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B- Modèles basés sur l’existence de deux sous-populations

6 CONCLUSION

Por conta do trabalho de transformação exigida dos autores latinos com relação aos textos anteriores, alguns estudiosos preferem utilizar a noção de

encontrar em suas obras temas bucólicos, mas Virgílio foi sem dúvida o primeiro a transpor em latim o grande modelo, o inuentor da poesia pastoral. Também os contemporâneos de Virgílio parecem tê-lo considerado como o Teócrito romano.” THILL, op. cit., p. 41.

363 “Trata-se de um jogo de Virgílio, que se desdobra como um dramaturgo em vários personagens, dentre

os quais alguns se assemelham mais a ele que outros (algo válido também para o romancista).” Ibid., p. 46.

364“As desgraças da guerra civil na Itália se opõem ao sonho de uma vida bucólica e protegida da qual o

170 intertextualidade às de imitatio e de aemulatio. É o caso de M. Eigeldinger, para quem a “integração” e a “metamorfose” pressupostas pela intertextualidade correspondem melhor ao que faz um autor como Virgílio.365 Também G. B. Conte e A. Barchiesi utilizam o conceito, em um artigo intitulado “Imitazione e arte allusiva. Modi e funzioni dell’intertestualità”. Os autores acreditam que a relação intertextual é mais ampla e mais adaptada, pois engloba o fenômeno de copresença de um texto em outro:

Il vantaggio è che raggionando in termini di intertestualità non si esclude ciò que imitatio o "arte allusiva" sanno cogliere e ci si adatta a comprendere molto di più. Per esempio, l’attività cooperativa del lettore che il texto prevede vi è compresa allo stesso titolo che la trasformazione dei modelli operata dall’autore.366

Para os autores do artigo, a noção de imitatio não abrange a importância do papel do leitor na cultura latina. A própria formação escolar praticada na Roma antiga estava próxima da prática intertextual, através da leitura e da reescritura dos textos gregos. Embora se trate de um conceito recente, a intertextualidade parece compreender melhor os fenômenos de releitura apresentados nos textos latinos: tal como acontece nos textos modernos e contemporâneos, os textos se absorvem e se transformam, mas seu sentido se constrói apenas a partir da intervenção do leitor. De acordo com M. Potolsky:

Imitatio takes many different forms in Roman (…) literatury, from verbal echoes and allusions to full-scale rewritings of prior works, translations, imaginary dialogues with ancient authorities, even parodic overturnings of classical ideas.367

Eigeldinger define a intertextualidade como um movimento de integração e de metamorfose. O texto anterior é absorvido pelo texto novo, e passa a fazer parte de outro contexto. Quando um poeta latino se apropria de um ou vários textos gregos, ele retoma um enunciado para inseri-lo em um sistema diferente

365 EIGELDINGER, M. Mythologie et intertextualité. Genève: Slatkine, 1987. p. 16.

366 “A vantagem é que pensar em termos de intertextualidade não exclui as características que imitatio ou

"arte alusiva" possuem, e o termo moderno se adapta muito mais à compreensão. Por exemplo, a atividade de cooperação do leitor previstas pelo texto é entendida da mesma maneira que a transformação dos modelos feita pelo autor.” CONTE, G. B. & BARCHIESI, A. “Imitazione e arte allusiva. Modi e funzioni dell’intertestalità”. In CAVALLO, G. et al. Lo spazio letterario di Roma

antica. Volume 1. Roma: Salerno Editrice, 1989. p. 88.

367“A imitatio assume muitas formas diferentes na literatura (...) romana, desde ecos verbais e alusões a

reescrituras completas de obras anteriores, traduções, diálogos imaginários com os cânones antigos, até mesmo transformações paródicas de ideias clássicas.” POTOLSKY, op. cit., p. 53.

171 e estabelece, dessa forma, uma espécie de troca entre os textos:

La citation ou allusion n’est pas introduite au hasard dans le texte; elle occupe une place déterminée par le narrateur et s’inscrit dans l’espace intertextuel où se compose la signifiance. Mais la principale fonction de l’intertextualité est transformatrice e sémantique. Il ne s’agit pas de réproduire à l’état brut le matériau d’emprunt, mais de le métamorphoser et de le transposer.368

A identificação com a teoria do intertexto apresentada por Eigeldinger, Conte, Barchiesi, entre outros, se deve principalmente a um artigo de 1942, escrito pelo filólogo G. Pasquali. Em “Arte allusiva”, Pasquali distingue as reminiscências involuntárias das alusões e citações. Estas últimas não funcionam sem um leitor que se recorde dos textos dos quais as referências provém. A consciência da relação entre um texto e outras obras é o que o filólogo chama de arte alusiva. Pasquali também enfatiza o papel do leitor, que precisa estar preparado para identificar as referências e, portanto, compartilhar o repertório literário do autor.

