No nosso caso também o acesso aos trabalhadores ficou facilitado pela inter- mediação da organização sindical. Mas é sobretudo pela necessidade de criar confiança nos trabalhadores que se tornou importante o trabalho de coopera- ção com os sindicatos. Era para nós fundamental os trabalhadores terem ga- rantias de que o que iam discutir não se ia reverter contra eles. Aliás este é o primeiro princípio da ACT: Primum non nocere (Ferreira, 2001).
No cronograma (quadro 19) referimos o início e a duração das etapas que ope- racionalizaram a ACT com os trabalhadores do calçado.
Como já tem sido realçado, mantivemos a posição, de prosseguir com o estudo dos trabalhadores do calçado, tendo nomeadamente nos grupos alguns dos trabalhadores que pertenceram à população dos estudos precedentes.
Assim, planeamos as sessões de ACT com a coordenação do sindicato que abrange a zona geográfica onde nos situamos até agora.
Como ilustra o cronograma, realizaram-se entre Outubro e Novembro de 2001 um grupo de seis sessões de ACT e posteriormente entre Janeiro e Fevereiro um segundo grupo de cinco sessões em localidades diferentes (quadro 19).
QUADRO 19 - CRONOGRAMA DAS ETAPAS DA ACT
o z
< 2001
2 SETEMBRO OUTUBRO NOVEMBRO DEZEMBRO
CO
< 5 6 13 20 27 3 17 7 15
Entrevista
LU Reunião pre-
< Reunião preparatória com Direc-
Sessões ACT do 1o grupo paratória do
do 1o Grupo ção do sindi-
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168 Capitulo IV Os Outros: a Análise Colectiva de Trabalho
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Q 7a Sessão - de restituição
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> Sessões ACT do 2o Grupo geral - aos responsáveis sindi-
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As sessões de ACT, num total de onze (quadro 19), foram gravadas em áudio, com o consentimento de todos os elementos dos grupos. As transcrições das sessões, foram feitas por nós, nas horas subsequentes.
As reuniões foram feitas nas instalações do sindicato, fora do horário de traba- lho, e em dias acordados com as preferências dos participantes (aos sábados com o 1o grupo e à sexta-feira, com o 2o grupo), respeitando os princípios do
voluntariado e do anonimato. A escolha de um local distante da empresa, de preferência identificado com os interesses dos trabalhadores, é um primeiro sinal de que a sua palavra será respeitada (Ferreira, 2001). Neste sentido fo- ram tidos em conta os cuidados éticos exigidos a uma prática investigativa des- te tipo e também as condições mínimas para se estabelecer um clima de con- fiança indispensável ao desenvolvimento do processo
Em cada sessão de ACT estiveram presentes dois investigadores (um anima- dor e um observador) e a duração de cada uma foi de, aproximadamente, 90 minutos, como preconiza Ferreira. Tentou-se que os grupos se mantivessem com o mesmo número de pessoas em todas as sessões, para manter a coesão e o equilíbrio. Nem sempre isto foi possível, por razões pessoais dos elementos presentes. No entanto, conseguiu-se um trabalho coerente e estruturado por- que as ausências não se revelaram desestabilizadoras.
As reuniões iniciaram com a explicação sumária do projecto e dos objectivos da ACT. De seguida e, nas seguintes sessões, usava-se a questão condutora "o que faz no seu trabalho?" que era retomada, sempre que fosse necessário. Neste contexto, interessava, também, construir o diálogo entre os participantes,
Capítulo IV 169 Os Outros: a Análise Colectiva de Trabalho
no sentido de uma maior explicitação daquele que descrevia o seu trabalho e a compreensão dos que o escutavam (Ferreira, 2001). Este diálogo era alimen- tado por perguntas inerentes à actividade desenvolvida por quem estava a descrevê-la, de modo a que o cenário se tornasse compreensível.
