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A escolha da instituição em que fizemos a pesquisa não foi trivial. Em um primeiro momento, no ano de 2017, fomos até duas Coordenações Regionais: uma no estado de Goiás (GO) e outra no Distrito Federal (DF), por serem cidades mais próximas do local em que moramos. Procuramos os coordenadores regionais para saber em quais colégios poderíamos encontrar estudantes surdos.

Na coordenação do estado de Goiás nos disseram que fariam um levantamento prévio para verificar em quais escolas haveria estudantes devidamente matriculados. Depois de uma semana do contato inicial, fomos informados que havia dois colégios em que os estudantes surdos estavam matriculados, mas que em nenhuma das instituições os estudantes surdos frequentavam as aulas. Mesmo assim, marcamos para ir conhecer essas escolas, porém, devido às datas comemorativas e eventos relativos ao funcionamento interno dos colégios, não conseguimos ter acesso aos estudantes. Além disso, nas poucas conversas que tivemos com o corpo gestor das instituições visitadas, não nos foi declarado interesse em que nossa pesquisa acontecesse naquelas instituições de ensino. Diante dessa dificuldade de acesso aos estudantes e da ausência de convite para que a pesquisa fosse desenvolvida naquelas escolas, ficou inviável a utilização dessas escolas como possível cenário de pesquisa.

Na segunda coordenação que visitamos, a do DF, o acesso à informação se tornou mais adequado e direto. Esse espaço-tempo se tornou favorável ao desenvolvimento da nossa pesquisa, pois pudemos conviver com os estudantes surdos que frequentavam uma escola desta cidade, assim como com os intérpretes educacionais. Encontramos mais estudantes surdos em uma escola localizada em Planaltina-DF e também chegariam novos estudantes surdos para o 1.º ano do ensino médio. Dessa forma, ficamos curiosos em perceber como seria a recepção destes novos estudantes na escola.

A escola atende estudantes do ensino médio e, por força de legislação, possui, em seu corpo docente, quatro pessoas intérpretes de sinais. A escola pertence a rede pública

que funciona sob responsabilidade da Secretaria de Educação do DF e atende estudantes surdos dos 1.º, 2.º e 3.º anos do ensino médio.

Em relação ao local de pesquisa, a escola atende a pessoas surdas moradoras de quadras próximas, mas também de toda a região de Planaltina-DF e alguns que moram em cidades do entorno, assim como filhos de profissionais que trabalham na instituição. Ela possui condição física em bom estado de conservação, com salas de aula e materiais com fácil acesso. Em cada sala de aula, há carteiras para os estudantes e mesa para o professor, além de um quadro branco e uma lixeira. Percebemos que nas salas em que estavam os estudantes surdos, as carteiras deles costumam ficar juntas para que a pessoa intérprete educacional tivesse acesso facilitado a eles.

A escola possui espaços de acesso como rampas e materiais de sinalização para pessoas com necessidades específicas educacionais. Há um espaço interno livre, onde os estudantes não surdos e surdos participam de contextos sociais, como brincadeiras. Possui cantina, biblioteca, sala de informática, hortas, banheiros adaptados para pessoas com necessidades específicas educacionais. A sala dos professores é ampla e tem dois sofás, mesas e cadeiras, além de armários individuais, ventilador e murais para recados. Percebemos que as pessoas intérpretes educacionais gostavam de se sentar junto com os professores regentes para conversarem durante o intervalo. Os professores possuem outra sala em que estão fogão, micro-ondas e mesas para serem usadas na hora do lanche, que ocorre no intervalo dos estudantes e professores. Em frente à sala dos professores está a direção, em que estão materiais para fotocópia e mural para serem colocadas informações. Os estudantes têm acesso à sala dos professores e costumam ir lá para fazerem perguntas, principalmente durante os intervalos das aulas.

