Embora o presente trabalho esteja limitado a uma análise fonética do comportamento da entoação observado nos falares nordestinos estudados, apresentaremos, de forma sucinta, aspectos essenciais do enfoque fonológico sobre entoação dialetal.
A entoação é um fenômeno linguístico complexo, cujo tratamento sistemático precisa da combinação de três níveis de análises complementares: o físico (a evolução do parâmetro físico da frequência fundamental ao longo da emissão do enunciado), o fonológico (as unidades melódicas com importância significativa em uma língua) e o semântico (os efeitos significativos que produzem essas variações melódicas). À semelhança do que ocorre no nível segmental, possivelmente os ouvintes só percebem um conjunto restrito de movimentos tonais que são os que produzem contrastes linguísticos, em uma determinada língua, e não de todas as modificações fonéticas da curva melódica (PRIETO, 2003).
Com base em um enfoque fonológico, Sosa (1999) apresenta as premissas básicas para proceder a um estudo da entoação de qualquer língua:
1. A entoação é significativa. Orações podem se diferenciar exclusivamente pela entoação, provocando também diferenças em seu sentido semântico ou pragmático. O que significa dizer que a mesma oração pode ser dita com um tom assertivo, de dúvida ou como pergunta, por exemplo. Isso permite classificar as orações em tipos e modos. Não raro, o mesmo tipo de melodia (correlato fonético da entoação) corresponde a diferentes significados, dependendo do tipo de oração, de sua extensão, e da amplitude do movimento tonal.
2. A entoação é sistemática. Cada língua dispõe de um repertório restrito de padrões entoacionais que se destinam à produção de efeitos semânticos específicos, possibilitando, assim,
a descrição dos padrões que são recorrentes da entoação, como também a atribuição de regras para seu uso.
3. A entoação é característica. Os padrões entoacionais de uma língua podem ser substancialmente distintos do de outras e podem, inclusive, gerar outro efeito. No entanto é possível afirmar que pode haver coincidências e que se possa falar, sobre certos aspectos, de universais entoacionais.
4. O texto ou discurso se divide em unidades melódicas. É dentro das cercanias dessas unidades prosódicas definidas pelo contorno que se manifestam os distintos padrões ou melodias, além de outros fenômenos inerentes a elas, como a queda progressiva do nível tonal global (fenômeno conhecido como a linha do declínio) e o prolongamento silábico final. Próximo à fronteira das unidades melódicas, ocorrem também certos fenômenos particulares, tais como movimentos tonais em sílabas átonas, que não acontecem em outros contextos.
Os modelos atuais da entoação contêm dois componentes básicos: 1) componente fonológico, que caracteriza as curvas melódicas mediante uma série de unidades contrastivas e 2) um componente fonético, que descreve de forma explícita o vínculo existente entre a forma subjacente das curvas e o contínuo melódico.
A tese de doutorado de Janet Pierrehumbert (1980), que representa o princípio do enfoque métrico autossegmental, foi desenvolvida para propor um sistema de representação fonológica capaz de gerar os possíveis contrastes do inglês e estabelecer regras que transformam essas representações fonológicas em representações fonéticas.
A teoria permite estabelecer duas classes de regras elaboradas para definir a implementação fonética dos contornos: 1) regras de associação entre as unidades tonais subjacentes e o texto e 2) as regras de interpolação fonética, que se ocupam de gerar os movimentos melódicos intermediários os quais conectam os elementos fonológicos subjacentes entre si.
Uma das contribuições do modelo métrico autossegmental é o reconhecimento do estreito vínculo que existe entre acentuação e entoação. Esse modelo propõe uma versão de análise por níveis e é composto por dois níveis tonais, o alto, representado como H (do inglês high) e o baixo L (do inglês low). A esse respeito, Prieto (2003, p.20) esclarece que:
A utilização de dois níveis é possível tecnicamente por duas razões: por um lado, a versão de Pierrehumbert (1980) incorpora a regra do escalonamento descendente que gera o declínio dos picos ao longo da frase; por outro lado, a variação no campo tonal das excursões melódicas se atribui a variações graduais (não fonológicas) que reflete o nível de ênfase do enunciado.
Trata-se de um modelo que concebe as curvas melódicas como uma concatenação linear de duas classes fonológicas: os acentos tonais simples ou bitonais (pitch accents, associados a sílabas acentuadas) e os tons de fronteira ou tons de juntura (boundary tones, associados a limites prosódicos). Os tons de fronteira são seguidos por %. O asterisco (*) indica que o tom alto (H) ou baixo (L) se associa à sílaba tônica. Fonologicamente, os tons se associam a sílabas com acento lexical e os tons de fronteira se associam a uma sílaba situada no limite de uma frase entoacional.