A importância de tal artigo residiria justamente no fato de ter aberto uma via diferente para os estudos das relações entre os textos antigos antecipando, de certa forma, a teoria da intertextualidade. Os textos nos quais a imitatio é descrita, como os tratados de Quintiliano e de Cícero, reforçam o fato de se tratar de uma atividade crítica, na qual o escritor precisa desenvolver a capacidade de julgar os textos anteriores.

Esse aspecto é colocado em evidência também em textos como a Arte Poética de Horácio e Da imitação de Dionísio de Halicarnasso. Segundo Dionísio, existiam duas formas de imitação, uma dependente do contato prolongado com um modelo e a outra, resultante das normas da retórica. Esse segundo modo apresentaria o inconveniente de não assimilar a essência do modelo imitado, restringindo-se a uma reprodução mecânica e artificial:

ll faut fréquenter les écrits des anciens, afin d'y puiser non seulement de la matière pour le sujet mais aussi de l'émulation pour les particularités d'expression (…). L'âme du lecteur, par une constante

368 “A citação ou alusão não está inserida aleatoriamente no texto; ela ocupa um lugar determinado pelo

narrador e faz parte do espaço intertextual no qual se forma a significação. Mas a principal função da intertextualidade é transformadora e semântica. Não se trata de reproduzir em estado bruto a matéria- prima tomada de empréstimo, mas de metamorfoseá-la e de transpô-la.” EIGELDINGER, op. cit., p. 16. Grifos do autor.

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application, finit par assimiler le caractère de style.369

Nota-se aqui a importância conferida à recepção do texto e, ao mesmo tempo, do autor como leitor. A leitura é vista como o estabelecimento de uma interação na qual o leitor tem parte ativa. Nesse sentido, a imitatio se aproxima muito da intertextualidade, para a qual o leitor tem um papel central.

Embora a aproximação entre a imitatio e a intertextualidade apresente vantagens consideráveis, há quem faça ressalvas a tal comparação. É o caso de F. Goyet, que no texto “Imitatio ou intertextualité?” contesta a teoria de M. Rifaterre segundo a qual todo e qualquer texto derivaria invariavelmente de outro. Sem a identificação dos hipotextos é possível compreender o sentido de um texto, mas não seu significado.370

Segundo Goyet, a intertextualidade depende completamente da cultura do leitor, pois cabe a ele determinar os textos presentes em outro, sendo principalmente uma teoria da leitura. O crítico distingue o intertexto da citação, pois esta última convoca nominalmente outro texto e, portanto, revela sua relação com este. Já o intertexto pressuporia referências implícitas, cuja identificação dependeria totalmente dos conhecimentos do leitor. Apenas a alusão, palavra cujo sentido teria mudado radicalmente ao longo do tempo, constituiria um fenômeno intertextual. Até o século XVII, era considerada alusão tudo o que se convencionou chamar jogo de palavras, pois o vocábulo latino allusio proviria de ludus:

Jeu sur les mots, et en particulier sur les noms propres, comme dans les Allusiones de Du Bellay. Le pape Caraffa fait penser à une carafe (...). En revanche, l’allusion au sens moderne, qui apparaît avec les classiques, est une sorte de clin d’oeil, de sous- entendu.371

Tanto o sentido antigo quanto o moderno fariam da alusão algo dirigido exclusivamente ao leitor, e cujo sentido existiria apenas na compreensão deste.

369 “é preciso conhecer a fundo os escritos dos autores antigos, a fim de buscar neles não apenas material

para os assuntos mas também a emulação de expressões particulares (...). A alma do leitor, através de uma aplicação constante, termina por assimilar o caráter do estilo.” DENYS D'HALICARNASSE.

L'Imitation. Première lettre à Ammée. Lettre à Pompée. Géminos. Dinarque. Paris: Les Belles Lettres,

1992. p. 31. O texto francês traduz “Dioniso” por “Denis”, por isso utilizamos as duas formas.

370 Cf. RIFATERRE, M. La production du texte. Paris: Seuil, 1979.

371 “Jogo com as palavras, em particular com os nomes próprios, como nas Alusões de Du Bellay. O papa

Caraffa lembra uma garrafa (...). Por outro lado, a alusão no sentido moderno, que surge com os clássicos, é como uma piscadela, um tipo de subentendido.” Ibid., p. 314.

