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CHAPITRE 2 CONSIDÉRATIONS PRÉLIMINAIRES

2.2 Concept d’utilisation des charges dans un contexte variable

59 É Milton Santos que, como base na filosofia, em especial, a de Lefebvre, nos chama a atenção para o

fenômeno da solidariedade organizacional, aquela que mostra a necessidade que um objeto cria em relação ao surgimento e uso de outros objetos. Clementino dedica grande parte de sua obra “O maquinista de algodão e o capital comercial” a descrição de como as fases de beneficiamento do algodão vão se incrementando (organizacionalmente se solidarizando) a partir do uso de novas máquinas, até chegar à usina moderna.

Após uma longa fase como atividade rural, o algodão ganha espacialidade no urbano caicoense (MORAIS, 1999)61 dedica boa parte de sua obra à análise de como as usinas – em número de três – e, em especial, uma delas incrementou a cartografia urbana caicoense.

Nossa análise parte da premissa da intervenção pela técnica, da relação deste território urbano tecnificado com territórios externos (nacional e mundial). De como a presença das usinas, a partir dos anos de 1930, desenharam uma nova cartografia, pautada por uma solidariedade organizacional traçada a partir da cotonicultura que incrementa antes as áreas rurais, para depois incrementar a cidade, a sua economia e, consequentemente, a sua urbanidade. Como já apontamos, as crises, no principal país da América Anglo-Saxônica, alavancam uma relação mundo-lugar-mundo, que faz da Região do Seridó e especificamente da cidade de Caicó um esteio para a encenação de importantes eventos. Estes, comandados por agentes que promoveram verticalidades.

Por verticalidades, entendemos as ações que vêm do externo e se utilizam das benesses locais em áreas específicas do território. O lugar, um ponto neste território planetário, é visto como “hospedeiro” de um ou mais interesses que despertam o investimento nacional e internacional. A Caicó dos anos de 193062 se insere nesse contexto e chama a atenção para o algodão produzido no Seridó e seu beneficiamento no espaço urbano da referida cidade. Não são só as crises internas dos Estados Unidos, já mencionadas, é também o fato de que a região do Seridó produzia na época um algodão diferenciado conhecido como “Algodão Mocó” de fibra longa que servia mais eficazmente ao setor produtivo nacional e internacional.

Essas verticalidades operam horizontalidades e é aí que reside o fato da expansão urbana da cidade de Caicó. Não nos limitamos a olhar para esta ou aquela área da cidade, se esta ou aquela usina incrementou o lado sul, norte, leste ou oeste. Optamos por olhar para a projeção, pela qual passa a cidade e, como, a partir desta projeção, Caicó referencia a sua condição de centro regional, pois “apenas 10% do algodão era produzido no próprio

município e o restante era proveniente de outros municípios do Seridó oeste Norte-rio- grandense e do sertão paraibano” (MORAIS, 1999, p. 98, grifo nosso)63. Vê-se assim que a cidade que revela uma condição de centro, será, também, atrativa e, consequentemente, receptora de novos investimentos e massas populacionais e, portanto, terá a sua área urbana

61 Morais (1999) em seus capítulos II e IV e em especial, as páginas 94-99.

62 Neste momento histórico, a cidade passa a participar mais efetivamente de uma nova divisão territorial do

trabalho, pois quando O Sudeste se industrializa implementa no país uma nova dinâmica. A reboque desta, a economia algodoeira é beneficiada e tanto a Região do Seridó, como a cidade de Caicó passam a fazer parte dessa dinâmica.

63 A análise que a autora faz é resultado de uma entrevista com o Sr. Wady Rocha, contabilista da usina

expandida, como, também, o incremento de sua economia. É a técnica operada pelos objetos e pelos eventos implantados pelos agentes que refundam a cada instante, a cada novo período técnico, um novo desenho político, econômico, social e cartográfico na cidade.

