A investigação desenvolvida por António Damásio no âmbito da neurobiologia vem reforçar o pensamento filosófico de Merleau-Ponty. Também Damásio atribui uma importância maior ao corpo como referência temporal, espacial, experiencial e emocional, na relação do ser humano com o mundo. Neste sentido, o corpo opera como uma espécie de fronteira entre o que designa por
dentro e fora, permitindo estruturar informações relativas a objectos e a ideias.
A inteligência procede, em última análise, dos dados que pelo corpo sentimos. O processo de construção das imagens mentais é explicado por António Damásio (2003) como tendo início no contacto de zonas específicas do corpo (em que estão alojadas sondas sensoriais especiais) com os objectos8. Por imagem,
Damásio quer-se referir a imagem mental (ou padrão mental), não construída apenas a partir da visão, mas das várias modalidades sensoriais, admitindo o contributo dos vários sentidos. Daqui resultam alterações temporárias, cujos sinais são transmitidos ao sistema nervoso central, dirigidos a regiões capazes de fazer os mapeamento das várias sondas. Então, “as imagens que temos na nossa mente, (…) resultam de interacções entre cada um de nós e os objectos que rodeiam os nossos organismos, interacções essas que são mapeadas em padrões neurais e construídas de acordo com as capacidades do organismo” (DAMÁSIO, 2003:224-225). Assim, os padrões neurais constituem uma espécie de levantamento selectivo do visível (CARMELO), matéria base que permitirá o posterior desenvolvimento semiótico, enquanto o mapa designa um “padrão relacionado com um objecto” (CARMELO cita Damásio, 2002:65). Por isso Damásio afirma a impossibilidade de se isolar
8 Damásio usa o termo objecto “num sentido lato e abstracto: uma pessoa, um lugar e um instrumento são objec-
uma percepção pura de um objecto, já que esta resulta da combinação de dois géneros de sinais: os sinais sensoriais e os sinais que têm origem nos necessários ajustamentos do corpo, para que aconteça a percepção. Prefere por isso o termo somatossensorial (do grego soma, que significa corpo) – por estar nele implícita a participação dos vários sentidos. É então o corpo que está na base da consciência, e por extensão, do sentido de si no acto de conhecer. A formação da consciência pode ser resumida a dois momentos essenciais: a narrativa por imagens da interacção do corpo com o objecto, e o avivar das imagens relativas a esse objecto, traduzidos por um mapeamento não linguístico de uma sucessão de eventos, no “conhecimento de que o nosso organismo foi modificado por um objecto” (DAMÁSIO, 2006:200). O sentimento é a primeira forma sob a qual se manifesta esse conhecimento; num segundo momento, dá-se o relato (ainda imagético) do processo de transformação vivido pelo corpo, sendo que esta descoberta se dá em simultâneo com o processo de representação do objecto:
Em conclusão, o conteúdo essencial dos sentimentos é um estado corporal mapeado num sistema de regiões cerebrais, a partir do qual uma certa imagem mental do corpo pode emergir. Na sua essência, um sentimento é uma ideia, uma ideia do corpo, uma ideia de um certo aspecto do corpo quando o organismo é levado a reagir a um certo objecto ou situação. Um sentimento de emoção é uma ideia do corpo quando este é perturbado pelo processo emocional, ou seja, quando um estímulo emocionalmente competente desencadeia uma emoção.”9
O pensamento decorre do fluxo de imagens dessa narrativa. Consequentemente, o “objecto torna-se parte da relação com o organismo no qual e ao qual tudo isto está a acontecer” (DAMÁSIO, 2006:203), o que equivaleria a dizer em termos filosóficos, que o corpo acolhe em si o objecto. A tomada de consciência dessas imagens, e o facto de haver um sentimento a elas associado, resulta num certo sentido de pertença, na possibilidade de afirmar que, se têm nelas impregnadas os aspectos singulares do meu corpo, então estão no meu corpo – e então, são minhas. A construção do conhecimento procede da capacidade
3DAMÁSIO, António - Ao Encontro de Espinosa. As Emoções Sociais e a Neurologia do Sentir. Publicações Europa-
individual de mapeamento do que vai acontecendo ao longo da vida: “no
interior do nosso organismo, à volta do nosso organismo, ao nosso organismo
e com o nosso organismo, numa sucessão causal e incessante” (idem:221); o
corpo, partilhado pela emoção, pelo sentimento e pela consciência. O facto
de a imagem que vemos provir das alterações motivadas pela interacção do objecto com o nosso corpo, resulta na impossibilidade de identificar uma imagem única para um dado objecto, já que a percepção é condicionada pelo
aparelho de que dispomos. Não há imagens finais, o que há é um processo de
construção fundado na comunicação dos traços particulares do objecto e dos efeitos por ele provocados no organismo: “quando falamos do sentimento de um certo tom de azul, (…) estamos de facto, a referirmo-nos ao sentimento afectivo que acompanha a nossa percepção desse tom de azul” (idem:169). Conhecer um objecto pressupõe senti-lo; ser afectado por ele. Então tudo o que somos e tudo o que fazemos é conhecido orgânica e afectivamente. Projectar uma cadeira implica reavivar as memórias afectivas que a ideia
de cadeira transporta para mim, e tranferir pelo desenho essas qualidades,
desejando proporcionar a quem a usar as experiências que pela imaginação sou capaz de antecipar.
Embora partindo de discursos ontologicamente distintos, percebe-se uma continuidade entre o pensamento de Maurice Merleau-Ponty e as descobertas de António Damásio: é no corpo, enquanto organismo sensível, que se fundam as noções de identidade e de pessoalidade, donde se deduz que os traços de originalidade visíveis através do desenho são manifestações de diferenças que começam efectivamente a estabelecer-se na singularidade do design interno do
organismo.