A instituição escolar possui uma equipe formada por uma diretora, uma vice- diretora, um supervisor pedagógico, um supervisor administrativo e um chefe de secretaria. Duas pessoas ficam responsáveis por administrar a biblioteca, duas para a sala de informática, três professoras para sala de recursos, que ficam à disposição dos estudantes surdos, e quatro professores intérpretes. Também trabalham no colégio duas coordenadoras pedagógicas e uma orientadora educacional que ficam à disposição dos estudantes. Percebemos que os estudantes surdos podiam falar com a orientadora educacional a qualquer momento. Para os estudantes surdos, possui uma sala de línguas, em que vão para

estudar língua de sinais quando sua turma participa dos horários de língua portuguesa. Nos últimos anos, a escola tem promovido dois cursos em que é ensinada Libras para funcionários do colégio que têm interesse. Assim, os funcionários do colégio que participam do curso podem desenvolver uma melhoria na qualidade do processo comunicativo com pessoas surdas.

Em relação ao cenário social, a principal função “da constituição do cenário social com os participantes da pesquisa é o estabelecimento de uma relação dialógica e comunicacional” entre eles (ROSSATO, 2009, p. 22). Segundo González Rey (2005) e Rossato (2009), essa relação se inicia na constituição do cenário social da pesquisa e é o momento em que os participantes poderão ver no pesquisador uma pessoa de confiança e podem se sentir motivados a participar da pesquisa. Os participantes da nossa pesquisa foram cinco estudantes surdos e a pessoa intérprete educacional que trabalhou com eles em sala de aula. Tivemos uma relação agradável desde o primeiro momento.

Desde as primeiras visitas, percebemos que a escola era um lugar em que conviviam pessoas com diversas culturas e histórias e que foram marcadas por ideias, valores e emoções. A escola, “é uma instituição social complexa marcada por influências variadas e contraditórias ao longo da história. [...] a escola atual não é resultado de um processo evolutivo contínuo, mas fruto de revoluções e movimentos marcados por conflitos de interesses e ideias” (MACIEL; RAPOSO, 2015, p. 79). Estes momentos foram importantes para a compreensão das especificidades da escola e das pessoas que estiveram presentes durante nossa pesquisa, o que nos permitiu compreender o espaço-tempo escolar como sendo um espaço rico em possibilidades, no qual os interesses de diferentes pessoas se mesclavam de forma sui generis, em que existiam movimentos autotransformadores. Nesta direção, as pessoas constituíam a e, ao mesmo tempo, eram constituídas pela8 subjetividade social da sala de aula.

O processo de escolha da pessoa intérprete educacional para participar da pesquisa foi simples. Chegamos até a escola em setembro de 2017 e perguntamos a uma professora da sala de recursos qual pessoa intérprete educacional era formada na área de Ciências. Ela nos disse que havia um docente. Ele atuava em uma sala de 3.º ano do ensino médio do

8De acordo com teoria de González Rey (2005a), o sublinhado utilizado em nosso texto visa realçar a

colégio e era a pessoa intérprete educacional de quatro estudantes surdos. Nesse mesmo ano de 2017, entramos em contato com o docente, explicamos sobre nossa pesquisa e ele se propôs a auxiliar, dizendo que ficaria à disposição no ano de 2018. Conversamos com ele, em 2018, e ele seria a pessoa intérprete educacional de uma turma de 1.º ano do ensino médio e teria cinco estudantes surdos com ele. Acompanhamos as aulas de Química e de Física com essa pessoa intérprete educacional atuando junto aos estudantes surdos.

Os estudantes surdos, desde os primeiros contatos, se mostraram abertos ao diálogo. Assim, trabalhamos com os cinco estudantes surdos, pois todos eles se colocaram à disposição, de forma voluntária.

De acordo com a Epistemologia Qualitativa, os meios de produção de informação estão muito além do uso de instrumentos adequados. González Rey (2010) afirma que “não são os critérios de sua construção que definem o valor dos instrumentos, mas é a qualidade da informação que eles propiciam que deve ser construída e interpretada pelo pesquisador” (p. 333). Os instrumentos são como indutores para envolver os sujeitos de forma emocional e propiciam a expressão simbólica deles, em que emergem sentidos subjetivos. Assim, o sujeito participante da pesquisa é compreendido a partir “de sua expressão aberta, autêntica, capaz de expressar seus desejos, necessidades e contradições, processos esses que não aparecem de forma direta na palavra” e, por isso, a pesquisa se baseou “em uma relação dialógica orientada para a abertura de novos espaços de troca e reflexão” (GONZÁLEZ REY, 2010, p. 333) que, pela sua autenticidade, envolveram as emoções do sujeito – o que foi condição essencial para a emergência dos sentidos subjetivos. O sujeito é quem constrói e legitima os seus sentidos subjetivos e as suas configurações subjetivas.

