recolha dos mesmos;
- A descrição assume importância capital;
- O interesse por todo o processo, ao invés de dar relevância apenas aos resultados obtidos;
- A análise dos dados realiza-se sobretudo de forma indutiva; - O significado assume importância primordial.
20 “Validade de um instrumento diz respeito à sua adequação para medir o ‘objecto’ em estudo.” [Carmo e
Ferreira, 1998: 179].
21 “Fiabilidade de um instrumento representa a sua capacidade para que diferentes investigadores obtenham
Apesar de se tratar de um estudo, fundamentalmente, qualitativo no que concerne à obtenção e tratamento de dados, sempre que se manifestou necessário, procedeu-se a um tratamento quantitativo dos mesmos. A este propósito, Reichardt & Cook [em Carmo e Ferreira, 1998] defendem que, num estudo, o investigador não tem de obedecer “(…) rigidamente a um dos dois paradigmas, podendo mesmo escolher uma combinação de atributos pertencentes a cada um deles.” [p. 176]. Por outras palavras, se a investigação assim o justificar, não tem que se optar necessariamente pela utilização individual de métodos quantitativos ou qualitativos, podendo mesmo “(…) combinar o emprego dos dois tipos de métodos.” [id: ib.]. Também Silva [1996] consolida esta ideia ao defender que as metodologias qualitativas e quantitativas podem ser empregues em complementaridade de modo a garantirem uma maior validade dos dados.
No que respeita ao estudo de caso, esta opção pareceu-nos adequada na medida em que permite “(…) obter informação rica e diversificada, considerando não só os diversos fenómenos/acontecimentos mas também os contextos em que estes ocorrem.” [Gomes, 2004: 187]. Ainda a este propósito, refere-se a visão de autores como Pardal e Correia [1995] que definem estudo de caso como sendo a análise intensiva de situações particulares que, sob condições limitadas, possibilitam generalizações empíricas.
O paradigma de estudo de caso é ainda apontado por Yin [citado em Vale, 2000], como “(…) uma metodologia adequada quando as questões do “como” e “porquê” são fundamentais, quando o investigador tem muito pouco controlo sobre os acontecimentos e quando o objecto de estudo é um fenómeno actual que se desenrola em contexto real e para o qual são necessárias fontes múltiplas de evidência para o caracterizar”. [p. 215].
No que respeita às características de um estudo de caso, Merriam [em Carmo e Ferreira, 1998] destaca as seguintes:
- Particular, visto que se concentra numa situação, acontecimento, programa ou fenómeno específico;
- Descritivo, na medida em que o produto final resulta numa descrição detalhada do fenómeno estudado;
- Heurístico, no sentido em que conduz à compreensão da situação que está a ser estudada;
- Holístico, porque considera a realidade no seu todo, sendo dada maior importância à compreensão e à interpretação.
Para Yin [em Ponte, 1994], os estudos de caso “(…) não generalizam para um universo (…), mas para a teoria, ou seja, ajudam a fazer surgir novas teorias ou a confirmar ou infirmar as teorias existentes.” [p.9]. De facto, não é objectivo deste estudo chegar a conclusões genéricas mas sim tentar compreender, efectivamente, se a utilização de uma plataforma de gestão da aprendizagem, complementar de sessões presenciais, se revela vantajosa em contextos de aprendizagem, na medida em que grande parte dos trabalhos realizados nesta área aponta como proveitosa a sua utilização nesses contextos.
O presente estudo de caso encontra, ainda, alguns pontos de ligação à investigação- acção e ao estudo experimental. Com efeito, sendo o investigador também o professor da disciplina no âmbito da qual decorreu a investigação, e visto que durante a implementação do estudo se procederam a algumas adaptações e alterações relativamente ao que foi inicialmente planeado, julga-se que podem ser estabelecidas algumas ligações com o paradigma de investigação-acção22. Este tipo de estudo é normalmente conduzido de forma iterativa, assenta
sobretudo na observação, reflexão e acção e tem como principal finalidade intervir num determinado contexto particular com o objectivo de melhorar ou modificar um aspecto específico.
Dick [2000] defende que o paradigma de investigação-acção tende a ser participativo, qualitativo e reflexivo. Participativo na medida em que os diferentes intervenientes, neste caso concreto professor e alunos, são participantes activos no processo de investigação; qualitativo pois, tal como já foi referido anteriormente, preocupa-se mais com a descrição do fenómeno do que com a medição rigorosa e controlada do mesmo; reflexivo, no sentido em que proporciona uma reflexão crítica sobre o processo e sobre os resultados, tarefa que também vai de encontro aos objectivos traçados para esta investigação.
Se atendermos ao facto de que se aplicou um pré e um pós-Teste com o propósito de também se poder estabelecer uma comparação, no que respeita aos conhecimentos dos alunos, entre a situação inicial (antes do estudo) e a situação final (após a realização do estudo), poder-se-á então encontrar aqui um ponto de contacto com o estudo experimental.
22 A este propósito refere-se o facto de que, inicialmente, se pensou utilizar a grelha de análise apenas durante as
sessões a distância. No entanto, durante o estudo, revelou-se mais adequado utilizar a mesma para uma análise global de todo o período em que decorreu o estudo.
No entanto, seria errado inscrever o presente estudo numa investigação do tipo experimental pois, para além de não se ter estabelecido nem um grupo de controlo nem um grupo experimental nem se terem controlado variáveis, também não foi objectivo procurar estabelecer relações de causa-efeito. De facto, estas investigações caracterizam-se, sobretudo, por uma “(…) cuidadosa manipulação de variáveis, estudam os efeitos de uma ou mais situações, métodos ou materiais alternativos e constituem trabalhos de intervenção com metodologias usualmente de tipo quantitativo (com tratamento estatístico de dados).” [Ponte, 1994: 3].
Bisquerra [1996] partilha a mesma ideia sobre os estudos experimentais:
“Supone la manipulación de una variable independiente. Se dispone del máximo control sobre ellas. Se incluyen en este apartado los estudios que, en general, aplican diseños experimentales. La metodología cuantitativa es consustancial a este tipo de investigación.” [p. 65].
Tratando-se, tal como já foi referido anteriormente, de uma investigação qualitativa, uma das preocupações essenciais passou, necessariamente, por “(…) descrever, referindo o processo, analisando os dados indutivamente e tendo em grande consideração o significado das coisas.” [Tuckman, 2000: 532]. Assim, e recolhidos os dados a partir das mais diversas fontes de informação, proceder-se-á, no capítulo 4, à sua descrição, análise e interpretação para se poder responder, com verdade, às questões subjacentes a esta investigação tendo em conta que, tal como referem Pardal e Correia [1995], quer os estudos quantitativos quer os estudos qualitativos “(…) precisam, acima de tudo, de ter em conta os mais elevados níveis de precisão e de fidedignidade e trabalhar com dados que respondam o melhor possível às exigências do problema em estudo.” [p. 19].
Pelo que ficou exposto e, apesar dos resultados serem, em boa verdade, apenas válidos para o caso estudado, o valor científico deste trabalho reside no facto de fornecer o conhecimento de uma realidade que, embora limitada, poderá permitir formular hipóteses para o encaminhamento de outras pesquisas.