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Sabemos quanto é difícil, no quadro do funcionamento duma empresa, o em- prego de técnicas em que o objecto de estudo é o ser humano nas suas di- mensões físicas, psicológicas e relacionais. E também que se é fácil obter um espaço/tempo para uma entrevista individual ou de grupo com o pessoal dos quadros, torna-se muito mais problemático quando se desce na hierarquia da empresa (Lacomblez, 1982). Assim, a dificuldade em aceder à palavra dos tra- balhadores dentro da empresa pela formação de grupos, como preconiza De- jours, conduziu a que optássemos por outra metodologia cujas técnicas e pro- cedimentos têm, contudo, uma aproximação à metodologia da psicodinâmica. Aliás é também a prática de muitos investigadores que, querendo ficar fieis aos seus princípios de rigor metodológico, recorrem às organizações sindicais para ter acesso à palavra do trabalhador: pela via hierárquica, interna à empresa ficam condenados quase só ao uso exclusivo da observação do trabalhador no seu posto de trabalho, sendo este muitas vezes submetido a várias formas de negociação que limitam ou orientam o teor dos dados recolhidos (Lacomblez, 1982, 1997). É precisamente este tipo de reflexão que nos conduziu a optar pela Análise Colectiva do Trabalho - que costuma ser desenvolvida em meio sindical e que conseguimos concretizar com a participação/colaboração do sin- dicato dos trabalhadores do calçado.

A Análise Colectiva do Trabalho é uma metodologia concebida por Ferreira (1993): trata-se de um método de análise do trabalho no qual os trabalhadores falam sobre a sua própria actividade em situação de trabalho, para outros tra- balhadores e pesquisadores, fora dos locais e das horas de trabalho.

O nosso interesse por este método, prolonga ainda a reflexão anteriormente desencadeada já que teve influência por um lado da escola da ergonomia da actividade de Wisner e, por outro lado da obra de Dejours, fundador da psico- dinâmica do trabalho.

Em ambas as tradições científicas como vimos, o objectivo tem sido com- preender o que fazem homens e mulheres no seu trabalho, dado que a activi-

CapítulolV _ 165 Os Outros: a Análise Colectiva de Trabalho

dade é um dos componentes essenciais do processo de produção como aliás há mais de cem anos, o tinha realçado Marx (1990).52

Mas, na ACT é a palavra dos trabalhadores e a escuta dos investigadores que está no centro do processo. A regra fundamental é que todos entendam a acti- vidade que está sendo analisada. Para isto todos os participantes podem fazer perguntas e ajudar a responder. Através do diálogo estabelecido, a actividade vai sendo descrita, explicada e interpretada. É um processo que obriga os tra- balhadores a reflectir, sendo também um método que tem a particularidade de permitir a verbalização e a expressão de emoções.

Deste modo, na explicação da actividade, os trabalhadores "tomam consciên- cia" das acções e comportamentos que realizam de um modo "automático" no seu dia-a-dia: ao explicarem aos outros, têm de reflectir antes sobre o que fa- zem; o processo de "tomada de consciência" clarifica as acções desenvolvidas bem como a capacidade que necessitam para as realizar e as dificuldades que aparecem (Ferreira, 1993). Trata-se no fundo de trabalhar com "os conheci- mentos adormecidos" (Vermersch, cit. in Ferreira, 1993), isto é, os conhecimen- tos que não são do domínio do consciente porque as pessoas nunca reflecti- ram sobre eles em grupo, com outras pessoas.

2.1. A organização sindical e o desenvolvimento da análise colectiva do traba- lho

Esta prática metodológica desenvolvida em colaboração com o sindicato cons- titui-se de muito sucesso: por oferecer condições que permitem quebrar um silêncio inerente à carência de modos de expressão dos trabalhadores sobre o seu trabalho, sustentando assim a verbalização e análise colectiva do profundo conhecimento que os trabalhadores têm das suas condições de trabalho e dos seus efeitos no comportamento humano vivido abrindo um vasto campo de investigação (Ferreira, 2001).

Karl Marx (1990) considerava que o processo de produção possuía três elementos: a actividade adequada a um fim, isto é, o próprio trabalho; a matéria a que se aplica o trabalho, isto é, o objecto de estudo e os meios de trabalho, que contem os instrumentos de trabalho.

166 Capítulo IV Ós Outros a Análise Colectiva de Trabalho

No Brasil, há já uma história longa do papel dos sindicatos na análise colectiva do trabalho, o que se deve em muito a Ferreira que, por razões políticas e me- todológicas, se aproxima particularmente do movimento sindical: ela tem a convicção que as melhorias das condições de trabalho dependem de lutas so- ciais levadas a cabo pelos trabalhadores, cabendo aos sindicatos o papel de sistematizar as reivindicações e organizar acções conducentes a mudanças e melhorias das situações de trabalho.

Mas este quadro de interligação entre o sindicato e a prática de ACT levanta uma série de questões fundamentais no prosseguimento dum estudo empírico deste tipo (Ferreira, 2001).

O acesso aos trabalhadores é obviamente o primeiro passo do planeamento do processo e não é a fase mais fácil pois as barreiras são grandes entre investi- gadores e trabalhadores: o sindicato tem por isso um papel preponderante em servir de "intermediário", deixando aos trabalhadores a opção de se disponibili- zarem de forma voluntária para a participação nas reuniões de ACT pois para isso, têm de estar motivados, têm de ver algum interesse na experiência. Tam- bém o sindicato só se empenhará nesta tarefa se achar que os objectivos do estudo são pertinentes.

A intermediação do sindicato facilita assim o procedimento, mas também refor- ça o sentimento de confiança por parte dos que participarão no estudo - e este é um factor importante para que a ACT se desenvolva: Ferreira (2001) conside- ra que os trabalhadores têm de sentir que ao voluntarizarem-se para um estudo mediado por esta técnica nada se voltará contra eles de modo a prejudicá-los e é igualmente a partir daí que compreendemos o impedimento de se realizar a ACT numa empresa.

Esta ligação entre os sindicatos e a ACT tem ainda a vantagem dos seus resul- tados poderem ser usados em negociações cujos fins sejam a melhoria das condições de trabalho - o que no Brasil já aconteceu por várias vezes com su- cesso (Ferreira, 2001).

Capítulo IV 167 Os Outros: a Análise Colectiva de Trabalho

3. A ORGANIZAÇÃO DO DISPOSITIVO METODOLÓGICO E A DINÂMICA ESTABELECIDA PARA

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