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Para Vygotski (1930/1995a) a história de cada formação rudimentar da conduta humana está inscrita no caminho da história humana. Assim sendo, deve-se investigar a história da conduta. Coloca, então, a necessidade de se estudar como o homem primitivo resolvia seus problemas cotidianos.

Vigotski cita L. Levy-Bruhl, quando este comenta que o homem primitivo empregava procedimentos que recorriam “ao uso de estímulos artificiais que não tinham nenhuma relação com a situação dada, introduzidos pelo homem primitivo exclusivamente na qualidade de meio que ajuda a escolher entre duas reações possíveis”147 (VYGOTSKI, 1930/1995a, p. 72), como recorrer a sonhos ou lançar sortes.

Vygotski (1930/1995a) coloca que essas questões levam a se pensar sobre mecanismos de autocontrole humanos, desenvolvidos desde os povos primitivos. Mas, comenta que o que importa nessas investigações é encontrar o princípio fundamental sobre o qual se estrutura a operação psíquica, seus aspectos intelectuais e suas relações com situações práticas; como as soluções encontradas pelo homem para resolver os seus problemas são importantes para se pensar o desenvolvimento cultural do homem; e como se relacionam estímulos e reações na estruturação dessas operações psicológicas de controle das próprias ações.

Para Vygotski (1929/1995g), o homem é capaz de sair da esfera rígida do condicionamento, dominando os estímulos presentes numa dada situação-problema. Segundo Vygotski (1929/1995g, p. 289), “a chave para dominar a conduta reside no domínio dos estímulos”148. Assim, afirma que o homem, ao dominar os estímulos, dominará também sua própria conduta.

Para Vygotski (1930/1995f), esse domínio reflete, em última instância, a capacidade do homem em subordinar, ao seu poder, as reações. Para o autor, é importante considerar o problema do domínio da própria conduta a partir das próprias leis com as quais se determinam o comportamento humano: “como as leis naturais do

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“[...] al uso de estímulos artificiales que no tenían ninguna relación con la situación dada e introducidos por el hombre primitivo exclusivamente en calidad del medio que ayuda a elegir entre dos reacciones possibles” (VYGOTSKI, 1930/1995a, p. 72).

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“[...] la clave para dominar la conducta radica en el dominio de los estímulos” (VYGOTSKI, 1929/1995f, g. 288).

comportamento se baseiam nas leis do estímulo-reação, resulta impossível dominar a reação enquanto não se domine o estímulo”149 (VYGOTSKI, 1930/1995f, p. 159).

Com a teoria histórico-cultural, Vigotski examina criticamente os limites do esquema E-R, realizando dialeticamente um salto interpretativo no seu esquema, para mais além, para uma síntese nova. No caso, Vigotski comenta que: “o instinto existe no homem de forma oculta e sua conduta está ineludivelmente unida às propriedades modificadas deste instinto. A mesma relação dialética que, com a negação da etapa anterior, a conserva em forma oculta, a teremos no caso do reflexo condicionado e a reação intelectual”150 (VYGOTSKI, 1930/1995f, p. 158). Vigotski coloca que o quarto componente desse esquema é o desenvolvimento cultural que, “conserva a conduta natural em forma oculta”151 (VYGOTSKI, 1930/1995f, p. 159). Por exemplo: “a criança domina a operação aritmética quando domina o sistema dos estímulos aritméticos”152 (VYGOTSKI, 1930/1995f, p. 159).

A questão da reação eletiva está imbricada nessa discussão, colocando-se ênfase na discussão sobre a vontade humana. Para discutir essa questão, Vigotski inicialmente se apoia na filosofia de B. Spinoza (1632-1677).

Spinoza (2011) coloca que, “por vontade, compreendo a faculdade de afirmar e de negar, e não o desejo. Compreendo, repito, aquela faculdade pela qual a mente afirma ou nega o que é verdadeiro ou o que é falso, e não o desejo pelo qual a mente apetece ou rejeita as coisas” (p. 88). Spinoza (2011) afirma que a experiência humana se orienta por princípios racionais que condicionam seu agir.

Para Spinoza (2011), a vontade não tem uma extensão maior que a das percepções; e que intelecto e vontade estão em íntima relação com esta ou aquela ideia. Assim, afirma: “a vontade e o intelecto são uma só e mesma coisa” (SPINOZA, 2011, p. 89). Para Spinoza (2011), a vontade não é livre, mas dependente da tomada de

149“Como las leyes naturales del comportamiento se basan en las leyes del estímulo-reacción, resulta

imposible dominar la reacción mientras no se domine el estímulo” (VYGOTSKI, 1931/1995f, p. 159).

150 “El instinto existe en el hombre en forma oculta y su conducta está ineludiblemente unida a las

propriedades de este instinto. La misma relación dialéctica que con la negación de la etapa anterior la conserva en forma oculta, la tenemos en el caso del reflejo condicionado” (VYGOTSKI, 1930/1995f, p. 158).

