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Toda pesquisa começa com a necessidade de se responder a uma inquietação do pesquisador sobre determinado tema. Algo que só poderá ser respondido e compreendido após o levantamento e análise criteriosa de vários dados. A questão crucial apresentada no final da entrevista foi sobre o alcance dessa ‘resposta inicial’, perguntando ao entrevistado: após esse trabalho, você conseguiu responder à sua inquietação inicial sobre a ID? E hoje, após a conclusão e defesa de sua pesquisa, você acredita na ID como instrumento de inclusão social após ter sido um observador/avaliador tão próximo dessa realidade? O QUADRO 27a Considerações acerca do problema de pesquisa e o QUADRO 27b – Considerações acerca da pesquisa realizada refletem, respectivamente, a opinião dos entrevistados em relação à resposta que obtiveram ao seu problema inicial de pesquisa e sua opinião particular sobre a ID ao final da investigação:

QUADRO 27a

Considerações acerca do problema de pesquisa

Respondeu ao problema de pesquisa proposto %

Conseguiu responder à sua inquietação inicial e se deu

por satisfeito 10 40

Respondeu à inquietação inicial, mas teve sua

preocupação aumentada 11 44

Não respondeu à sua inquietação inicial e não se

prontificou a fazê-lo posteriormente 1 4

Não respondeu/não soube responder 3 12

Total 25 100%

Elaborado pela autora, 2010

a) Conseguiu responder à sua inquietação inicial e se deu por satisfeito: para dez dos entrevistados, 40% do total, os questionamentos iniciais sobre a ID foram inteiramente solucionados:

 “Tive condições de verificar que para contribuir os pontos de inclusão digital

devem atuar junto a outras entidades comunitárias. É preciso adicionar um valor agregado a essa ação, como forma de aplicabilidade de informações acessadas. Sozinhos, os usuários, pelo menos no começo, não conseguem atuar como difusores de informação, até porque eles não tem consciência desse papel. [...] Consegui comprovar minhas hipóteses. Principalmente compreendi essa função multifacetada das ações de ID” (Entrevistado 31)

 “Consegui confirmar a impressão que eu tinha de que há um potencial e se

bem explorado ele pode resultar em avanço sim, não só do ponto de vista de geração de renda e desenvolvimento socioeconômico, mas do ponto de vista pessoal mesmo, de mais uma possibilidade [...] das pessoas se desenvolverem mais como pessoas. [...] E pode ser comprovada a insipiência disso tudo, está tudo muito no início, se sabe muito pouco [sobre a ID] e o pouco que se sabe não é sistematizado. Não foi o resultado que eu queria, fiquei decepcionada, mas fiquei satisfeita porque foi o melhor que eu pude fazer” (Entrevistado 10) b) Respondeu à inquietação inicial, mas teve sua preocupação aumentada, o que

fomentou maior estudo a respeito: ao todo, onze pesquisadores, 44%:

 “Piorou, porque agora eu quero responder de verdade… E não mais no campo

pura e simplesmente da inclusão digital, e sim da inclusão digital em determinado segmento. [...] Eu continuo acreditando nesses quatro itens [acesso à educação, produção de conteúdo, fortalecimento da identidade cultural e alfabetização] e ainda continuo acreditando que eles não estão atendidos.” (Entrevistado 1)

 “Os resultados de minha pesquisa responderam a minha inquietação inicial

satisfatoriamente e levantou novos questionamentos sobre o tema, o que mostra que muito ainda tem para ser feito neste âmbito.” (Entrevistado 13)

 “Na verdade, acho que isso é uma resposta que, no fundo, eu já tinha. Então

meio que confirmou. Acho que o que aconteceu foi só aumentar minha inquietação. [...] acho que no fim acabou me gerando mais inquietações, e não acabando com as que eu tinha. Eu fiquei com vontade de trabalhar mais em cima disso. Fiquei com mais questões, com mais vontade de trabalhar, de estudar mais, de ler mais, de pesquisar mais.” (Entrevistado 25)

 “Eu me considero satisfeita no sentido de eu consegui identificar como eram

trabalhadas. Mas insatisfeita com o resultado propriamente dito.” (Entrevistado 15)

c) Não respondeu à sua inquietação inicial e não se prontificou a fazê-lo posteriormente: apenas um entrevistado, 4% se encaixa nessa categoria:

 “Na verdade eu esperava encontrar outras coisas, e o que encontrei foi

totalmente diferente do que eu imaginava. [...] Achava que ia encontrar a inclusão digital acontecendo, a utilização dos equipamentos, e tal. Aí fui chegando a campo, fui vendo que nada disso acontecia. Então eu acho que não, acho que deixei uma série de coisas para serem completadas, para serem estudadas.” (Entrevistado 27)

d) Não respondeu/não soube responder: três pesquisadores, 12%, esquivaram-se em responder a esta questão sem prestar maiores esclarecimentos.

