Como se torna claro, pela leitura dos fluxos emissores para os diversos lugares de turismo, o Porto é a principal origem. No entanto, a cidade pela sua dimensão e vivência assume simultaneamente um papel de destino turístico. Para além de ser um centro económico e comercial que motivaria viagens de negócios, a cidade do Porto oferecia um conjunto de eventos e atividades de lazer, sejam de cariz cultural ou recreativo, significativo e que seriam capazes de atrair os residentes da cidade mas também turistas. Estas afluências teriam necessidades de deslocação, tanto no acesso à cidade como na circulação pela própria urbe. É por isso relevante tecer algumas considerações sobre as relações entre práticas de lazer na cidade e os próprios sistema de transporte.
Na década de 80 do século XIX a cidade era servida por duas estações ferroviárias – Campanhã e Boavista – que embora um pouco afastadas do centro histórico, permitiam a confluência com as linhas e ramais que seguiam para o Minho, Douro e sul. De forma a aproximar as estações do centro económico da cidade, a Companhia Carris de Ferro do
Porto, disponibilizava ligações entre o centro do Porto e as duas estações e até mesmo uma
eram já uma realidade. Esta afirmação compreende-se ainda melhor se for tido em conta o serviço combinado que esta companhia de carril americano estabeleceu com a companhia de caminho de ferro exploradora da ligação à Póvoa de Varzim, onde se acertava que os americanos da Praça Carlos Alberto partiriam para a Boavista 30 minutos antes do horário de partida dos comboios e sairiam da estação da Boavista aquando das chegadas dos comboios provenientes da Póvoa de Varzim ou Famalicão 87.
Essa intermodalidade seria muito útil para o acesso aos eventos realizados no Porto. Reconhecidamente, o Carnaval, a Semana Santa e o S. João são eventos documentados como de atração de multidões às quais se pode relacionar os serviços de comboios extraordinários, criados para proporcionar acesso de maior número de pessoas a estas manifestações. Um exemplo encontra-se naProcissão de Cinzas onde "...com o fim de presencear esta imponente solenidade, veio de fóra muita gente, principalmente das localidades confinantes com as linhas ferreas do Minho, Douro e Póvoa"88.
Relativamente ao que se denominaria atualmente de cartaz cultural, o Porto apresentava um número de espetáculos relevante. A título exemplificativo considera-se uma notícia que efetua o balanço de 655 espetáculos realizados no Porto no ano de 188789. Estes são sobretudo peças
teatrais, óperas, concertos e declamações de poesia. Por este balanço se compreende que na análise de toda a década90 são raros os dias em que não exista pelo menos um espetáculo nos
espaços que a cidade oferecia. Em termos mais recreativos, a cidade conhecia ainda alguns salões para bailes, bem como os cafés onde se efetuavam tertúlias. Sobre os teatros, destacam- se o S. João, Baquet, Príncipe Real, Trindade, Infante D. Afonso, e Chalet, todos eles localizados no centro da cidade. Pressupõe-se que as afluências aos teatros do Porto fosse significativa, ao ponto de os carros americanos efetuarem um serviço especial, denominado de serviço de teatros, que após os espetáculos noturnos mudavam os seus locais de partida para as áreas mais próximas dos respetivos teatros91. Incontornável é também a referência ao
Palácio de Cristal. Pelo volume elevado de referências encontradas, o Palácio de Cristal era
87 O Commercio do Porto (1881), “Novo horario”, 8 de junho, pp. 2.
88 O Commercio do Porto (1880), “Procissão de Cinza”, 12 de fevereiro, pp. 1.
89 O Commercio do Porto (1889), “Os theatros do Porto em 1887”, 14 de janeiro, pp. 2.
90 Com interregno na agenda de espetáculos ocorrido no ano de 1888 que após o incêndio no teatro Baquet registou alguns meses de teatros fechados por questões de segurança.
91 Como se exemplifica com a mudança do local de partida da atual Praça da Liberdade para a Praça da Batalha da carreira de americano com destino a Matosinhos, sempre que havia espetáculos noturnos nos teatros de S. João e D. Afonso, situados nesta última praça [O Commercio do Porto (1880), “Companhia Carris de Ferro
um verdadeiro centro de animação à época. Disponibilizando vários espaços cobertos e ao ar livre para eventos, possuía uma agenda cultural intensa onde se encontram exposições de flores e agrícolas, peças de teatro, concertos musicais, espetáculos de variedades, bailes, conferências, sessões de patinagem, entre outros. As necessidades de deslocação para este espaço eram correspondidas pelos serviços de carros americanos que conforme as necessidades do evento reforçavam as carreiras que serviam o Palácio92.
O setor hoteleiro da cidade, mediante alguns anúncios regulares no O Commercio do Porto também contribui para se compreender a importância do triângulo turismo – animação – transportes. São vários os anúncios de hotéis que destacam nos seus pontos fortes a localização na baixa da cidade, a distância aos espaços de espetáculos e a proximidade às linhas de carril americano93. Alguns hotéis, com o intuito de proporcionar um serviço mais
individualizado e adaptado para a chegada e partida de viajantes com bagagens, disponibiliza serviços de vai-e-vem entre o hotel e a estação de caminho de ferro, mediante carruagem, substituindo-se assim ao transporte coletivo proporcionado pelos americanos94.