A mente, por considerar (contemplatur) esse movimento corporal impelido pelo corpo exterior e por ser a ideia do corpo existente em ato (EII13), passa a pensar a mesma coisa que antes, isto é, a considerar (contemplatur) o corpo exterior como estando presente, conforme a marca ou signo que lhe foi inscrita pelo encontro entre os corpos. E isso ocorre todas as vezes que essas partes fluidas do corpo encontrarem as mesmas superfícies de forma espontânea. Assim, todas as vezes que se der essa relação de marcas no corpo, a mente considerará os corpos exteriores envolvidos como estando presentes, embora não estejam. Ao fazer isso, a mente imagina.
Essa dinâmica de moleza, fluidez e dureza dos corpos depende tanto da estrutura interna do corpo afetado quanto da estrutura do corpo que afeta. A relação de capacidade de
deixar ou reter traços está diretamente relacionada à resistência de cada corpo frente aos choques que lhes são exteriores e isso, todavia, é importante para o primeiro processo do entendimento em nossa mente que caracteriza o primeiro gênero de conhecimento ou aquilo que comumente chamamos de consciência. Aqui se dá o processo de imaginar, ou seja, de considerar ou contemplar (contemplatur) os corpos exteriores trazendo suas marcas como se estivessem presentes.
Daqui em diante, e para manter os termos habituais, chamaremos de imagens das coisas as afecções do corpo humano, cujas ideias nos representam os corpos exteriores como estando presentes, embora elas não restituam as figuras das coisas. E quando a mente considera os corpos dessa maneira, diremos que ela os imagina (EII17S).
O corpo humano é afetado não apenas por um corpo de cada vez, mas concomitantemente por muitos outros corpos. Se o nosso corpo, por exemplo, foi afetado por dois corpos simultaneamente, sempre que a mente contemplar um como presente, considerará também o outro. Assim, se segue o fato de a mente ser rearranjada pelo conjunto de traços dos corpos que afetam o seu corpo simultaneamente. Isso é o que Spinoza denomina como sendo a ordem e a concatenação das nossas afecções corporais, ou: Ŗé uma concatenação de ideias, as quais envolvem a natureza das coisas exteriores ao corpo humano, e não que é uma concatenação de ideias, as quais explicam a natureza dessas coisasŗ (EIIP18S- grifo nosso).
Essa concatenação das afecções corporais, ou das ideias que envolvem, mas não explicam a natureza dos corpos exteriores, é o que Spinoza denomina como sendo a memória, ou, caso queiramos, guardando as devidas proporções, um termo de David Hume, é o nosso
hábito37. Assim, a nossa memória (ou hábito) é determinada pelo encontro com os corpos
exteriores de modo tal que os traços (vestigia) deixados por essas relações passam a se arranjarem em nossa mente, determinando as nossas ideias.
Enquanto envoltos pelo regime de signos, passamos a crer que as marcas deixadas em nosso corpo ŕ ou que envolvem os corpos exteriores ŕ se reduzem às ideias internas e próprias de nosso intelecto. No entanto, na realidade, esses signos são apenas um conjunto de traços associados conforme nós nos envolvemos e fomos afetados pelos corpos exteriores.
37 Ele nos diz, na Seção XIV, do Livro I, Parte III do Tratado da Natureza Humana que Ŗ(...) após uma repetição
frequente descubro que, perante o aparecimento de um dos objetos, a mente é determinada pelo costume a considerar o seu companheiro habitualŗ (HUME, 2001, p. 197). Assim, primeiro, nós percebemos a sucessão constante de percepções semelhantes, a partir daí, a imaginação forma o hábito e este, por sua vez, gera a crença de que há uma conexão necessária entre tais percepções. Assim, para David Hume, a crença fornece-nos a ideia de conexão necessária. Portanto, podemos dizer que a sequência seria a seguinte: sucessão constante; hábito; crença e ideia de conexão necessária. No caso de Spinoza, esse caráter é antes de tudo corporal, essas conexões são determinadas pelos choques entre os corpos que levam a mente a considerar sua memória como necessária.
Nessa relação com a exterioridade, o corpo que nos afeta continua afetando após a sua
desaparição, a ponto de nos perseguir, como uma espécie de alucinação38, até que o corpo seja
afetado de um afeto que exclua a sua presença.
