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Cas de figures principaux

6.3 R` egles de modification du secteur angulaire

6.3.1 Cas de figures principaux

Muitos dos trabalhos artísticos apresentados podem causar sensações no observador, medo, horror, nojo, despertam facilmente essa sensação porque visualmente envolvem a anulação de limites e o medo acompanha esta perda de controlo. É um efeito invasivo que não afecta meramente o intelecto, mas desperta sensações que nos afecta emocionalmente e psicologicamente. A característica que estes trabalhos têm em comum é a motivação estética em trazer a abjecção e a obscenidade à superfície que ocorre através do processo de observação e sensações duais de repulsa e fascínio. Há uma intimidade entre o artista e observador porque está implicada a participação do observador de várias formas onde os seus limites são testados. Observar Gina Pane cortar a cara induz uma sensação abjecta, gerando sensações de ansiedade até à necessidade de vomitar. Esta acção é muito mais chocante do que a mutilação de outra parte do corpo pelo estatuto social e cultural conferido à cara como significante de individualidade, e pelo facto de, no Ocidente ser a parte do corpo mais exposta. As reacções e reflexões do público tornam-se o sujeito do trabalho traçando o movimento abjecto, o sujeito torna-se objecto, vitimiza o corpo auto-mutilado, questionando o papel da audiência na prática de observador. A dinâmica do ver está aqui problematizada, não se pode falar de sujeitos ou objectos mas apenas em níveis de actividade e passividade. Os observadores assumem o rolo de observador passivo, contudo o nível de atenção é elevado pelo testemunho da acção intensa.

Algumas obras pedem mais do observador, por exemplo

Rhythm O, 1974 de Marina Abramovic, onde a participação da

audiência é convidada a objectificar a artista e usar setenta e dois objectos. O público torna-se o instigador da acção que vai decretar a forma como a acção evolui. Abramovic mantêm-se passivamente em silêncio numa acção que dura seis horas. Os objectos variam: uma faca, pistola, bala, lamina, batôn, jornal, pão…

Abramovic deixa de ser o agente e autora da acção para uma situação de submissão com estatuto de objecto. Exercícios como este

são acções artísticas que reflectem a psicologia humana, testam os limites do comportamento humano levantando questões sobre o funcionamento do observador.

O que é perturbante nestes exemplos de performances ou body art é exactamente esta inabilidade em manter as fronteiras do Eu. Somos desfeitos por acções violentas que afectam o sentido do Eu, tornamo-nos abjectos por contaminação pelo que vimos e experienciamos necessitando de enveredar por um processo de catarse ou colapso antes do significado e identidade sejam reconfigurados. O processo de tornar o abjecto de forma literal leva- nos para além do convencional social e testa os limites do aceitável, propondo dilemas éticos aos observadores, refere-se também à questão da relação entre arte e realidade. O que acontece ao corpo nestes actos é traumático porque este é ferido. O realismo gráfico das acções oferece uma autenticidade aos observadores que respondem como se as acções fossem reais e sentem-se horripilados pelas cenas que se desenrolam à sua frente. Contudo, há um estranho empenhamento em testemunhar a operação do abjecto no qual o artista submete o seu corpo, uma necessidade de ver e experienciar a ferida do corpo. De acordo com Amelia Jones o objecto de arte exerce, no espectador, um fascínio obsessivo e poder fetichista, “Todas as imagens que exibem a violação de um corpo atraente são, até certo ponto, pornográficas. Mas as imagens do repulsivo podem também seduzir. “(Sontag, 2003, p.101). As noções do olhar na crítica contemporânea estão ligadas à definição de Lacan de como o olhar opera no enquadramento da psicanálise. Central a este conceito está o olhar que pré-existe o sujeito pelo mundo exterior. Lacan difere entre o ver e o olhar. O olhar é decisivo em relação ao que possa existir atrás da cortina, o outro para além da aparente superfície cria-se um diálogo com o que jaz atrás da imagem, o olhar, o objecto, o real. Por outras palavras, o olhar significa a tensão entre a representação e real, o olhar interfere com a visão, distrai-a. O sujeito olha o objecto, mas o objecto olha para o sujeito também. A força do olhar é medida na imagem e cultivada pelas convenções da representação.

