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Um dos informantes mencionou importantes marcos científicos no avanço do tratamento do câncer:

a) novas tecnologias de imagem: permitiram a identificação de tumores em fase inicial da doença, aumentando as chances de cura e tratamento;

b) descoberta dos quimioterápicos e o desenvolvimento de novas drogas em apoio ao tratamento: ajudaram a tonar curáveis muitos tipos de câncer e a diminuir e controlar melhor os efeitos colaterais no organismo;

c) progressos na área de Radioterapia: promoveram menos seqüelas53 decorrentes do tratamento e a redução das áreas afetadas por meio de procedimentos cada vez mais precisos e restritos à área onde se localiza o tumor;

d) evolução das técnicas cirúrgicas: tornaram-se cada vez mais refinadas e eficazes no controle da doença, inclusive com a diminuição das mutilações e suas conseqüências na vida social do doente;

e) surgimento dos cuidados paliativos: fomentaram novas ações no cuidado aos doentes em estágio avançado, com melhora no controle da dor e outros sintomas.

Segundo um informante, apesar dos progressos da quimioterapia e da radioterapia, a cirurgia “continua sendo a grande arma no tratamento oncológico”, embora no futuro sua importância tenda a decrescer, em razão de tecnologias menos agressivas ao organismo:

É um tratamento agressivo54, né?! embora sejam agressivos todos os tratamentos de

câncer. Porque inclui uma incisão, um corte, enfim, uma retirada de órgãos e substituição por outras coisas. É o tratamento mais agressivo que existe porque a partir do momento que você tiver um resultado igual, num outro tipo de tratamento, aí você deixará de fazer cirurgias, a cirurgia atuará como coadjuvante do tratamento. Aí vai fazendo coisas menores, que sobraram, porque até este momento a cirurgia é a grande arma efetiva no tratamento do câncer. Existem alguns tumores que não são da esfera da cirurgia. Não são todos. Porque, o que é que não se opera em oncologia? São as leucemias e são os linfomas, basicamente. De resto, todos os outros tumores são operáveis ou tratáveis cirurgicamente (médico-cirugião).

Assim como as outras áreas direcionadas ao tratamento do câncer, a cirurgia no HOL ganhou grande impulso nas últimas décadas, adquirindo um significativo prestígio no âmbito das especialidades médicas, especialmente na área da Oncologia, tando em vista os benefícios no controle da doença com a retirada de tumores. Numa alusão ao passado, um dos pioneiros nessa área relatou como era o panorama dessa área médica:

53 Cirurgiões e radioterapeutas demonstraram grande preocupação com as informações sobre o tratamento, pois,

segundo eles, há irreversibilidades decorrentes de alguns procedimentos, como as amputações e as aplicações de radiação.

54Grande parte das entrevistas enfocou os efeitos adversos decorrentes dos métodos de tratamento como uma

“agressão” ao organismo, uma metáfora bastante usada nos depoimentos. Embora representem as formas de intervenção disponíveis no campo biomédico que visam à erradicação da doença por meio de uma ação externa, ora por extração, ora por acréscimo ou ação de substâncias, o objetivo é sempre destruir o que causa a doença para que organismo recupere a saúde.

[...] Evoluiu muito. Naquela altura a coisa era feita meio que de uma forma artesanal. A gente fazia cirurgia, fazia quimioterapia. Era uma família o ‘Ophir Loyola’. Aí foram entrando segmentos, outros segmentos foram implantados e era uma Instituição grande. Com grande número de leitos. Com procedimentos mais complexos. Não sei até que ponto aquela época era melhor do que hoje, não sei se é saudosismo, mas existia um tempo maior pro cliente. Hoje existe muita tecnologia, novas técnicas de cirurgia, a gente teve que acompanhar isso tudo. E avançou sobretudo o diagnóstico. Eu acho que por imagem. Porque àquela altura, era um raio X simples, contestável. Hoje tem ultrassom, ressonância, tomografia. Essas tecnologias se sofisticaram muito e enfim. E os métodos de diagnóstico avançaram por demais. E conseqüentemente, o tratamento também avançou neste sentido (médico-cirugião).

