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George Bataille levou a cabo o desenvolvimento filosófico do conceito do Informe, explorado nos anos 1920 que veio a tornar-se crucial para todo o seu trabalho e foi teorizado e reconfigurado no campo da arte do vigésimo século Uma das preocupações centrais é a tentativa da reconfiguração das práticas artísticas vanguardistas e modernistas e mover-se além do pensamento limitado da relação entre a forma e conteúdo. L` informe encerra o conteúdo e forma exterior, não sendo termo, nem sendo forma, o informe, é como Bataille considera: um trabalho. A exploração do poder do informe descreve uma alteração não só no registo morfológico ou semântico de um objecto, mas também na sua grelha interpretativa, é a sublimação da matéria base em detrimento da forma estética.

Ver tornou-se um meio de ganhar conhecimento e compreensão. Esta tendência

modernista dá prioridade ao visual em relação aos outro sentidos. Um aliado poderoso é a

importância da forma vertical em detrimento da horizontal, o visual e o vertical demarcam as diferenças entre o humano e o seu intelecto e o animal, associado à forma horizontal aliado à importância dos sentidos olfactivos e tácteis. O informe, pode ser então concebido através de uma simples rotação e desorientação do corpo; pelo cultivo da fragmentação da representação. Bataille desenvolveu o conceito de base que implica um mecanismo para arquivar o informe; em L´Informe: mode d´emploi, Krauss e Bois tentam mostrar os princípios operacionais do conceito que rompem e incomodam, apresentando quatro categorias definidas por Bataille que contém ensaios que caracterizam o informa: materialismo base, horizontalidade, pulsão e entropia. A função desta classificação de categorias é desclassificar as unidades gerais da história da arte: estilo, tema, cronologia. No caso da horizontalidade, a natureza operacional do informe é a mais óbvia. Através de uma rotação axial da vertical para a horizontal coloca-se o trabalho da forma mais insistida por Bataille. O homem tem orgulho na forma erecta, emergida do estado horizontal de animal; na horizontalidade este orgulho encontra uma repressão. O vertical não tem sentido biológico.

A moldura e plinto foram ambos dispositivos importantes e metáforas usadas para separar o trabalho artístico do resto da matéria. O acto de emoldurar e colocá-lo num plinto é uma forma de elevação e glorificação. O foco estava na materialidade da obra, onde a realidade esvaziava das suas pretensões transcendentes e abraçava a materialidade ignóbil, uma noção que seguiu as obras de Bataille. A centralização da arte na forma horizontal para criação ou percepção derrubaram a forma.

Para Bataille, o informe é a categoria que permite todas as categorias serem impensáveis. Este termo permite pensar na remoção de todas as fronteiras dos conceitos que organizam a realidade. Bataille resistiu dar uma definição sobre o que é o informe, neste sentido classificou o informe no seu sentido de adjectivo, sendo um meio de descrever as coisas e objectos. Bataille enfatizou o modo como o informe opera, envolve a acção de desclassificar e destabilizar a forma. O objectivo do informe é desfazer o sistema de significado através do esbatimento das distinções entre a forma e matéria, dentro e fora. Esta noção do informe não propõe um significado transcendente através de um movimento dialéctico de pensamento. O limite dos termos é encarado por Bataille como produção informe transgressiva através da purificação, constituindo-se por um assalto agressivo à realidade.

Neste desejo de desfazer e destruir os limites que contêm a forma, o informe pode ser comparado ao abjecto pelas tendências semelhantes. Em discussões entre teoristas de arte tornou-se aparente que L´Informe tem similaridades com o conceito de abjecto de Kristeva.

(…)teoristas da arte vanguardista como Hal Foster, Benjamin Buchloh, Denis Hollier e Helen Molesworth,tiveram uma discussão de mesa redonda intitulada de “ The Politics of Signifier II: A Conversation on the “Informe” and the Abject”, que considera a relação entre os conceitos relacionados do informe e abjecto…3 (Arya, 2014, p.118)