Compreendemos, assim, claramente, por que a mente passa imediatamente do pensamento de uma coisa para o pensamento de uma outra que não tem com a primeira qualquer semelhança. Por exemplo, um romano passará imediatamente do pensamento da palavra pomum (maçã) para o pensamento de uma fruta, a qual não tem qualquer semelhança com o som assim articulado, nem qualquer coisa de comum com ele a não ser que o corpo desse homem ouviu, muitas vezes, a palavra
pomum, ao mesmo tempo que via essa fruta. E, assim, cada um passará de um
pensamento a outro, dependendo de como o hábito tiver ordenado, em seu corpo, as imagens das coisas. Com efeito, um soldado, por exemplo, ao ver os rastros de um cavalo sobre a areia, passará imediatamente do pensamento do cavalo para o pensamento do cavaleiro e, depois, para o pensamento da guerra, etc. Já um agricultor passará do pensamento do cavalo para o pensamento do arado, do campo etc. E, assim, cada um, dependendo de como se habituou a unir e a concatenar as imagens das coisas, passará de um certo pensamento a este ou àquele outro (EIIP18S).
As imagens (traços ou vestígios) corporais são associadas em nosso corpo de acordo com certa sequência e certa frequência com que elas nos afetam. Assim é que o hábito traz para o interior uma ordem que não lhe pertence, como se tratasse de uma necessidade da natureza. Essa simultaneidade se dá pelo fato de associarmos afecções em conjunto repetidas vezes. Assim, apreendemos, por meio dos sentidos, uma série de concatenações que começa a fazer parte da nossa maneira de afetar e ser afetado, ou seja, nossa forma de ser e estar no mundo. Essas novas associações produzem novas formas de agir com o nosso corpo e novas formas de formular ideias com a nossa mente. Elas passam a produzir nossos hábitos, isto é, associações que se cristalizam em nossas maneiras de agir e de pensar.
A concatenação de afecções do corpo não é, no entanto, apartada do meio público onde um indivíduo vive (seja no caso do agricultor ou do cavaleiro). Somos trans-indivíduos em composição e interação infindáveis. As ideias em nossas mentes não nos pertencem e tampouco as composições de nossos corpos. Somos antes atravessados de ideias e corpos comuns e públicos. Nesse caso, Lorenzo Vinciguerra afirma que os signos remetem a uma regra pública de uso, ou seja, uma comunidade de sentido. A imaginação e a memória,
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Permita-nos, caro leitor, fazer uma digressão sobre esse termo. Algo oportuno e apresentado mais detalhadamente no APÊNDICE: Experiência de unidade - Uma visão alterada. Moreau de Tours define a alucinação nos seguintes termos: « Dans lřétat normal, penser cřest parler intérireurment, dans le cas où se trouve lřhalluciné, cřest parler haut (...) » (TOURS, 1845, p. 352). É comum aos estados alucinatórios uma voz ou pensamentos que saem pela orelha (TOURS, 1845, p.354), algo como falar pelos ouvidos. Spinoza inclusive interessa-se pelos estados alucinatórios de seu amigo Pieter Balling na Carta 17 e também em EIII2S. Em maior ou menor grau, a imaginação promove certa concatenação de vestígios, palavras e imagens e é importante pensar tal aproximação, pois toda a dinâmica do primeiro gênero de conhecimento, como consciência comum, pode ser pensada como reflexos de vestígios exteriores nos cincos sentidos do corpo, isto é, como espécie de eco repetitivo com os quais somos levados a nos habituar ou não.
portanto, são um auxiliar natural, graças ao qual o indivíduo se assegura em suas práticas de
vida em conjunto39.
A imagem comum é, assim, um processo natural de interação dos corpos que
assume uma função geral40. Aqui, os diferentes costumes e hábitos explicam porque cada
língua acumula, junto a sua comunidade, um patrimônio e uma história daquele grupo. A linguagem é uma herança da cultura e do meio de afetar e ser afetado de um povo.
Aqui, a esfera privada, íntima e pessoal de um sujeito, entendida conforme o paradigma do século XVII, é posta de lado. O que caracteriza algo de mais íntimo em nós, sequer nos pertence. A língua, a memória, nossos hábitos, nossos afetos, nossos desejos são uma interiorização de fenômenos exteriores que se cristalizam e, todavia, aquilo que constituía antes um ponto fixo no sujeito, suas ideias e seu corpo, agora é produto da relação, do encontro trespassado com os outros e as coisas.