• Aucun résultat trouvé

Part 2. Saddle connections joining a zero to itself

13.1 Computation of the constants

É indispensável destacar o fato de que não foi possível precisar o ano de transferência da feira livre e como se deu todo o projeto e/ou discussões que levou o Mercado Público e toda a Feira para outra localidade, pelos parcos recursos disponibilizados na pesquisa. O que sabe- mos é que a feira fora realocada por volta dos fins da década de 80 e início de 90, aproxima- damente. Sendo assim, o trabalho de pesquisa voltado para a oralidade fora de suma impor- tância para compreender esse processo e de como isso interferiu na vida dos feirantes da nossa

295Entrevista com Sr. José Souza Irmão, 72 anos, concedida em 28/03/2017

296 Ver em: https://www.chesf.gov.br/SistemaChesf/Pages/SistemaGeracao/Xingo.aspx Acesso: 10/05/2017 297Entrevista com Sr. José Souza Irmão, 72 anos, concedida em 28/03/2017

cidade, uma vez que “[…] quando bem aproveitada, a história oral tem, pois um elevado po- tencial de ensinamento do passado, porque fascina com a experiência do outro […]”298.

Existem duas hipóteses para tentar explicar a transferência da feira livre de Delmiro Gouveia. A primeira se refere à construção da Usina Hidrelétrica de Xingó pela CHESF, que teria iniciado operação em 1994299, mas sua construção teria iniciado por volta de 1987, período em que era realizada no centro da cidade de Delmiro a feira livre e, possivelmente essa construção teria influenciado diretamente nas mudanças da área central, principalmente no espaço disponibilizado pelos feirantes e outros trabalhadores informais, retirando-os das regiões centrais.

Não foi possível entender de que forma a CHESF poderia estar envolvida nesse processo. A falta de documentos oficiais para a pesquisa se tornou inviável decifrar os pormenores desse acontecimento, principalmente o posicionamento do poder público municipal. O que sabemos é de uma dívida social desta com a sociedade, que de acordo com o Sr. Zeca Queiroz, teria sido compensado com a construção do atual Mercado Público Ulisses de Souza Bandeira. Sendo assim, o entrevistado discorre que “[…] dentro dos compromissos que a Chesf assumiu, entrou a construção de um mercado público fora do centro da cidade […]”. A Chesf tem uma dívida muito grande para com Delmiro Gouveia porque isso é uma exploração financeira […]” 300. Portanto, a CHESF teria ficado responsável pela nova obra e,

de algum modo pode ter entrado em acordo com a prefeitura, pois, de acordo com o entrevistado, a prefeitura também não teria na época condições financeiras para implantar um novo mercado público na cidade301.

Quando inaugurado o Mercado Público em 1992302 toda a feira livre foi junto, ficando esta em uma localização mais periférica. “[…] Construíram rapidamente o mercado público, aquele casarão muito grande; um prédio coberto com uma área muito grande. Nos tira até certo ponto, de caráter moderno […]303”. É o que nos diz o entrevistado.

Essa transferência interferiu, decerto, na organização cotidiana dos trabalhadores. Houve reformulações espaciais, mas não acabou com o costume feirante; com o comércio a céu 298 ALBERTI, Verena. op. cit., pag. 22.

299 Ver em: https://www.chesf.gov.br/SistemaChesf/Pages/SistemaGeracao/Xingo.aspx Acesso: 10/05/2017 300Entrevista com Sr. José Souza Irmão, 72 anos, concedida em 28/03/2017.

301O entrevistado falou que a prefeitura não teria recurso pra isso. O dinheiro que vinha a nível estadual e federal era quase como se fosse um favor; uma doação. José Souza Irmão, 72 anos, em 28/03/2017.

302Ver em: http://amigosdedelmirogouveia.blogspot.com.br/2008/11/delmiro-gouveia-mercado-pblico-e- suas.html Acesso: 10/05/2017

aberto; com os hábitos da feira livre delmirense, esta tomou apenas novas proporções, ficando com um visual estruturalmente um pouco mais diferenciado, e os feirantes disponibilizaram de um local mais adaptado para a comercialização de seus produtos.

A outra hipótese levantada acerca da realocação de toda a feira livre seria a questão da expansão da cidade e, com ela, o crescimento significativo do trânsito, no qual abririam as passagens centrais para a circulação de veículos, e a feira precisaria sair daquele lugar. Importante notar que isso pode estar também atrelado a questão da Usina de Xingó, da abertura das vias urbanas para passagens de caminhões e carretas carregados com materiais da usina.