QUADRO 27b

Considerações acerca da pesquisa realizada

Impressão sobre a inclusão digital após o estudo %

Por ter vivenciado esse processo durante a investigação realizada, crê na inclusão digital como instrumento transformador dos aspectos sociais

10 40

Acredita na inclusão digital enquanto teoria de transformação social, mas considera que sua prática está longe de ser alcançada

13 52

Considera a inclusão digital propagandismo sem que

tal resulte em benefícios sociais 1 4

Não respondeu/não soube responder 1 4

Total 25 100%

a) Por ter vivenciado esse processo durante a investigação realizada, crê na inclusão digital como instrumento transformador dos aspectos sociais: para dez dos pesquisadores entrevistados, 40% do total, a ID é uma realidade:

 “Acredito. Eu acredito muito no ser humano. Me encanta perceber que as

pessoas veem de forma diferente as coisas, e eu acho que às vezes elas precisam de oportunidades para entender melhor isso. Tem pessoas muito sábias, fantásticas e que você percebe que só precisavam de uma oportunidade. Isso é muito legal.” (Entrevistado 5)

 “Eu não acho, eu tenho certeza que ela proporciona mudanças!” (Entrevistado 22)

 “[...] a inclusão digital e a inclusão empresarial são capazes sim de promover a

transformação, pois eu vi isso com meus próprios olhos tanto na Mediateca, quanto no grupo de empresários. Mas, se requer um compromisso maior do que simplesmente disponibilizar uma rede de computadores.” (Entrevistado

29)

 “Continuo acreditando, é a única alternativa que a gente tem. [...] Se não tiver

esse trabalho de inclusão digital em algum momento na formação das pessoas, elas não vão conseguir avançar. Passa a ser uma condição para a pessoa viver e se desenvolver, não existe outra forma de se transitar na sociedade sem a

competência do uso da informação.” (Entrevistado 10)

 “Eu acredito. Acho que tem muita coisa pra mudar, mas eu acredito. Acho que

se não acreditasse, eu não conseguiria trabalhar com esse tema. E a gente acaba tendo contato com as pessoas, a gente acaba vendo alguma mudança, às vezes por menor que seja.” (Entrevistado 25 )

 “O que seria de nós sem a inclusão digital, não é? O que seríamos de nós sem

o computador, sem a internet, sem os recursos da web. Como estou trabalhando com cegos agora, eles dizem assim: ‘era um mundo fechado, era um mundo escuro. Hoje, é um mundo claro, hoje é um mundo com mais liberdade, com mais independência, com mais autonomia’. Então é isso.” (Entrevistado 18)

 “Eu acho sim que isso é possível. As pessoas que lidam com o computador,

elas estão sempre atualizadas, mas aquelas que não têm esse hábito, elas vão ficando mesmo à margem disso. [...] deve ter sim essa preocupação da inclusão social, inclusive por faixa etária.” (Entrevistado 9)

b) Acredita na inclusão digital enquanto teoria de transformação social, mas considera que sua prática está longe de ser alcançada: para treze dos pesquisadores entrevistados, 52% do total, a ID pode suscitar modificações sociais para o meio onde está inserida, mas essa possibilidade ainda é bastante utópica:

 “Pensar nesse processo de inclusão digital antes da minha tese era pensar em

associar todo esse movimento na disponibilidade da tecnologia. No meio, vinha o acesso. E agora vejo que se já tem tecnologia e já tem o acesso, você precisa ter produção inteligente vinculada a tudo isso. [...] E eu, infelizmente cheguei, no final da tese mas não vi ainda a chegada do movimento da produção. [...] Algumas coisas não sustentam, outras nem chegam a serem

feitas, existem iniciativas poderosas por aí afora, nós passaríamos um dia inteiro só listando o que tem de bom no país. Mas passaríamos uns dois listando o que tem de ruim. Então veja, um para bom e dois para ruim. É

meio… É um contraponto de análise, mas que ao mesmo tempo o que me

deixa satisfeita é que está sendo feito, pior é se não estivesse sendo feito” (Entrevistado 1)

 “Sou muito otimista. Onde tem acessos, tem processos e tem relações. E esta é

a sociedade do aprendizado. Isso é como o futuro, que eu vejo, mas atualmente nós estamos ainda no acesso, mudando um pouquinho para poucos processos, mas nem todo mundo tem acesso, e até não ter o acesso completo, não deixaremos de falar de inclusão digital. [...] Vamos chegar um dia a uma

sociedade do aprendizado. Não acredito que seja nessa geração.”

