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Conclusion

Dans le document 252 CAHIER DU LAMSADE (Page 35-38)

Vimos que a política para Badiou, seguindo os passos de Rousseau, vai além da condição animal. Nesta condição animal não se poderia encontrar a política como pacto fundado na ação coletiva pelo bem comum. Por isso Alain Badiou definiu que a biologia é a filosofia do capitalismo, alusão ao fato de que a simples busca pelo benefício individual típica do capitalismo é uma condição comum aos

animais. A construção de um projeto novo, a construção de um projeto que busque o bem comum deve ser um esforço de superação da condição animal, um projeto humano.

Em polêmica com Jean-Claude Milner, escritor, pensador e ex-militante maoísta, Alain Badiou discutia o conceito de política reforçando esta mesma ideia. Milner definiu nesta discussão que a política “é a questão dos corpos e da sobrevivência”. Esse é ao fim e ao cabo o núcleo duro da política em seu conceito. “Efetivamente uma discussão política somente se torna séria quando se enfrenta a esta questão” (BADIOU; MILNER, 2014b, p.45), afirmava Milner, ex-camarada de Badiou durante o maio de 68 francês. Badiou então aproveita a definição para saltar e apontar sua divergência radical.

Afirma que a questão da sobrevivência dos corpos é o que não lhe interessa. Afinal de contas, continua Badiou, todos morremos e a natureza neste sentido é a mais criminosa de todas, fabrica montanhas de cadáveres. Lembra ainda que Espinosa dizia que a morte apenas inspirava o pensamento moral ou religioso. A política não pode ser esta redução. Deve ser algo vinculado ao pensamento criativo: “o verdadeiro dado político sempre tem sido o “que é a verdadeira vida?”, o que também pode ser perguntado como “o que é uma vida coletiva no regime da ideia?” (BADIOU; MILNER, 2014b, p.47). E Badiou radicaliza sua posição ao afirmar “não estamos de modo algum ao lado dos corpos e de sua sobrevivência, sim do lado da possibilidade efetiva de que o corpo coletivo possa compartir ativamente uma ideia geral de seu devenir” (Ibidem, p. 46).

A discussão estabelecida é fundamental. A crítica de Badiou se desenvolve no sentido de mostrar que a questão da sobrevivência do corpo participa, no abstrato, do conceito de “biopolítica”, e que no concreto participa dos serviços gerais do Estado. Seu argumento se fundamenta de que tal defesa da política como uma questão de sobrevivência dos corpos acaba servindo à continuidade da ordem capitalista “porque uma vez que se diz que a questão política se resume a questão dos corpos e de sua sobrevivência, é natural que estejamos dispostos a acolher a promessa de prosperidade geral como a promessa adequada” (Ibidem, p. 54).

Badiou insiste justamente na necessidade de um projeto novo. Apaixonadamente defende a necessidade de que se construa, para que se invente uma nova organização que corresponda a nova etapa da hipótese comunista. E neste ponto seu radicalismo contra os intelectuais que definem a política como

sobrevivência do corpo é fundamental. Este radicalismo é a afirmação da necessidade da ideia, da política como pensamento e do papel ativo que os intelectuais devem cumprir para contribuir nesta construção. A esta batalha se liga a sua batalha contra o ceticismo, funcional ao sistema dominante: “o ceticismo é também a possibilidade beata e até a justificação suprema de não se ocupar mais do que de si mesmo porque nada pode mudar no mundo tal qual é” (BADIOU; MILNER, 2014b, p.48).

Ao mesmo tempo reconhece que o ceticismo atingiu a maior parte dos que se envolveram de modo militante, por exemplo, na experiência do maio de 68 na França. Diz mesmo, em 2012, que ainda estamos “imersos no ceticismo político. Todo mundo sabe bem o que passa, as eleições, as “reformas”, as declarações pomposas dos políticos não são nem mais nem menos que a cobertura do conservadorismo mais obstinado. Nada espera disso uma mudança essencial” (BADIOU; MILNER, 2014b, p.48). Mas aí é que Badiou se ergue com toda sua força e declara que a posição cética deve ser combatida.

Hay que promover o ceticismo político? Como é óbvio, creio que não. O que hay que promover é uma tenacidade muito particular, minoritária, combatente, para restabelecer a união entre a ideia e o princípio de organização em uma figura que não existia com anterioridade (BADIOU; MILNER, 2014b, p 49).

Aqui então se expressa toda a força de sua defesa da política como pensamento, como atividade de criação e a responsabilidade dos intelectuais. Tal posição é a que pode se manter fiel à ideia comunista mesmo quando inúmeras indicações colocam o regime do capital como o único possível. E há momentos na historia em que estas condições são as dominantes. Na França do final dos anos 70 em diante isso ocorreu. Intelectuais que abandonaram a ideia, que assumiram a política como pragmatismo terminaram capitulando.