O processo de ACT é complexo e delicado: trata-se de uma dinâmica própria de participação e conquista de confiança entre trabalhadores e pesquisadores, permeada por uma tensão dos trabalhadores entre o desejo e o medo de falar do seu trabalho porque "trabalhar, não é apenas produzir (...) é também e tal- vez sobretudo produzir-se pessoalmente, realizar-se, quer dizer desenvolver as suas capacidades, seus projectos, as suas relações com os outros" (De Bandt et ai., 1995:119,120, tradução livre). E a experiência negativa que muitos traba- lhadores possuem de verem os seus saberes e as suas opiniões minimizados e apropriados pelas empresas contra eles, numa lógica e prática económica que vai no sentido da precariedade, isto é, da crescente crise do emprego e da per- da da centralidade do trabalho que "faz advir uma sociedade doente" (De Bandt et ai., 1995:10, tradução livre).
Para ajudar a melhor compreender a actividade dos trabalhadores do calçado a partir da descrição dos próprios, foi a dada altura solicitado a dois trabalhado- res cuja descrição da actividade se apresentava demasiado complexa, a utili- zação da técnica do "mapa de riscos" também denominada por Oddone de "carta bruta" e construída a partir da descoberta da importância do "onde" na perspectiva que o autor apelida de "consciência reflectida da centralidade dos «lugares»" (Oddone,1998:4, tradução livre). Os trabalhadores desenharam en- tão os seus postos de trabalho situando também todos os riscos que interferem na situação de trabalho. Esta técnica facilitou efectivamente a explicitação dos lugares significativos para o trabalhador em termos de risco a que está a ser sujeito: por exemplo, um trabalhador que referia como principal problema a existência de cansaço e dores nos pulsos, utilizou vários lápis de cor na sua "carta bruta" para demonstrar a relação entre as várias tarefas que fazia e a intensificação do seu cansaço (anexo 9).
Duma reunião para a outra, restituíamos os aspectos essenciais do material recolhido. Esta restituição resultava sempre de um trabalho de sistematização e interpretação baseado na (re)transcrição da sessão anterior assim como de
170 Capítulo IV Os Outros: a Análise Colectiva de Trabalho
uma reflexão conjunta com o observador. Este material após validação pelo grupo, servia então de quadro às discussões posteriores: trata-se de um pro- cedimento que também é utilizada na démarche em psicodinâmica do trabalho e tem por base uma postura ética e epistemológica, pressupondo que tudo o que é dito e analisado é validado pelos participantes podendo no entanto ser discutido, clarificado e desenvolvido nas sessões posteriores.
O método de ACT que desenvolvemos culminou numa reunião final com o pri- meiro grupo (todos os membros deste grupo eram delegados sindicais) em que apresentamos uma interpretação global dos dados recolhidos - o que permitia uma caracterização da situação do sector com base na descrição e vivência dos próprios trabalhadores e realçava uma perigosa banalização do sofrimento dos trabalhadores tanto pelas empresas como pelos sindicatos.
A reflexão iniciou-se então em torno desta problemática que encerrava um quadro de sofrimento que parecia suplantar o estado de bem-estar e satisfação e que, embora parecesse não existirem doenças caracterizadas, dava visibili- dade ao sofrimento pelas queixas de dores de coluna, de cabeça, nervosismo ou problemas de sono referidos pelos trabalhadores. Neste sentido levantamos questões que animassem este debate.
"Para se sentirem melhor o que será preciso mudar no vosso trabalho e como o fazer dado que os trabalhadores têm um papel essencial a jogar na transfor- mação da organização": foi uma pergunta central no seguimento da qual pros- seguimos uma reflexão sobre a própria organização destas reuniões, no intuito de verificarmos em conjunto com os trabalhadores se sentiram que alguma coi- sa mudou ou não na organização e se introduziram ou não.
Nesta última reunião também estava presente o coordenador do sindicato que, aliás, acompanhou todas as outras sessões: pareceu-nos essencial o seu con- tributo, não deixando de levantar a questão sobre as dificuldades que a organi- zação sindical tem na vigilância da saúde dos trabalhadores.
Finalmente convém dizer que todos os dados das sessões de ACT foram orga- nizados e analisados através dum programa de software de análise de dados qualitativos, denominado de QSR NUD*IST 4.
Capítulo IV 171 Os Outros: a Análise Colectiva de Trabalho