Sobre os objetos técnicos, já analisamos aqueles que deram suporte aos períodos anteriores e, agora, é mister analisar o desenvolvimento desses objetos inseridos no contexto do período técnico do algodão. Na fazenda, prevaleceu a descaroçagem, onde o trabalho manual foi aos poucos sendo substituído pelos descaroçadores (o engenho de madeira acionado com o pé, um outro tipo movido à energia animal – bois ou cavalos –, a máquina de dois cilindros, a bolandeira e, enfim, o descaroçador de serras ou locomóvel)64.

Toda esta estrutura é apenas o início de um processo de evolução que ascenderia à meia usina e à usina65. Esse processo não se dá isoladamente, mas é resultado de uma série de exigências que o mercado externo impõe ao produtor e beneficiador do algodão. O território rural, agora, não dá mais conta de todo esse processo de beneficiamento que transforma o algodão em fibra têxtil. A cidade será o lócus dos novos objetos e das novas ações. A meia usina e a usina dinamizam o território urbano em seus subespaços de transformação do algodão em pluma. A cidade é a nova tecnoesfera deste processo que vai além, para produzir, também, o óleo da semente do “ouro branco”.

O maquinário, usado nessas duas novas formas de beneficiamento do algodão, é mais tecnologicamente avançado e mais eficaz, no que concerne à produtividade e às exigências externas já citadas. Para acompanhar tais avanços, entram novamente em cena as solidariedades organizacionais. As usinas, em suas intrarrelações de modernização e na relação com o padrão de exigências, que chegam do comprador externo, promovem um constante movimento de alteração dos padrões que formam o contexto urbano, já citados anteriormente e que aqui, enfatizamos, ou seja, aquele que se refere à alteração cartográfica de uma cidade que não para de crescer.

As famílias Diniz, Dantas, Mariz, Germano e Torres, em sucessivas empreitadas em busca do sucesso da “cotonicultura urbana”, aparecem como os agentes importantes que dão fôlego ao que chamamos de alterações políticas, econômicas, sociais e, consequentemente, cartográficas operadas na Caicó do algodão, no século XX. Esses agentes, suas ações e os objetos perfizeram um sistema vital para o desenrolar de intencionalidades, sejam internas ou

64 Clementino (1987, pp. 40-59). A autora se refere aos objetos utilizados na fazenda para que fosse possível

todo o processo de beneficiamento do algodão no espaço das fazendas.

65 Chamava-se de meia usina o conjunto de objetos técnico de beneficiamento do algodão formado por um, dois

ou até três descaroçadores, pois a partir disto o termo mais utilizado passava a ser usina. Vê-se assim que a técnica ou a tecnologia empregada é quem definia a estrutura e o processo da produção algodoeira (CLEMENTINO, Ibid).

as que partem deles próprios, sejam as externas ou aquelas que os movem. Assim, e a partir de tais intencionalidades, o espaço foge da sua condição de abstrato para revelar-se no território usado pelas usinas e, principalmente em subespaços que passam a se comunicar a partir destas. Aí reside a importância do período técnico da cotonicultura para a expansão urbana caicoense. O algodão inferiu a Caicó a condição de principal cidade da região do Seridó. A expansão urbana pode ser observada claramente nos mapas a seguir.

Entre os anos de 1930 e 1970, a cidade cresceu entre as plumas de um desenvolvimento marcado pela indústria usineira do beneficiamento do “ouro branco”. A mancha urbana cresceu de forma impressionante e a cidade avançou para além dos rios que antes a limitavam. Não foram apenas as usinas, a cotonicultura em si e o beneficiamento das sementes do algodão, mas muitas outras intencionalidades que despertaram para o uso de um território dinamizado, a partir do capital cotonicultor. Nos anos de 1970 e 1980, a economia algodoeira do Rio Grande do Norte começa a apresentar sinais de crise, pois “o setor passava de estados de súbita e desenfreada euforia para o desalento e pânico, evidenciando a vulnerabilidade de uma estrutura que depende de fatores externos para colocar adequadamente sua produção no mercado” (CLEMENTINO, 1987, p. 208).

MAPA O? – CAICÓ NO PERÍODO DO ALGODÃO - II