(Entrevistado 6)

 “Cheguei à conclusão de que o acesso pode promover diferencial, uma vez

que permite ao cidadão portador de deficiência conhecer a realidade, acompanhar as mudanças e novidades levando em consideração a interação com outros indivíduos, mas toda essa ambientação estrutural (pública/privada) apenas está engatinhando” (Entrevistado 8)

 “Na verdade, antes de fazer o mestrado, isso era um assunto que… eu via a

tecnologia como um fim, então não dava muita importância para isso. Essa visão social, de que as pessoas, de que a tecnologia precisa ser universalizada, eu não tinha como a maioria dos graduados em informática não tem. Então depois que eu comecei a estudar esse tema, eu achei isso muito importante, porque a gente vê o potencial que tem a tecnologia. Se a tecnologia for bem utilizada, [...] isso dá ao país um potencial muito grande. Hoje eu penso assim: que a inclusão digital se não for para se chegar à inclusão social, ela não tem justificativa de existir. Então, eu acho que é possível, não é uma tarefa fácil, é uma tarefa complicada, complexa, mas é possível sim.” (Entrevistado 11)

 “Penso que a inclusão digital deve estar envolvida a uma proposta de

letramento informacional, com capacitação especifica para que a inclusão social possa se efetivar. [...] No inicio do mestrado considerava que a questão da língua era o maior entrave, barreira para o surdo não ousar em suas buscas por informações em ambientes digitais, hoje vejo que a questão da inclusão digital é mais abrangente ainda.” (Entrevistado 13)

 “A vida de uma pessoa com a inclusão digital. Eu acho que é possível, eu

acredito, eu quero acreditar que é possível, porque eu acho que a pessoa tendo o acesso, a pessoa tendo competência para utilizar os equipamentos, tendo competência para agregar com aquilo que ela está aprendendo, com aquilo que ela está usando, acho que ela pode mudar muita coisa na vida dela. Eu acredito, eu quero acreditar que sim.” (Entrevistado 27)

 “Bem, acredito sim no papel transformador do acesso a informação. Com isso

acredito que a ID é de fato um dos caminhos para inclusão social. Mas vejo que é preciso pensar na continuidade do processo de acesso a inclusão e não apenas no de provedor. [...] após estudar conceitos de sociologia, compreendi que sozinho é uma ação pontual. Cabe ao governo prover formas de integração social que sirvam de subsídio para construção de coesão social. Assim as pessoas passarão a se preocupar com a necessidade do outro, da comunidade e não apenas nas suas. E esse comportamento se repetirá no acesso a informação.” (Entrevistado 31)

 Acho que poderia ser mais social, porque o objetivo do telecentro é para a

era o que eu queria. Acho que a ID não atinge o seu objetivo [que seria a inclusão social]. É uma inclusão social, mas não é uma inclusão social ideal. (Entrevistado 30)

 “Eu acho que ela favoreceria no momento que estivesse trabalhando a

competência informacional também. Por que... acesso, as ferramentas, a internet, não está mudando nada na realidade de vida das pessoas, não está contribuindo, claro que contribui, mas essa questão que eu te disse de ajudar a tirar a segunda via da conta de luz, da isenção do imposto de renda, ... essas coisas assim, mas inclusão social de fato eu acho que a inclusão digital pode, auxiliaria sim se estivesse trabalhando com essa questão da competência informacional, auxiliando as pessoas a tirarem maior proveito mesmo dos recursos públicos que tem na web, utilizar essa ferramenta, porque tem tanta coisa que as pessoas não conhecem.” (Entrevistado 28)

 “Eu acho que ela tem todo o potencial para ser tá? Só que eu acho que ela não

e bem usada. Os programas que existem hoje não são voltados, nem estão sendo bem usados sabe? Mas que eu acho que teria um grande, ela tem um grande potencial para fazer isso.” (Entrevistado 19)

c) Considera a inclusão digital propagandismo sem que tal resulte em benefícios sociais: um pesquisador, 4%, não acredita no a intervenção da ID enquanto agente de mudanças para o meio social:

 “Mais distante, cada minuto que passa está ficando mais distante. Uma

experiência pratica minha: nós estávamos no Itajaí pela instituição aqui do CENEC discutindo aula de internet, o que seria educação a distancia [...]. E eu imaginei nessa discussão ‘e se o senhor lá de 60 anos quiser usar essa ferramenta?’ Sabe o que eles me falaram? ‘A gente não vai dar curso pra senhor de 60 anos.’ [...] eu tenho medo, meu pai por exemplo eu sei que ele está ficando muito distante disso, minha mãe, meu pai, a domestica que cuida da nossa casa.” (Entrevistado 26)

d) Não respondeu/não soube responder: um pesquisador, 4%, esquivou-se em responder a esta questão sem prestar maiores esclarecimentos.

As considerações finais acerca da pesquisa realizada demonstram, apesar de todos os obstáculos relatados, que o entrevistado conseguiu responder aos questionamentos propostos inicialmente, ainda que outros aspectos não previstos tenham suscitado inquietações posteriores. Mas, as palavras do pesquisador quanto a sua crença na ID enquanto mecanismo de inclusão social ultrapassou as constatações obtidas por estes em suas investigações. Por mais que seus depoimentos apresentassem por repetidas vezes inconformidade e incredulidade quanto à ID, sua última observação a respeito foi majoritariamente favorável à ID. Seria essa uma contradição contundente à própria investigação científica realizada ou seria apenas um desabafo esperançoso de um ser humano diante de seu semelhante?

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