No Retorno do Real Foster pergunta se será que o abjecto poderá pode ser representado? Se é inconsciente pode-se considerar abjecto ao tornar-se consciente? Ao contrário do abjecto, o informe é capaz de escapar à classificação e trazer a deformação onde a forma significante se dissolve pela distinção fundamental entre figura e terreno, eu e o outro, no obsceno onde o objecto de contemplação é apresentado como se não houvesse nenhuma moldura para o conter. Nenhum dos conceitos pode ser realmente definido pelo o que é, em vez disso pode ser definido por aquilo que não é, o informe não é a forma do objecto mas sim a sua negação; o abjecto não é sujeito,

nem objecto mas ocupa esta ambivalência num espaço indeterminado entre estes elementos e experienciado pelo efeito que tem no sujeito. Ambos os conceitos estão também ligados pelo modo como operam, o informe rompe o continente e similarmente o abjecto previne o sujeito de ser contaminado, por se constituir como uma perpétua ameaça. Os conceitos partilham uma proximidade com a materialidade. Estes dois termos em diálogo com uma relação linear, intima, transicional:

o informe tem um destino que alcança para além da sua conceptualização nos anos 1920 para encontrar o seu destino dentro da produção artística contemporânea, está no reino do que é entendido como “abjecção 4. (Krauss, 1997, p.235)

Bataille ligou a criação do abjecto à proibição, dizendo respeito à ordem social. A principal diferença entre as definições de Bataille e Kristeva é a importância que esta última confere à psicanálise, para ela, o abjecto envolve o retorno do reprimido. A compreensão de Bataille não envolve a psicanálise tendo raíz sociopolítica onde denuncia a rejeição e exclusão em relação à sociedade desfragmentada. Bataille entende o abjecto como derradeira exclusão das coisas abjectas, onde discute a ausência de privilégios em certos grupos sociais, a dificuldade da classe laboral e outros grupos marginalizados.

No desenvolvimento do seu conceito, Kristeva foi influenciada pelo pensamento de Bataille em geral e não apenas especificamente sobre a sua visão do abjecto. A noção do sagrado para Bataille envolve o abraçar do outro e constitui uma partilha na ontologia do sujeito e objecto. O sagrado envolve a irrupção e deslocação de fronteiras espaciotemporais do dia-a-dia. No Eroticismo de Bataille, a abertura de alguém em experienciar o sentido de perda do eu (la petite mort) envolve a transgressão das fronteiras. O eroticismo envolve o abraçar do abjecto ultrapassando o nojo que não só temos pelos nossos fluídos corporais mas também pelo os dos outros. A interpretação da abjecção em Bataille é sobre a exclusão e subjugação do que foi ordenado como dejecto, lixo. No seu estudo, Kristeva é muito mais neutra na sua atitude em relação ao proibido, em Povoirs de L´Horreur discute como no decorrer da vida quotidiana medidas foram tomadas para controlar e purificar o abjecto. O reino da arte representa uma esfera diferente de actividade, nos quais os que estão inclinados em desvendar a verdade escondida escolhem agitar através do horror primordial.

Foster defende que pela sua natureza, o abjecto está para além da representação, deve ser caracterizado pelos seus efeitos, pela sua

acção destabilizadora do sentido de subjectividade e por dissolver o significado. Defende que ao nomear certos objectos como abjecto como os fluídos corporais subestima-se a habilidade do abjecto em destabilizar o sujeito porque é descrito com recurso aos mesmos objectos; ao descrever objectos como abjectos substancia-se o que é e desfaz a operação do abjecto.

Bataille argumenta que os elementos abjectos mesmo aqueles que foram negados, têm um papel determinante em termos de agente de atracção erótica, e este exemplo torna claro o valor de tais elementos na possibilidade de transformar a repulsa em atracção. A ruptura destabiliza as fronteiras entre o sujeito e objecto, o sujeito perde a noção do “eu” e o objecto não pode ser objectificado. Neste estado em que o sujeito e objecto estão para lá da sua condição, assiste-se a um momento de união.

De qualquer perspectiva que olhemos, com distorção, a desclassificação, o informe terá sempre forma. Apesar das tentativas em escapar ao mundo da forma o informe depende da forma para se tornar informe. É impossível evadir-se do significado e esta problemática de impossibilidade foi enfrentada por Bataille na sua formulação do conceito de informe e na teorização de Kristeva sobre o abjecto.