Conforme a feirante Olga Rodrigues de Mendonça, essa modificação no espaço destinado para a feira aparentou ter sido algo de surpresa, como se não fosse algo previsto pelos feirantes, donos de barracos, entre outros. De acordo com Olga, “[…] o que mais impactou na época […] foi a mudança, né, que foi uma mudança radical304”.

Larissa Penelu traz contribuições relevantes acerca das práticas populares das feiras livres que são em grande parte organizadas em espaços públicos, e onde muitas são coagidas a sair do seu espaço de atuação para dar lugar à modernidade, dar destaque a novos modos de vida. Vale frisar também que em muitos casos essas intenções acabam marginalizando as classes trabalhadoras.

No caso das feiras livres […] ocorrendo em espaços públicos na maioria das cidades brasileiras, estas passaram a ser sistematicamente reorientadas no interior das cidades para que liberassem as ruas para o trânsito e poupassem as urbes modernizadas da visibilidade dos modos populares de uso dos mercados. Ainda, inúmeros objetivos podem ser encontrados nas ações dos poderes municipais sobre as feiras, sendo que, muitas vezes, a higienização e o bem estar da população quase sempre foram utilizadas como bandeira para escamotear intenções mais complexas na organização das vendas populares305.

A trabalhadora Olga Rodrigues, que cresceu dentro do universo da feira livre de Delmiro Gouveia, enfatiza que os motivos pelos quais levou a transferência de toda a feira fora pela grande movimentação de veículos na cidade e, aparentemente, pela questão de higienização306 do lugar, mas a entrevistada em nenhum momento toca na questão da usina Xingó.

[…] na época eu ouvi falar […] que essa feira era pra ser transferida há

304Entrevista com Olga Rodrigues de Mendonça, 47 anos, concedida em 12/04/2017 305 PACHECO, Larissa Penelu B. op. cit., 2009, p. 25-26.

306“O mercado em si não era mercado não … um deus nos acuda, banheiro principalmente era horrível; horrível […]”. Olga Rodrigues de Mendonça, 47 anos, entrevista concedida em 12/04/2017.

muito tempo por conta … eu lembro mais ou menos assim; por conta que não era pra aquela feira ser ali no centro da cidade por conta dos carros que passavam ali. Eu lembro essa história que os feirantes falavam, né; que os políticos falavam; que as pessoas mais velhas falava que ali como era o centro da cidade, era errado uma feira ali; então ia ter que fazer um lugar específico, separado do centro da cidade para que ali ficasse o movimento, pra fazer tipo assim, um calçadão; pra os carros passar porque como Delmiro era uma cidade polo ficava aquela feira ali no meio […]307.

Analisando o diálogo de Olga Rodrigues foi possível perceber um tipo de desconforto e melancolia com relação à saída dos trabalhadores feirantes do seu local de trabalho. A mesma considera essa mudança como algo discriminatório, no sentido de os vendedores e vendedoras estarem, de certa forma, deixando o lugar feio, sujo, se tornando necessário “melhorar” a paisagem, as condições do lugar, para torná-lo visivelmente melhor.

Tipo assim, a gente sentia tipo, uma discriminação[…]. Naquela época eu não tinha como discernir o que era uma discriminação. Hoje, quando eu volto é… quando alguém me pergunta assim, eu vejo como discriminação […]308. A supracitada, que além de feirante é fornecedora de produtos agrícolas em grosso para cidades vizinhas e para supermercados da cidade, enfatiza acerca da falta de organização e de infraestrutura do espaço disponibilizado para os feirantes na antiga feira, e de como fora positivo um espaço específico para a comercialização das frutas, verduras, legumes, carnes, peixes, etc.

[…] na feira velha era bom, só que assim, era tudo junto e misturado, não tinha assim aquela organização que tem hoje. Que tem hoje entre “aspas”, né. É… quando a feira livre […] mudou para o pátio novo, né, é… foi uma coisa assim bem diferente, né. Delmiro ganhou uma coisa diferente, todo mundo se assustou, né, porque praticamente é… nas cidades assim mais próximas entre Delmiro: Olho D'água do Casado, Água Branca, Pariconha, né. Água Branca hoje ainda continua com a feira no mesmo lugar, muito imprensado, né […]. Pariconha também continua no meio da rua. Delmiro ele ganhou esse espaço […] e no início o que chamou a atenção foi aquela coisa… é diferente, juntou, agrupou um canto específico só para aquele lugar na época […]309.