No nosso trabalho, geramos novas inteligibilidades teóricas a partir dessas categorias: sentidos subjetivos e configurações subjetivas individuais e sociais. Essas categorias não universais precisaram ser construídas na pesquisa, a partir dos indutores, e criaram autenticidade por informações que não apareceram de maneira direta nas expressões dos participantes, mas foram “essenciais para se gerarem novas inteligibilidades teóricas sobre o problema estudado” (GONZÁLEZ REY; MITJÁNS MARTÍNEZ, 2017, p. 39). De acordo com os autores, os indutores nos possibilitaram acesso a um conjunto de informações, mas não fazem parte de um processo dedutivo e nem indutivo. Eles foram gerados no processo comunicativo e pudemos ter acesso a produções subjetivas.

A subjetividade assim colocada, por meio dos sentidos subjetivos e das configurações subjetivas que se desenvolvem na ação do sujeito, “é inseparável da rede simbólico subjetiva que configura cada ação humana” (GONZÁLEZ REY, 2010, p. 332). Nessa rede, emoções e processos simbólicos atuais “são inseparáveis de outros sentidos subjetivos que resultaram dos efeitos colaterais de experiências já vividas, e que hoje representam a configuração subjetiva da pessoa em que se expressaram as experiências anteriores” (GONZÁLEZ REY, 2010, p. 332). Compreendendo a subjetividade desta forma, não é exequível compreendê-la a priori, por meio de categorias universais (GONZÁLEZ REY, 2010). Então, buscamos compreender a singularidade do sujeito que aprende. Acompanhamos os participantes no dia-a-dia da sala de aula e utilizamos indutores escritos e não escritos para facilitar a expressão desses participantes nas diferentes vivências que aconteceram ao longo desta parte empírica da pesquisa.

Os participantes estiveram presentes em momentos em que se desenrolou a pesquisa empírica, assinados os devidos Termos de Consentimento Livre e Esclarecido. Fizemos para o responsável de cada estudante surdo e também para a pessoa intérprete educacional e professores regentes de Química e de Física (apêndice A e apêndice B, respectivamente).

Acompanhamos o dia-a-dia da sala de aula, os procedimentos de aula e os processos avaliativos que compuseram o cenário educativo da turma, lembrando que perguntamos aos professores, à pessoa intérprete educacional e aos estudantes surdos sobre suas visões acerca do cotidiano escolar e tivemos muito contato e processo dialógico com eles durante todo o ano de 2018. Nessa direção, a Teoria da Subjetividade se encaixou nos objetivos do nosso trabalho.

Neste trabalho, estudamos a subjetividade social, pois entendemos como questão a ser estudada e que exige os mesmos recursos que o estudo das configurações subjetivas individuais. Segundo González Rey e Mitjáns Martínez (2017), as configurações subjetivas são, aliás, “material importante para o estudo da subjetividade social, uma vez que cada indivíduo concreto expressa processos da sociedade em que vive por meio de seus próprios sentidos subjetivos gerados pela configuração subjetiva individual de suas experiências de vida” (p. 81). Os estudantes surdos também têm particularidades e visões idiossincráticas a respeito de variados temas pessoais, do cotidiano e, mais especificamente, também do processo educativo.

Sendo assim, sabemos que a aprendizagem acontece de maneira singular, mas em um contexto social, e que estes instrumentos utilizados para produção de informações foram sendo construídos e realizados de acordo com o cotidiano desse grupo. Esta foi uma pesquisa que se desenvolveu a cada momento e os indutores não foram feitos previamente, mas, como apresentado, foram construídos no decorrer da pesquisa, foram mudados conforme a necessidade, a qualquer momento, porém de acordo com o que percebíamos no contexto do processo ensino-aprendizagem de cada um. Compreendemos o processo de aprendizagem que ocorreu “no âmago da produção de sentido continuamente articulada como uma configuração subjetiva singularizada” (TACCA; GONZÁLEZ REY, 2008, p. 159-160).