Partindo do comentário de que a psicologia tradicional de seu tempo tendia a considerar desenvolvimento somente o que vem de dentro da criança, ou de seu organismo, e de educação, adaptação ou hábito, o que vem de fora, Vygotski (1930/1995d) coloca sua visão de que a experiência cultural da criança no seu desenvolvimento, merece também o conceito de desenvolvimento, pois, é um tipo de
127“[...] el concepto de la función psíquica superior, el concepto de desarrollo cultural de la conducta y
el de dominio de los propios procesos del comportamiento” (VYGOTSKI, 1930/1995b, p. 19, grifo do autor).
experiência de desenvolvimento, tanto externa quanto interna, especialmente no âmbito das funções psíquicas. No caso, comenta que:
cada forma nova de experiência cultural não surge simplesmente desde fora, independentemente do estado do organismo no dado momento de desenvolvimento, mas que o organismo, ao assimilar as influências externas, ao assimilar toda uma série de formas de conduta, as assimila de acordo com o nível de desenvolvimento psíquico em que se encontra128. (VYGOTSKI,
1930/1995d, p. 155).
Vygotski (1930/1995d) comenta que o exame dessa influência é importante, porque indica que toda aprendizagem de uma nova operação é resultado de um processo de desenvolvimento em que ações externas e leis genéticas internas vem dinamicamente combinadas, produzindo novas formas de comportamento. Portanto, o autor valoriza tantos os fatores externos quanto o estado dos processos internos.
No plano do desenvolvimento cultural da criança, a teoria histórico-cultural aborda a passagem do natural para o cultural no desenvolvimento das funções psíquicas do ponto de vista da história da humanidade.
Nessa discussão, Vygotski (1929/1995e) apresenta a linguagem escrita como a primeira e mais evidente linha do desenvolvimento cultural, dizendo:
O desenvolvimento da linguagem escrita pertence à primeira e mais evidente linha do desenvolvimento cultural, já que está relacionada com o domínio do sistema externo de meios elaborados e estruturados no processo de desenvolvimento cultural da humanidade.129 (VYGOTSKI, 1929/1995e, p. 185).
Vygotski (1929/1995e) comenta que o processo de desenvolvimento da linguagem escrita se dá pelo domínio do seu sistema complexo de signos.
Esse processo de desenvolvimento cultural da linguagem escrita supera uma linha de desenvolvimento natural em curso, mostrando que existe uma relação entre o
128
“[...] cada forma nueva de experiencia cultural no surge simplemente desde fuera, independientemente del estado del organismo en el momento dado del desarrollo, sino que el organismo, al asimilar las influencias externas, al asimilar toda una serie de formas de conducta, las asimila de acuerdo con el nivel de desarrollo psíquico en que se halla” (VYGOTSKI, 1930/1995d, p. 155).
129“El desarrollo del lenguaje escrito pertenece a la primera y más evidente línea del desarrollo cultural,
ya que está relacionado con el dominio del sistema externo de medios elaborados y estructurados en el proceso del desarrollo cultural de la humanidad” (VYGOTSKI, 1929/1995e, p. 185).
sistema natural e o cultural de domínio da fala, formando uma história de desenvolvimento psicológico da criança.
Disto se depreende claramente que o desenvolvimento da linguagem escrita possui uma longa história, extremamente complexa, que se inicia muito antes que a criança começa a estudar a escrita na escola130. (VYGOTSKI,
1929/1995e, p. 185).
Outra característica apontada por Vygotski (1929/1995e) é de que a passagem da linguagem (fala) oral para a linguagem escrita não é uma sucessão linear de uma forma para outra, mas um salto, com alterações e transformações. Quer dizer, não é uma passagem por simples acumulação de uma linha na outra, ou um processo puramente evolutivo de pequenas mudanças quase imperceptiveis de uma forma para outra.
Sobre isso, o autor comenta: “já sabemos que todo o processo do desenvolvimento cultural da criança, assim como todo o processo de seu desenvolvimento psíquico, constitui um modelo de desenvolvimento revolucionário” (VYGOTSKI, 1929/1995e, p. 185), ou seja, a saltos, com interrupções, extinções e metamorfoses.
