momento um rapaz que chamou atenção de Jhonatas].
Nos comentários podemos identificar uma sensação de segurança, principalmente no que diz respeito aos encontros amorosos LGBTs, nas respostas de Andressa e Thiago, por exemplo. Entretanto, não consideramos o espaço como um “gueto” gay. O conceito de gueto, termo originalmente cunhado por With (1969) da escola de Chicago aos se referir aos espaços de isolamento social, não se aplica nesse contexto, pois os interlocutores não permanecem em isolamento, mas sim, circulam pela cidade vivendo sua sexualidade com muito menos castração do que gerações anteriores, entretanto, a solidificação de um espaço onde as preocupações sejam minimamente solicitadas, faz com que o espaço represente um lugar mais cômodo para desenvolver livremente esses encontros amorosos.
Em artigo sobre territorialidade homoerótica em Santa Catarina, Maria Juracy Filgueiras Toneli (2006), apresenta as diferenas entre a concepção de gueto gay e zonas livres ou liberadas, o termo gueto aparece entre as interlocuras de sua pesquisa e ela acaba por introduzir o tema, entretanto, fazendo algumas considerações. Citando Castells, ela remete aos estudos de Chicago referente a questão do gueto para diferenciar o conceito do termo mais utilizado pelos estudiosos da questão gay “zonas liberadas”, pontuando que a diferença reside no fato do gueto ser o lugar social onde os gays são inseridos de maneira preconceituosa e segregacionista, já as zonas liberadas são espaços contruídos por eles próprios.
O uso do local para a prática de encontros amoroso gays, aparece em diversas outras falas, além de se evidenciar claramente através da observação do local.
O C4 parece oferecer uma sensação de zona liberada, questionei algumas vezes o fato de haver, na cidade, algumas praças públicas e se não seria possível essa liberdade de encontros nelas. Um deles me respondeu dizendo.
Kelvis: Thiago, você disse que você e seu ex-namorado se encontravam aqui no C4, mas lá em Mirassol tem várias praças e tem a casa dele, por que não se encontravam por lá?
TH: Porque ele mora com outros estudantes, aí não dava pra gente namorar lá. Só muito raramente ele ficava sozinho e eu ia. Mas era mais comum o pessoal ficar em casa. Tem sim, ele mora ali perto da igreja católica e lá perto tem uma pracinha, mas lá tem muitos velhos jogando dominó e outras pessoas passando, a gente até tentou, mas a gente ficava com receio de sei lá, eles quererem bater na gente. Sem falar que a gente só podia marcar a noite, depois do meu trabalho, aí ficava muito esquisito lá. Pouca iluminação e vazio.
Vários outros relatos seguiram a lógica do Thiago dizendo que em outros lugares da cidade essa sensação de segurança não é tão visível, exceto quando o assunto são bares e boates gays da capital. Um detalhe interessante de minhas observações desses casais gays foi que, por diversas ocasiões, ao obseervá-los deixarem o estacionamento, ao descer a escada em direção as paradas de ônibus da BR 101, durante todo o trajeto eles permaneciam de mãos dadas, mas assim que cruzavam o portão de saída do C4, automaticamente, soltavam as mãos um do outro. Observei esse fato recorrer por aproximadamente seis vezes.
frequentadores gays no estacionamento como na do Ricardo, 24 anos, estudante de Geologia, estagiário.
Kelvis: Você acredita que se houvesse um problema homofóbico com um dos casais, os demais se juntariam na defesa dele?
Ri: Sim, acredito sim. Até porque há uns meses atrás umas trans foram vítimas de preconceito quando foram usar o banheiro feminino e o pessoal, tipo, invadiu a praça de alimentação e expulsou o cara, tem vídeo disso na internet. Mas aí o Carrefour se posicionou a nosso favor e aqui eu me sinto mais seguro pra demonstrar a minha sexualidade, tenho mais liberdade.
Entretanto, não apenas os LGBT’s frequentam o espaço, as sexualidades são bem diversificadas como demonstra o gráfico abaixo, quando perguntados sobre:
Como você define sua sexualidade? Obtivemos:
Figura 11 - Sexualidade dos jovens pesquisados
Figura 12 - Encontro amoroso
Figura 13 - Encontro amoroso
Fonte: Acervo do pesquisador, 2017.
Aqui cabe uma observação. Não pude deixar de notar a intensidade afetiva dos encontros. Cada chegada de um amigo ao grupo é motivo de sorrisos altos, gritos, abraços fortes acompanhados de um beijo no rosto e demonstrações abertas de carinho. Além disso, pude notar e constatei com algumas entrevistas que coletei que, a sexualidade não parece se um tabu tão forte entre eles.
Apesar do espaço ser um point LGBT, como já mencionado por alguns interlocutores, muitos jovens heterossexuais se juntam a essa sociabilidade e parecem não se importar em estar junto de alguém com uma sexualidade diferente da deles. Garotos heterossexuais não se intimidam em abraçar amigos gays e beijá- los no rosto, mais ainda, não se incomodam em deitar a cabeça no colo um do outro, por exemplo.
Destaco essa observação, porque até pouco tempo – e até hoje em determinados contextos – essas interações além de serem repudiadas são coercitivamente desestimuladas.
de Florianópolis/SC com jovens de idade entre 15-24 anos. Ela relata que a homofobia está vinculada no discurso e na prática desses jovens. O trecho abaixo retrata um pouco do coletado
.
Rapazes e moças entrevistados evitaram falar sobre a sexualidade homoerótica como algo presente em suas próprias vivências. Admitiram conhecer homossexuais, de ambos os sexos, bem como conviver com eles. No entanto, circulam entre as normas e padrões aceitos pelo grupo de iguais, nos quais a homossexualidade continua sendo tabu. Comentam que, se os rapazes homossexuais deles se aproximarem, preocupam-se em esclarecer que não há qualquer interesse erótico-amoroso entre eles. (p.34) E ainda,
Os garotos de 15 a 19 anos tratam o tema com resistência, afirmando serem contra [a homossexualidade]. Fazem piadas, riem e remetem a colegas e a um professor da escola. Alguns afirmam que quando um amigo é gay a amizade não muda, porém fazem piadas e demonstram preocupação com a opinião dos colegas e medo de o garoto ‘dar em cima’ deles (p.34).
Algo que não presenciei durante a pesquisa. Inclusive, destaco a fala que abre esse capítulo onde um interlocutor letada que no C4 “ tem de tudo[...]O negócio
é vir pra relaxar, sem ficar grilado com o que os outros fazem”
Relaxar, inclusive é o motivo principal da frequência dos visitantes, quando questionados sobre o por que de frequentar o lugar, obtivemos:
Gráfico 7 - Motivos da frequência ao local
Fonte: Dados coletados pelo pesquisador
Esses dados também foram encontrados em relatos coletados pelas entrevistas e nos encontros que participei.
reside no bairro de Potilândia – zona zul da capital.Giordano, 18 anos, ensino médio completo, quase todo feito em escolas públicas, reside no bairro de Igapó, zona norte. Jeferson, 21 anos, graduando em redes de computadores em instituição privada, reside no Parque dos Coqueiros, zona norte.
Kelvis: Porque vocês frequentam o C4 e por que acreditam ser tão bem visitado?
Jes: A primeira vez que vim aqui foi no aniversário da Luana uma amiga minha do colégio, faz um ano. A gente comprou umas coxinhas e umas bebidas e veio comemorar aqui. Basicamente a turma toda veio. Eu “super curti” o lugar e venho sempre que posso.
G: Me chamaram também, eu sou de Instância velha, no Rio Grande do Sul,