151“[...] conserva la conducta natural en forma oculta” (VYGOTSKI, 1930/1995f, p. 159).

152 “El niño domina la operación aritmética cuando domine el sistema de los estímulos aritméticos”

consciência das necessidades humanas e das leis que regem as situações, vendo o homem como ser racional.

Congruente com Spinoza, Vygotski (1929/1995g) coloca que a diferença está em que o homem toma consciência da situação, pois, é um ser pensante. No caso, comenta que a criança domina sua reação eletiva sem anular as leis que a regem. A criança reage mediante os estímulos que se apresentam, pois, a lei fundamental do comportamento diz que a conduta está determinada pela situação, e que são os estímulos que produzem as reações. Assim sendo, coloca que somente através de estímulos correspondentes podemos dominar nosso comportamento.

De acordo com Vygotski (1930/1995a), o homem recorre à ajuda de motivos ou estímulos auxiliares, introduzidos artificialmente, para assim dominar uma ação. O autor entende que esse esquema reside na criação de uma relação nova e distinta daquela entre estímulo e reação, impossível na conduta animal.

Para abordar essas questões, Vygotski (1930/1995a) evoca o exemplo de lançar sortes, que afirma ser uma conduta historicamente presente na humanidade desde o homem primitivo. No caso, numa situação em que precisa tomar uma decisão sobre um problema, o homem recorre ao procedimento de se tirar na sorte o comportamento a se seguir, ou a decisão a tomar. Vigotski mostra que, no lugar da reação direta E-R, o homem cria uma situação artificial, introduzindo 2 estímulos complementares, cuja intervenção pode determinar, de antemão, sua conduta, sua escolha de ação, auxiliado pela introdução de um estímulo-meio.

Estímulo suplementar a Estímulo suplementar b

Estímulo-meio artificialmente introduzido na situação

Ilustração 10 – Introdução do estímulo-meio.

Fonte: elaborado a partir das explicações contidas em Vygotski (1930/1995a, p. 74). O resultado de lançar sortes define não somente a conduta final, mas também reestrutura toda a operação psíquica envolvida numa situação originalmente de impasse.

Segundo Vygotski (1930/1995a, p. 74), “assim, pois, o estímulo criado pelo próprio homem é o que determina sua reação. Cabe dizer, por conseguinte, que foi o próprio homem quem determinou sua reação com a ajuda de um estímulo artificial”. Com isso, Vygotski (1930/1995a) não está anulando o princípio E-R, mas avançando, ou indo além, examinando o problema do ponto de vista da formação das funções psíquicas superiores, do homem como ser pensante, sem deixar de examinar o humano como também constituído por leis naturais básicas ou elementares, sobre as quais também organiza seus processos internos. A discussão envolve o ato humano de organizar e agrupar os estímulos visando operar de maneira nova sobre o meio, num esquema E─X─R. Como a introdução do estímulo-meio, o ato torna-se mediado, criando um estado ou formação nova de conduta, qualitativamente superior.

Vygotski (1930/1995a) coloca que lançar sorte surge sobre a base do princípio E-R, mas, o nexo entre os estímulos suplementares e os estímulos originais, não surge

Estímulo Original B Estímulo

por si mesmo e nem é parte original da situação direta. Foi historicamente criado pelo homem, pelo seu intelecto, em sua capacidade de combinar e agrupar estímulos. Assim sendo, comenta: “É certo que, em toda a história, a conduta, até o fim, está total e completamente determinada pela agrupação dos estímulos, mas a própria agrupação, a própria estimulação, é obra do homem” (VYGOTSKI, 1930/1995a, p. 76).

No exemplo de lançar sortes, Vygotski (1930/1995a) comenta que ver tudo que se sucede nesse exemplo como uma relação mecânica entre estímulo e resposta, é uma visão monocular de suas partes. Mas, reconhecer que o homem introduz estímulos artificiais para dominar a própria conduta, é uma visão ampliada do conjunto da operação. A introdução de estímulos artificiais criados pelo homem, e que não guardam relação com estímulos existentes, é, para Vygotski (1930/1995a, p. 81), “o traço distintivo das formas superiores da conduta”153.

Vygotski (1930/1995a) comenta que, no caso do homem primitivo, no estado de seu desenvolvimento cultural, confiar suas decisões à sorte tinha um papel fundamental no controle ou regulação dos diferentes motivos que aconteciam em sua vida cotidiana: “Segundo contam os investigadores, são numerosas as tribos que, em situações difíceis, não adotam nenhuma decisão importante sem confiá-la antes ao azar. Os ossos que, lançados, caem em determinada forma, constituem um estímulo auxiliar decisivo na luta dos motivos”154 (VYGOTSKI, 1930/1995a, p. 72).

Para Vigtotski, as investigações devem justamente pesquisar as formas concretas e multiformes da conduta superior, e seu movimento histórico do homem primitivo ao homem atual. A criação e uso do estímulo-signo são fundamentais nesse processo.

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