Essa perspectiva se compreende na explicação que Vigotski fornece sobre a passagem do gesto ao signo no domínio da linguagem escrita. Vygotski (1929/1995e) afirma que a história do desenvolvimento da linguagem escrita começa quando aparecem os primeiros signos visuais, sendo o gesto o primeiro signo do tipo, que contem a futura escrita.
Poderíamos citar numerosos exemplos semelhantes. Uma criança que pretende representar uma corrida, com os dedos assinala o movimento; os pontos e as linhas traçadas no papel são, para a criança, representações do ato de correr. Quando quer desenhar um salto, faz movimentos de saltar com as mãos e deixa traços desse movimento no papel131. (VYGOTSKI, 1929/1995d, p. 187)
130“ De lo dicho se deprende claramente que el desarrollo del lenguaje escrito posee una larga historia,
extremadamente compleja, que se inicia mucho antes de que el niño empiece a estudiar la escritura en el colegio” (VYGOTSKI, 1929/1995e, p. 185).
131
“Podríamos citar numerosísimos ejemplos semejantes. Un niño que pretende representar una carrera, señala con los dedos el movimiento; los puntos y las rayitas trazadas en el papel son para el niño representaciones del acto de correr. Cuando quiere dibujar un salto, hace movimientos de saltar con las manos y deja huellas de ese movimiento en el papel” (VYGOTSKI, 1929/1995e, p. 187).
Assim, comenta: “o gesto é a escrita no ar e o signo escrito é, frequentemente, um gesto que se consolida”132 (VYGOTSKI, 1929/1995e, p. 186).
Para Vygotski (1929/1995e), existe um nexo genético entre o gesto e a escrita, ou entre o gesto e signo escrito. Esse nexo também pode ser levado para a análise das brincadeiras ou do jogo infantil, na utilização funcional dos objetos, por onde se pode explicar a função simbólica dos jogos infantis. Essa análise pode ser entendida como uma linguagem complexa de gestos e significados. Afirma o mesmo para o desenho que, inicialmente, se apóia no gesto.
Vigotski assim comenta sua ideia de desenvolvimento cultural: “a cultura origina formas especiais de conduta, modifica a atividade das funções psíquicas, edifica novos níveis no sistema de comportamento humano em desenvolvimento”133 (VYGOTSKI, 1930/1995b, p. 34). E define desenvolvimento cultural como “o domínio de meios externos da conduta cultural e do pensamento, ou o desenvolvimento da linguagem, do cálculo, da escrita, da pintura, etc.”134 (VYGOTSKI, 1930/1995b, p. 34).
Vigotski comenta também que o domínio do signo e seu efeito no desenvolvimento das funções psíquicas superiores segue uma lei explicativa que leva em conta a origem social do signo. Com isso, procura enfrentar o complexo problema das relações entre o interno e o externo, e seu nexo com a realidade, de um ponto de vista marxista.
Vygotski (1930/1995d, p. 150) comenta a lei genética geral do
desenvolvimento cultural dizendo que a função psíquica superior foi primeiramente
externa antes de ser interna.
Podemos formular a lei genética geral do desenvolvimento cultural do seguinte modo: toda função no desenvolvimento cultural da criança aparece em cena duas vezes, em dois planos; primeiro no plano social e depois no psicológico; a princípio entre os homens como categoria interpsíquica e depois no interior da criança como categoria intrapsíquica. O dito se refere igualmente à atenção voluntária, à memória lógica, à formação de conceitos e ao desenvolvimento da vontade. Temos pleno direito a considerar a tese exposta como uma lei, mas, a
132“El gesto es la escritura en el aire y el signo escrito es, frecuentemente, un gesto que se afianza”
(VYGOTSKI, 1929/1995e, p. 186).
133“[...] la cultura origina formas especiales de conducta, modifica la actividad de las formas psíquicas,
edifica nuevos niveles en el sistema del comportamiento humano en desarrollo” (VYGOTSKI, 1930/1995b, p. 34).