Em Le Gros Orteil Bataille ilumina uma parte do corpo ignorada pela sua natureza ignóbil. Os dedos dos pés permanecem escondidos, apesar de serem extremamente importantes para a nossa natureza básica para manutenção de balanço corporal. Boiffard fotografa este dedo grande e confere-lhe uma proporção épica que o torna não familiar, estranho. As fotografias de Le Gros

Orteil foram acompanhas, no Documents 6 em 1929, pelo artigo Les Gros Orteil de Bataille, no qual o dedo grande é engrandecido pelo close-up dramático isolado e rodeado pelo negro. Numa imagem só

sobressai a ponta do dedo, noutra vê-se o dedo todo, é fotografado de cima, parecendo que o dedo está de alguma forma, pendurado. Esta sugestão fetichista e fálica contrasta com a similitude de fotografias médicas. Neste artigo Bataille desenvolve a ideia de materialismo base, o qual usará para a reparação o materialismo dialéctico, e os ideais do grupo surrealista de Breton. Com ironia, sugere que o dedo grande é a parte mais humana do corpo. A noção de Bataille convém numa mensagem de que enquanto certos objectos, cenas, partes corporais e funcionais nos enojam, somos inevitavelmente seduzidas por elas.A abjecção tem sido predominantemente discutida na relação com o visual e é fácil perceber porque é que teóricos e críticos tendem a gravitar através do aspecto visual do abjecto,

especialmente dado que o aspecto visceral e somático da fenomenologia do abjecto conduz mais prontamente à expressão visual. A importância do trabalho de Bataille para o estudo do abjecto foi fulcral, considerou-se os seus textos teóricos principalmente focados nos temas do sagrado e do informe, contribuíram para uma melhor compreensão e desenvolvimento das interpretações do conceito de abjecto de Kristeva. Focamo-nos agora nos seus romances, por se constituírem num factor importante por envolverem a aplicação de ideias desenvolvidas nos seus escritos teóricos. Os seus romances apresentam uma diferente face do sagrado, é mais negro e destrutivo.

resposta de abrir a ferida ainda mais, olhar o horror cara-à-cara e reconhecer a sua identidade dentro do reino da transgressão.5 (Arya, 2014, p. 175)

Um dos mais perturbantes e controversos aspectos do romance é a tipologia do desejo das personagens que envolvem cenas de leite, ovos e testículos de boi e actos de transgressão moral, como masturbação em confissões religiosas e fornicação com um padre: L

´histoire de l´Oeil. Após o escândalo de uma orgia, iniciada pelas

duas personagens principais, o narrador e Simone, o narrador foge de casa para escapar às terríveis garras do seu pai, ao fugir entra numa atmosfera suicida. A história anda à volta de Marcelle, uma amiga considerada como a “the purest and most affecting”( Bataille, 1982 p.12) personagem que o fascina. Incapaz de alcançar o nível de experiencia de perda de controlo pelos outros, Marcelle masturba-se dentro do armário durante a orgia. A sua pureza de isolação responde contra o animalismo dos outros exploradores. Simone é uma personagem particularmente abjecta, o narrador é o melhor posicionado para reflectir a sua depravação. A sua abjecção não é apenas dada pelo acto de transgressão mas também por ser material de fantasia masculina, o seu olhar sugere tudo o que esteja relacionado com uma sexualidade mais profunda, como sangue, sufocação, terror, crime. O seu distúrbio é manifestado no seu desejo maníaco de partir ovos com as costa, inserir o testículo de boi na vagina e num acto de blasfémia, estrangular o padre durante a actividade sexual e como se o horror não tivesse acabado, o olho do padre morto ainda acaba por ser inserido na sua vagina e ânus. A proximidade do sexo e da morte excede os limites da obscenidade.

L´histoire de l´Oeil é a apoteose da abjecção e envolve o

abandono de sentido e significado. Uma das maneiras de compromisso com este romance é ver as personagens como seres abjectos desumanizados. O romance é uma constante perturbação da

ordem simbólica que é representada pela autoridade paternal, a lei, religião, moral e toda a história implica a transgressão destas estruturas. Viola-se a fronteira da prática significante demonstrando a prática transgressiva. A mistura de órgãos e orifícios acentua o nível de nojo, o olho tão prezado na vida cultural é visto em termos eróticos desviantes pela sua cópula com zonas erógenas. As imagens sugeridas neste romance são perturbantes e destabilizadoras, um ovo partido, um olho furado, um sol que urina, tudo isto faz parte de um jogo erótico que intercepta os esquemas da linguagem convencional e normalidade social. A erupção da força semiótica do erótico que cria a excessividade das imagens.

Hans Bellmer criou imagens ilustrativas deste romance, tanto ilustrações como fotografias, um trabalho fotográfico que evoca choque, repulsão, nojo. Este romance é irremediavelmente abjecto, situa-se para lá dos limites da ordem sociocultural. Expõe que a depravação é central ao colectivo psíquico e mostra que a adição, ganância, obscenidade e comportamentos indesejáveis são potencialmente universais. As perversões sexuais acompanhados de sexo e violência encorporam a ideia de transgresão.