Em relação a dificuldades e/ou prejuízos com as mudanças que ocorreram, para os feirantes o impasse maior teria sido apenas a questão de adaptação ao novo lugar, pois, após a partida da antiga feira livre para o atual pátio do Mercado Público, os vendedores e

307Entrevista com Olga Rodrigues de Mendonça, 47 anos, concedida em 12/04/2017 308Entrevista com Olga Rodrigues de Mendonça, 47 anos, concedida em 12/04/2017 309Entrevista com Olga Rodrigues de Mendonça, 47 anos, concedida em 12/04/2017

vendedoras se espalharam, o que afetou a relação com os antigos fregueses.

Para o Sr. Manoel Bezerra Cavalcanti, feirante há mais de quarenta anos, o maior problema encontrado fora a questão da localização, de se ajustar ao novo lugar.

Tivemos prejuízos, porque quando você se localiza, sai de um canto e se localiza em outro… aí as mudanças… quer dizer, digamos assim… é, clientela caiu, afasta muito. Aí depois vem e volta de novo, mas sempre logo no início a gente tem muito prejuízo310.

Não podemos deixar de mencionar a relação feirantes versus comerciantes de lojas e demais estabelecimentos comerciais que dividiam o mesmo espaço de trabalho, isto é, as ruas e calçadas da cidade.

Diferentemente do que ocorreu em outras feiras do Brasil, a exemplo de Feira de Santana – BA problematizada por Larissa Penelu, na qual a questão da feira gerou uma série de conflitos pelo espaço público, pelos espaços centrais da cidade311, em Delmiro Gouveia apesar do crescimento da feira e com ela a diversidade de frequentadores, e ainda que os espaços ocupados pelos feirantes estivessem diretamente relacionado aos problemas com o trânsito – já que a cidade se desenvolvia – o comércio lojista estendia suas atividades em equivalência com os vendedores e vendedoras de frutas, legumes, hortaliças; com os vendedores ambulantes, barraqueiros, entre outros. Tanto que com a transferência da feira houve prejuízos para os lojistas, donos de farmácias, donos de boutiques, comerciantes em geral.

O comércio todo sentiu, inclusive eu. Eu posso falar por mim, porque nós tínhamos a loja; essa mesma loja. É… aqui na rua 13 de maio, mas a feirinha bem próximo. Então o pessoal do campo vinha comprar remédio. No dia da feira, a receita da loja cobria o resto da semana inteira. Veja que houve um impacto muito grande para todos, né312.

Como vimos, os prejuízos maiores foram para os comerciantes, pois os feirantes da cidade movimentavam a vida comercial em Delmiro.

Portanto, de acordo com os feirantes, a transferência foi algo que trouxe benefícios para os trabalhadores do campo e da cidade que abastecem o município com seus produtos, apesar de no início o processo de mudança apresentar algumas dificuldades. Com tudo isso, a feira livre hoje deixa a desejar para os que labutam todas as semanas para garantir seu sustento e de suas famílias.

310 Entrevista com o Sr. Manoel Bezerra Cavalcanti, 66 anos, concedida em 09/04/2017. 311 PACHECO, Larissa Penelu B. op. cit., p. 39.

Olha, no início quando mudou pra lá ficou tudo organizado […]. Quando a feira livre foi mudada pra aquele local era bem melhor […]. É… a feira livre de Delmiro hoje tá uma porcaria […], considere a feira hoje como porcaria. Hoje a feira de Delmiro tá… Primeiro não tem … depois da privatização. Quando era da prefeitura era tranquila, excelente, tudo organizado, tudo bonitinho […]. Sinceramente uma coisa privatizada não tem futuro, ficou banalizada, porque a gente, nós feirantes ficamos assim jogados ao leu, entendeu313?

Levando isso em consideração podemos perceber o descaso com que hoje é tratada a feira livre, inclusive, a situação do feirante piorou por conta do Mercado Público ter sido privatizado. As arrecadações, a limpeza, iluminação ficavam a encargo da prefeitura, mas depois que fora privatizada os feirantes sentiram o alto preço por essa decisão.

Esse ponto é uma discussão para ser problematizado em outros momentos, sendo aqui o foco principal a transferência da feira e suas implicações na vida dos feirantes.