A transgressão das fronteiras causam sentimento de ansiedade e simultanemanete excitação pelo trespassar da proibição . No corpo isto acontece quando o que está dentro do corpo como fluídos ou vísceras vêm à tona, quando o que é suposto ser privado se apresenta a público, quando há uma profanação do corpo. Assuntos considerados tabus como: a violência sexual, incesto, morte… são explorados em modos específicos. O nível de desconforto vai

aumentando por estas actividades ocorrerem em espaços públicos na presença de outros. A natureza pública do que normalmente é privado é de importância fundamental. Na esfera privada pensam-se e exploram-se ideias que envolvem abjecção. Longe do olhar dos outros há um sentimento de segurança em entreter estes pensamentos. A mudança para a arena pública desmantela esta segurança que se tem em privado.

A Olympia de Manet, de 1863, que foi considerava escandalosa quando foi pela primeira vez exibida em 1865 no Salon de Paris. Ao contrário de hoje, onde se veria a mulher despida numa posição sexualizada, de uma forma mais ou menos banal, na época considerou-se uma enorme transgressão. O que é apontado como transgressão está relacionada com a cultura e a sociedade.As comunidades e sociedades criam regras, proibições e tabus para salvaguardar o equilíbrio emocional e a estabilidade social, mas é claro que o impulso para transgredir está profundamente enraizado em nós. A transgressão usada pelos artistas desafia noções de beleza clássica, desrespeita os limites e destabiliza; é uma estratégia visual e estética que permite a reconfiguração do objecto de um modo interessante e inventivo, onde a estrutura normal da obra se torna um lugar de experiências ameaçando a estabilidade da norma. Nos trabalhos artísticos aqui apresentados estão presentes dualidades e paradoxos, situações estranhas ou repulsivas, presencia-se sensações de fascínio e simultaneamente sentimentos de medo. Reconhece-se uma beleza estética, juntamente com uma repugnância, estamos perante um confronto ao ameaçador, perante uma ambivalência da obra: apreciar esteticamente um assunto de natureza vil e simultaneamente uma tentativa de repelir o fascínio imundo, há inconscientemente uma atracção e uma aversão. Segundo Aristóteles o princípio da arte resume-se à mímese, onde a obra de arte pode não representar apenas coisas belas mas também representar coisas feias: “Aquelas mesmas coisas que, na natureza, não conseguimos olhar sem repugnância, se as contemplarmos nas suas reproduções artísticas, excelentes se forem representadas o mais realisticamente possível, dão-nos o prazer, como, por exemplo, as formas dos animais mais desprezíveis e dos cadáveres.” A razão da justificação de tal juízo consiste no descobrir e reconhecer o que é que cada imagem representa e não num motivo estético. A noção de Sublime e o sentimento de terribilitá são relevantes para entender este sentimento duplo, é-se submetido a algo simultaneamente belo e ameaçador. Há um misto de inocência e visão romântica na tentativa

de denunciar a beleza do “feio”. “O abjecto transborda de Sublime… é um mais que nos excede…”7 (Kristeva, 2007, p.19)

O paradoxo do horror concerne a questão de como podemos ser atraídos ao que é repulsivo, mas como explicar o desejo de olhar ou ler alguma coisa que elicita horror e inclui sentimentos de nojo e medo? Como explicar o compromisso com este tipo de material, que gera emoções que vão para além do medo ou nojo que nos transporta para a sensação de náusea e nesse sentido gera o abjecto. A dinâmica dual da atracção-repulsa pode ser directamente mapeada na nossa experiencia de horror e o propósito é facilitar a dissolução do eu, que ocorre quando se experiência medo, acompanha-se sentimentos como o choque deixando-nos suspensos da realidade quotidiana. Isto é porque que o repelente é tão apelativo: transporta o observador num sentido sensorial e psicológico para um efeito poderoso.

Étant Donnés de Marcel Duchamp (1946-1966) captura o

desejo do olhar e convida o observador, de forma isolada, a ver através de um orifício um ambiente secreto, privado e experienciar uma cena desconcertante através de dois buracos que se situam à altura do olhar numa porta de madeira que sela o cenário. Atenta-se a um corpo feminino, despido, sexualizado, mas a aparente sensualidade de espreitar esta intimidade é quebrada pela posição em que de pernas abertas dá a conhecer o seu orgão sexual deformado e pela ausência da cabeça. O corpo decapitado surge no imaginário como cadavér violado. O desejo do olhar é controlado pelo olhar do desejo, onde sensações ambíguas emergem, o fascínio de consumir o cenário perturbador e simultaneamente temê-lo.