A posição de Badiou, porém, deveria ser relativizada. Partindo de que é preciso afirmar como verdadeiro de que a política deve ser definida como a defesa de ideias, de projetos e de construção coletiva, não se pode deixar de considerar que para as grandes massas a política é antes de tudo despertada pela sobrevivência do corpo. Que a filosofia não consegue ser feita se necessidades básicas não são atendidas já se sabe desde pelo menos Aristóteles, e a satisfação ou não destas necessidades tem um enorme peso político. Assim, o que não é

aceitável para um intelectual que se diga de esquerda, a saber, guiar sua política pela aceitação do capitalismo quando este encontra-se em pleno desenvolvimento, melhorando em dado momento a distribuição de renda ou as condições de vida, é um fato inevitável para o dia a dia de amplas massas.

As massas não podem ter como eixo de sua atividade a ideia. Fazem a experiência antes de mais nada com suas condições materiais de existência. E aqui justamente a ponte entre a segunda etapa da ideia comunista e a terceira etapa ainda indefinida começa a se estabelecer. Como isso está se operando?

Quando Badiou corretamente criticava Milner, por sustentar uma política que se resumia à sobrevivência do corpo, dizia que

é natural que estejamos dispostos a acolher a promessa de prosperidade geral como a promessa adequada. Se a ideia não tem nenhum papel no assunto, se o único princípio da política é a sobrevivência, por que não desejar ardentemente as mercadorias, medicamentos incluídos, para uma sobrevivência agradável, e, portanto, desejar mais que nada o dinheiro graças ao qual as obtemos? (BADIOU; MILNER, 2014b, p. 54).

A resposta é que de fato este é o desejo de massas, mas nem sempre o capitalismo consegue atendê-lo. Ao contrário, a tendência do desenvolvimento do capital é excluir desta “sobrevivência agradável” massas de operários, de trabalhadores em geral, de imigrantes, de jovens, de camponeses e indígenas. Então, quando Badiou diz que há uma “adequação absoluta entre a doutrina segundo a qual se pode e se deve esperar concerne a sobrevivência dos corpos, e a ideologia segundo a qual, com o capitalismo moderno, temos encontrado a chave para a prosperidade contínua” tal adequação se torna inconsistente justamente quando a estrutura do capital revela sua tendência imanente à crise.

Estamos aqui discutindo a falta de simetria, para usar conceitos clássicos da segunda etapa do comunismo, entre as relações da vanguarda e das massas com a política. Se para os setores da superestrutura política, para os ativistas e intelectuais é fundamental assumir a política como atividade criativa ligada à ideia e ao projeto coletivo, sobretudo à luta pela igualdade, para as massas, a relação com a política é antes de mais nada determinada pelo corpo e sua sobrevivência. Para os ativistas, a responsabilidade é de começar a construção de uma organização revolucionária consciente e que não sucumba aos ciclos do capitalismo. Por isso a importância da organização. Para as massas, trata-se de um processo de experimentação ligada,

sobretudo, às suas condições de existência e, portanto, de produção das suas condições materiais de existência. Isso não quer dizer que sempre para as massas a política se resuma à definição dos corpos e da sobrevivência, mas é seu impulso inicial. E tampouco que a vanguarda não tenha sua ação original enraizada nas condições antagônicas da produção capitalista. E não compreender que para as massas o capitalismo não garante a sobrevivência agradável e que em função desta contradição eclodem processos de crítica e de luta contra o sistema é deixar de ter uma posição materialista sobre o processo histórico.

É claro que tal impulso inicial do movimento de massas confirmado pela retomada de revoluções, depois da crise de 2008, não constrói em si mesmo nem arruma as peças do tabuleiro de uma nova organização política, nem muito menos resolve a ausência destas forças correspondentes a uma terceira etapa da hipótese comunista. Como corretamente coloca Badiou “entre a análise sistêmico e a clarificação política não há transitividade” (BADIOU; MILNER, 2014b, p 37). Mas sem este impulso a ideia comunista não encontra lastro material, força social e, portanto, capacidade realmente criativa.

A separação entre as condições materiais de existência e a política nega profundamente a bagagem teórica de Marx. Mesmo Rousseau não lhe dá suporte para separar política e economia. Sabe-se que Badiou defende que “Rousseau estabelece para sempre o conceito moderno da política” (BADIOU, 1996, p. 271). E segundo Rousseau, “qual a finalidade da associação política?” Sua resposta é clara: “É a conservação e a prosperidade de seus membros” (ROUSSEAU, 2007, p 97).

Apesar disso, Badiou insiste que “é preciso admitir o caráter “a mais” do pacto social originário, sua absoluta “não necessidade”” (BADIOU, 1996, p 272). Esta ideia de “não necessidade” não resiste à crítica. Para Rousseau, o autor que pensou o ser da política, “encontrar uma forma de associação que defenda e proteja com toda a força comum a pessoa e os bens de cada associado, e pelo qual cada um, ao unir-se a todos, obedeça somente a si mesmo e continue tão livre quanto antes” (ROUSSEAU, 2007, p 33), é o problema fundamental, “para o qual o contrato social oferece solução” (Ibidem, p 33). É inconsistente a absoluta “não necessidade” de Badiou. Se o corpo político não consegue responder às necessidades humanas, entre as quais logicamente a sobrevivência material é uma delas, as pressões pela sua dissolução ganham peso. Vejamos mais de perto a relação entre economia e o conceito de acontecimento

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