Como foi dito anteriormente, um texto ou discurso se divide em unidades melódicas. Uma unidade melódica pode ser também conhecida por outros nomes: grupo entoacional, grupo tonal, grupo melódico. Em um grupo entoacional, segundo o modelo britânico de investigação da entoação, as curvas melódicas apresentam a seguinte configuração: núcleo – componente essencial, o qual recebe a maior proeminência tonal da unidade melódica e pode ser, opcionalmente, precedido pela cabeça e a pré-cabeça. A sílaba nuclear, aquela em que recai o acento nuclear, pode ser seguida por uma cauda, que tem a função de continuar ou completar o movimento tonal iniciado pelo núcleo. A pré-cabeça compreende a porção do contorno das primeiras sílabas átonas e a cabeça, a porção que vai da primeira sílaba tônica até o início do núcleo.
Outro procedimento de notação de curvas melódicas com uma orientação fonológica é o conhecido como ToBI (Tones and Break Indices). Esse sistema, desenvolvido, inicialmente, para o inglês americano e adaptado, posteriormente, para outras línguas (espanhol, coreano, japonês), não tem como propósito descrever a forma fonética da entoação e sim, a sua representação subjacente ou fonológica. ToBI inclui dois tipos de símbolos: os que representam a estrutura tonal subjacente (Tones), e os que marcam os limites entre unidades prosódicas (Break Índices).
O sistema baseia-se no inventário de unidades entoacionais propostas no modelo de Pierrehumbert (PIERREHUMBERT, 1980; BECKMAN e PIERREHUMBERT, 1986 apud ESTRUCH et al., 1999), e considera três tipos diferentes de tons: os „acentos tonais‟ (pitch
accents) ou tons associados com sílabas acentuadas, os „tons de fronteira‟ (boundary tones) ou tons que marcariam o início e o final de uma frase entoacional, e os „acentos frasais‟ (phrase accents) ou tons que apareceriam imediatamente antes de um tom de fronteira final e que sinalizam, de acordo com o modelo de Pierrehumbert, o final de uma frase intermediária.
Um aspecto importante desse modelo é que a transcrição dos tons inclui índices de separação prosódica entre as palavras, os quais se empregam para detectar a presença de possíveis tons de fronteira entre as frases. Outra contribuição relevante que se pode conferir ao ToBI está em apresentar um procedimento separado para a notação de dois aspectos diferentes da representação fonológica da entoação: por um lado, as unidades prosódicas em que se organizam os enunciados e, por outro, a representação fonológica do fenômeno da entoação, neste caso em termos de tons, que se relaciona com os trabalhos mais recentes em fonologia prosódica (ESTRUCH et al., 1999).
2 A ENTOAÇÃO EM TORNO DOS DIALETOS
O interesse pelo estudo da prosódia e da entoação tem crescido muito, como se sabe, nas últimas duas décadas, o que gerou também um aumento de interesse por pesquisas que abordam a variação regional, tomando por base a entoação. No presente capítulo, diferentes abordagens serão apresentadas sobre o papel do comportamento entoacional na variação dialetal em diversas línguas, inclusive nas variedades português europeu e brasileiro.
Na literatura especializada, há registros de importantes projetos sobre variação regional da entoação em línguas faladas na Europa. Entre eles está o projeto sobre A entoação do inglês nas Ilhas Britânicas (GRABE, NOLAN, POST, 1997-2002 apud GILLES e PETERS, 2004). Trata-se de um estudo sobre variação no inglês britânico, que foi realizado em nove variedades urbanas (London, Cambridge, Cardiff, Liverpool, Bradford, Leeds, Newcastle, Belfast e Dublin). No que diz respeito à língua alemã, existe um projeto intitulado Estudos sobre a estrutura e função do contorno entoacional regional em alemão (AUER, SLTING, GILLES, KOESER e PETERS, 1998-2004 apud GILLES e PETERS, 2004), que foi desenvolvido em oito variedades urbanas da Alemanha (Hamburg, Berlin, Dresden, Duisburg, Cologne, Mannheim, Freiburg e Munich). É um projeto baseado em dados de fala espontânea, cujo objetivo principal é a identificação de diferenças regionais na entoação, com especial ênfase na função do contorno entoacional no contexto conversacional. Outro trabalho sobre a variação no alemão é o Estudo comparativo da entoação declarativa no padrão das variedades suíça e alemã, elaborado por Christiane Ulbrich a partir de dados de fala extraídos de noticiários. Com relação à língua italiana, podemos citar o trabalho de Michelina Savino, que aborda a questão das estratégias entoacionais para a organização do discurso em uma variedade regional do italiano. Ainda sobre o italiano, Martine Grice e Michelina Savino estudaram as marcas entoacionais em diferentes tipos de questões (cf. GILLES e PETERS, 2004).