134“[...] el domínio de médios externos de la conducta cultural y del pensamiento, o el desarrollo de la
passagem, naturalmente, do externo ao interno modifica o próprio processo, transforma sua estrutura e funções135. (VYGOTSKI, 1930/1995d, p. 150). Vigotski coloca a origem do desenvolvimento das funções psíquicas superiores no plano da vida social, dizendo: “toda função psíquica superior passa inevitavelmente por uma etapa externa de desenvolvimento porque a função, a princípio, é social. Este é o ponto central de todo o problema da conduta interna e externa”136 (VYGOTSKI, 1930/1995d, p. 150).
Na citação acima, temos um ponto muito importante no argumento apresentado pelo autor: é preciso notar que o fator social é uma etapa externa do desenvolvimento das funções psíquicas. Essa é uma discussão muito complexa, mas presente na teoria do autor. Para Vygotski (1930/1995d, p. 150), a etapa externa da história do desenvolvimento cultural é social, ou seja, encontra-se no conjunto das relações humanas. Vygotski (1930/1995d, p. 150) entende que, por trás do desenvolvimento de todas as funções superiores, estão as relações sociais – as relações humanas.
É preciso notar que a Lei cita um processo de conversão, indicação que, a nosso ver, vai ao encontro do que foi colocado no começo dessa seção do trabalho:
cada forma nova de experiência cultural não surge simplesmente desde fora, independentemente do estado do organismo no dado momento de desenvolvimento, mas que o organismo, ao assimilar as influências externas, ao assimilar toda uma série de formas de conduta, as assimila de acordo com o nível de desenvolvimento psíquico em que se encontra. (VYGOTSKI, 1930/1995d, p. 155).
Vigtotski afirma que “todas as formas fundamentais de comunicação verbal do adulto com a criança, se converte mais tarde em funções psíquicas” (VYGOTSKI, 1930/1995d, p. 150). O autor comenta ainda que “temos pleno direito a considerar a tese exposta como uma lei, mas, a passagem, naturalmente, do externo ao interno modifica o
135“Podemos formular la ley genética general del desarrollo cultural del siguiente modo: toda función en
el desarrollo cultural del niño parece en escena dos veces, en dos planos; primero en el plano social y después en el psicológico, al principio entre los hombres como categoría intrapsíquica y luego en el interior del niño como categoría intrapsíquica. Lo dicho se refiere por igual a la atención voluntaria, a la memoria lógica, a la formación de conceptos y al desarrollo de la voluntad. Tenemos pleno derecho a considerar la tesis expuesta como una ley, pero el paso, naturalmente, de lo externo a lo interno, modfiica el próprio proceso, transforma su estructura y funciones” (VYGOTSKI, 1930/1995d, p. 150).
136“Toda función psíquica superior pasa ineludiblemente por una etapa externa de desarrollo porque la
función, al principio, es social. Este es el punto central de todo el problema de la conducta interna y externa” (VYGOTSKI, 1930/1995d, p. 150).
próprio processo, transforma sua estrutura e funções” (VYGOTSKI, 1930/1995d, p. 150).
Essa é uma questão complexa dentro da teoria histórico-cultural, mas, a nosso ver, esses argumentos vêm marcados também por uma visão dialética entre o natural e o cultural, entre fatores externos e modificações de processos internos ou de estados internos do organismo em direção a novas formações, no qual se darão saltos no desenvolvimento psicológico da criança. Quer dizer, a teoria histórico-cultural examina tanto a origem histórica e social concreta da formação das funções psíquicas superiores, quanto considera a natureza elementar dos processos psíquicos nessa formação, estudados de uma perspectiva genética e explicativa.
Segundo Vygotski e Luria (1931/2007), o processo de interiorização de formas culturais de comportamento, está vinculado a mudanças profundas na atividade das funções psíquicas, ou sua natureza, sobre a base da operação com signos.
Nota-se que o autor aplica essa Lei também à atenção voluntária, a memória lógica, a formação de conceitos e o desenvolvimento da vontade. Talvez isso se aplique no sentido de que, para Vygotski (1930/1995d, p. 168), “as etapas fundamentais de formação da memória, da vontade, dos conhecimentos aritméticos, da linguagem, são as mesmas etapas das que temos falado e pelas quais passam todas as funções psíquicas superiores da criança em seu desenvolvimento”137.
Essa discussão basicamente obriga a verificar mais de perto o conceito de função psíquica superior, como tratado por Vigotski na teoria histórico-cultural.