173 A intertextualidade seria, para Goyet, ligada apenas à leitura; já a imitatio seria uma teoria restrita à escritura. Instrumento de trabalho exclusivo do escritor, a identificação ou não das “fontes” pelo leitor não teria grande importância, e não comprometeria o significado do texto. Em outras palavras, a imitatio seria apenas a reprodução de ideias e/ou expressões de outros autores, mas seria dispensável para o leitor:

Je citerai donc un (...) grand praticien de l’imitatio, Philippe de Béthune. Dans un carnet manuscrit daté de 1618 (...), Béthune explique en détail comment on peut produire quantité de phrases en les décalcant d’une phrase source. On est en plein dans l’imitatio, dans la source comme ressource. Mais on est aux antipodes de l’intertextualité, car Béthune veut que sa source ne soit pas reconnue, qu’elle ne devienne pas allusion. Il intitule en effet sa méthode "Forme de tirer des phrases d’un auteur sans qu’il y paroisse" et il conseille : "Desrober si finement et subtilement qu’on n’apperçoive pas le lieu d’où les phrases ont été prises".372

Para o crítico, a imitatio – que ele não restringe aos textos latinos – é uma simples cópia, e não implica em mudanças com relação ao texto anterior. O reaproveitamento feito pelo escritor não pressuporia nenhum tipo de diálogo entre os textos, apenas a transposição de determinados elementos de uma obra para outra. A imitatio pode até ser vista como uma teoria para escritores, mas é importante lembrar que todos passaram por leituras atentas de seus modelos antes de poder chegar ao “decalque”. Além disso, Goyet parece negligenciar o contexto no qual nasce o conceito, isto é, uma literatura – e uma cultura – baseada na leitura dos textos gregos e mesmo latinos precedentes, e na qual a identificação da “fonte” era essencial, e constituía a prova da capacidade do escritor de adaptar a(s) obra(s) de outro(s) a seus próprios textos.

Outro crítico, S. Hinds, acredita que o uso da intertextualidade para textos antigos apresenta alguns problemas, dentre os quais o mais importante é a despersonalização atribuída pela teoria à escritura. A reutilização de imagens, frases e expressões de outros autores seria, segundo a

372“Citarei um (...) grande praticante da imitatio, Philippe de Béthune. Em um manuscrito de 1618 (...)

Béthune explica com detalhes como é possível produzir muitas frases a partir de uma frase-fonte. Isso se insere totalmente na imitatio, na fonte como recurso, mas é o oposto da intertextualidade, pois Béthune não quer que sua fonte seja reconhecida. Ele chama seu método de ‘Forma de aproveitar frases de um autor sem dar na vista’ e aconselha: ‘apropriar-se de modo tão sutil que ninguém identifique o lugar de onde as frases foram retiradas.” GOYET, F. “Imitatio ou intertextualité?”. In

174 intertextualidade, uma prática puramente associável ao uso dos topoi. Hinds admite que a visada de estudiosos como U. Eco e G. B. Conte, que levam em consideração a subjetividade autoral é interessante, mas não substitui certos pressupostos de base do intertexto, como o “mosaico de citações” de J. Kristeva. A teoria não levaria em conta as escolhas de cada autor, e as alusões presentes nos textos privilegiariam a intenção de convocar certos textos: aplicar o conceito de intertextualidade às literaturas grega e latina excluiria destas a figura do autor. Dessa forma, contrariamente ao que afirma Goyet, a alusão é para Hinds a noção mais adequada a ser aplicada à literatura latina:

One of the most persistent ways in which both Roman and modern readers construct the meaning of a poetic text is by attempting to construct from (and for) it an intention-bearing authorial voice, a construction which they generally hope or believe (in a belief which must always be partly misguided) to be a reconstruction; and the author thus (re) constructed is one who writes towards as implied reader who will attempt such a (re) construction.373

Contra a aplicação da intertextualidade para a análise de textos latinos, é possível dizer ainda que o papel do leitor não é exatamente o mesmo que no conceito de imitatio. Para um leitor contemporâneo de Virgílio, importava reconhecer os trechos e temas retirados de autores anteriores e apreciar a renovação trazida pelo poeta novo: o texto antigo, porém, não passava por outra leitura e nem por qualquer tipo de questionamento, resultado geralmente atingido quando se fala de relação intertextual. Entretanto, quando o leitor apreciava a mudança de contexto, ele considerava o texto anterior de acordo com uma nova perspectiva e, de certa forma, o lia de maneira diferente. Ainda que não questionasse o "hipotexto", o leitor percebia sua potencialidade e, ao mesmo tempo, admirava a capacidade do poeta novo de torná-lo parte de sua obra e, de certa forma, a interação entre o antigo e o novo.

Com todas as reservas que possam existir quanto ao uso da intertextualidade para o estudo de textos antigos, essa teoria nos parece um instrumento apropriado por colocar em pauta a importância do papel do leitor –

373“Uma das formas mais empregadas por leitores romanos e modernos para a formação do significado

de um texto poético é a tentativa de construir uma intenção autoral, uma elaboração que os leitores esperam ou acreditam (crença essa sempre parcialmente errada) ser uma reconstrução; e o autor assim (re) construído escreve apenas para o leitor implícito que tentará tal (re)construção.” HINDS, S.

Allusion and intertext. Dynamics of appropriation in Roman poetry. Cambridge: Cambridge

175 ao contrário do que afirma Hinds. E o fato de se tratar de uma teoria extremamente ampla é igualmente importante, pois permite englobar as relações estabelecidas entre escritores de várias épocas e estilos.

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