De acordo com um dos informantes, antes da criação da Divisão, o tratamento quimioterápico era feito por um dos membros da cirurgia com formação em Oncologia. Ele mencionou os progressos ocorridos também nessa esfera do tratamento, antes realizado de forma modesta, haja vista a pouca variedade das drogas disponíveis:

Tomou um grande impulso a quimioterapia, que naquela época ainda era muito resumida, restrita. Praticamente era feita com a finalidade de suprir a ansiedade do paciente porque ela pouco trazia subsídios pra tratamento. Era feita em doentes terminais mesmo, já sem nenhuma condição e os resultados eram muito precários. Hoje, a quimioterapia é um elemento valioso, com essas novas drogas e tudo, no arsenal do tratamento. Naquela altura era meia dúzia de drogas só55 (médico-cirugião).

Em relação à indicação da quimioterapia naquela época, perguntei ao médico o que os levava a realizar o procedimento se apenas poucos benefícios eram esperados. Esta pergunta me pareceu procedente, pois atualmente, apesar da variedade de medicamentos disponíveis, muitos doentes, mesmo sem esperança de cura, submetem-se ao tratamento. Meu objetivo com a pergunta era compreender até que ponto certos tratamentos são apenas tentativas de alguns médicos - ainda que não reconheçam esse fato como verdade - de lidar com o sentimento de impotência frente à doença e à sensação de “não estar fazendo nada pelo doente”.

Como resposta à minha indagação, os médicos falaram que, naquela época, havia resultados favoráveis, ainda que pequenos, embora com maiores seqüelas para o doente, tanto é que algumas drogas usadas continuam ainda em uso. No entanto, hoje, o aumento da eficácia da quimioterapia é atribuído principalmente à associação de diferentes drogas e à aplicação de doses maiores desses medicamentos, aliada a um controle hematológico mais eficiente que facilita um relativo controle sobre os efeitos adversos do tratamento.

55 Com o desenvolvimento da quimioterapia, novas substâncias têm sido lançadas no mercado. Com os avanços

nessa área, aumentaram também as possibilidades de tratamento da doença pelo saber médico oficial, fato que provocou uma corrida pela descoberta e comercialização de novas medicações.

Durante as entrevistas, vários cirugiões abordaram assuntos relacionados à quimioterapia, principalmente pelo fato de que alguns deles também realizavam o tratamento. Um deles chegou a referir o modo diferenciado de processar o tratamento em duas especialidades. Segundo eles, a cirugia implica a retirada do tumor e a quimioterapia, a exemplo também da radioterapia, envolve a sua destruição, sendo que em ambas o objetivo é deter o avanço da doença. Mas, enquanto a cirurgia é uma terapia substrativa, a quimioterapia é um método aditivo (LAPLANTINE, 2004), pois implica a utilização de drogas com o objetivo de destruir o tumor.

Os informantes ressaltaram que, em primeiro lugar, a ênfase do trabalho médico deve estar direcionada ao diagnóstico precoce da doença, visto que as chances de cura estão diretamente relacionadas ao controle de seu avanço no organismo. Segundo eles, embora as técnicas tenham surgido e evoluído, a natureza do tratamento do câncer também tende a se modificar, dependendo de quando o diagnóstico é realizado, o que estabelece uma importante diferença entre as perspectivas de cura e de paliação da doença. Um dos informantes acredita que as técnicas de tratamento deverão sofrer significativas mudanças no futuro e, certamente, produzirão menos seqüelas para o doente:

Você não pode achar normal ter que tirar uma mama, que seja normal fazer radiação, fazer quimioterapia, colocar um veneno muito tóxico dentro da pessoa, como coisas aceitáveis para o futuro. Essas coisas são feitas hoje porque a gente não tem uma coisa melhor. É aceitável, hoje, porque a gente tem uma taxa de controle da doença relativamente alta, mas eu acho que o futuro deve reservar tratamentos menos agressivos aos pacientes (médico da Radioterapia).