ESTRANHAMENTOS
O estacionamento do Carrefour é um lugar que eu frequento bastante desde 2013, ano em que comecei a morar no conjunto residencial Bairro Latino, localizado exatamente atrás do hipermercado. Lembro-me que iniciei a frequenta-lo como cliente, nem prestava muita atenção no estacionamento, já que não tenho carro.
Foi então que, os problemas de morar com outras pessoas, mesmo que amigos já conhecidos de longa data, começaram a exigir que eu saísse do apartamento algumas vezes, para respirar e sair do espaço que começara a apresentar problemas de convivência.
Numa dessas saídas, eu que sempre ficava dento do condomínio, caminhando e, as vezes, sentado em um dos bancos, resolvi ir ao Carrefour, pois precisava comprar alguma coisa, não me recordo o quê.
Assim que entrei, resolvi caminhar um pouco pelo estacionamento, além do espaço onde os carros ficam estacionados, foi aí então, que descobri a calçada que marca o final da parte com asfalto, basicamente um banco que se estendia por toda a área do local.
Sentei-me ali por alguns instantes, percebi ao olhar os carros e toda aquela agitação lá embaixo na BR, com o trânsito em horário bem tumultuado – por volta das 18h00min – e comecei a pensar sobre o corre corre daquelas pessoas. Buzinas fortes como se o som fosse empurrar a fila de carros que se formava, correria e um fluxo cada vez maior de carros.
Fiquei observando e acabei me distraindo com algumas pessoas que passavam caminhando no local, com as linhas de ônibus que chegavam e estacionavam para pegar passageiros que também corriam para a porta do coletivo no intuito de pegar lugar sentado, ou de simplesmente, sair da parada e chegar logo em casa.
Quando me dei conta e voltei a olhar o trânsito da BR, estava como se uma veia tivesse sido desobstruída, o fluxo estava bem menor, já dava pra ver o asfalto novamente com longos espaços vazios onde pessoas se aventuravam em atravesar, por pressa ou sem paciência de caminhar um pouco mais para chegar até a passarela.
Respirei fundo, e pensei que tudo que eu estava passando naquele momento era como aquele fluxo na BR, passageiro e que poderia ser resolvido rapidamente, bastava uma distração. Não deu outra, o lugar virou meu refúgio e frequento desde então.
para mim, mas para diversas outras pessoas que tentam fugir, mesmo que momentaneamente, dos problemas e estresses diários e, como no fluxo da BR, esperar que ele passe.
As entrevistas coletadas nessa dissertação foram desde sempre em conjunto, isto é, são compostas de entrevistas em grupos, trios ou duplas, os poucos frequentadores que estavam sozinhos, não se dispuseram a falar. Como justificativa, diziam não estar num bom dia e que “ficaria para próxima”.
Os diálogos foram organizados através das transcrições e os relatos seguem a ordem de cada resposta, de maneira individual.
Abaixo, transcrevo alguns trechos de entrevistas e relatos coletados em roda de conversas. Compõem pensamentos majoritários ou reincidentes sobre as questões levantadas. Separo, entretanto, as informações em quatro categorias:
encontros e/ou paqueras, esquentas e estranhamentos.
4.1.1 Encontros e/ou paqueras
Parece contestador os encontros que acontecem no C4, contestador porque assistimos um conjunto de obras teóricas que apontam justamente para o caráter fugaz das relações humanas na pós-modernidade. Laços superficiais de amizades, por vezes, criados através das redes sociais. Bauman (2004), por exemplo, ao problematizar os laços amorosos na chamada Modernidade Líquida, afirma que estamos vivenciando um período onde, por medo do outro, nos isolamos e os laços sociais que criamos acabam por se constituírem em laços fracos de amizade e amor. “O que realmente conta é apenas a volatilidade, a temporalidade interna de todos os compromissos; isso conta mais que o próprio compromisso” (BAUMAN,1999, p. 88). Ou ainda, o autor diz que os impulsos amorosos seguem as normas do poderoso mundo do mercado e que ao tentar estabelecer esse vínculo, os indivíduos tendem a levar para a vertente amorosa tais relações.
Em sua versão ortodoxa, o desejo precisa ser cultivado e preparado, o que envolve cuidados demorados, a árdua barganha com consequências inevitáveis [...] Mas pior que tudo [...] em sua reencarnação radical, aguçada e sobretudo compacta como impulso, o desejo perdeu a maior parte de tais atributos protelatórios, enquanto focalizava mais de perto o seu alvo. Tal como nos comerciais que anunciavam o surgimento dos cartões de créditos, agora não precisamos esperar para satisfazer nossos desejos. Guiada pelo impulso, a parceia segue o padrão do shopping[...] eminentemente descartável (BAUMAN, 2004, p. 27).
modelo, mais ainda, porque em suas análises o autor parte de uma sociologia macrossocial e exclusivamente teórica dos laços sociais afetivos atuais. Já em nossa avaliação, os laços caracterizados neste trabalho – partindo de uma pesquisa “situacional” – demonstram todavia a necessidade do contato face a face, bem como a construção de laços fortes o suficiente para durarem anos. Evidentemente, não sabemos se isso se configura, entre os sujeitos, mas em suas perspectivas o amor dos casais é caracterizado aos moldes do amor romântico.Não saberíamos, além disso, como conceituar o que seria um laço forte, seria prematuro afirmar que sua intensidade se deva a sua duração cronológica. Muitas vezes, inclusive, encontramos no C4 relatos de amizades e namoros com pouco mais de um mês, mas que estão baseados nesse convívio processos de confiança e liberdade que não se vê entre amigos de longas datas. Inclusive ao serem questionados sobre qual o tipo de relacionamento que estão inseridos ou que esperam num possível contato amoroso, as respostas foram em favor do comprometimento monogâmico.
Figura 9 - Tipos de relacionamentos amorosos que almejam
Fonte: Dados coletados pelo pesquisador, 2017.
De certo que desenvolver uma relação amorosa mais duradoura esteja mais difícil, dada as condições da vida contemporânea, mas as expectativas ainda caminham na direção dos moldes românticos de relacionamento. O que não permite afirmar como diz Bauman (2004) que “a definição romântica do amor como ‘até que a morte os separe’ está decididamente fora de moda”(p. 19). Aqui, muito pelo contrário, às expectativas são as mesmas, entretanto, cabe ressaltar, que como o próprio autor nos alerta a definição de amor tenha alargado seu sentido “original”, “noites avulsas de sexo são referidas pelo codinome de ‘fazer amor’ (p. 19).
Ademais, não nos cabe aqui deslegitimar os encontros amorosos na contemporaneidade, nem afirmar que são mudanças trágicas ou anômicas, preferimos identificá-las como tentativas legítimas de associação amorosa, pois como nos diz Casadore&Hashimoto (2012), “sendo legítimos, também se tornam legítimas as formas de satisfazê-los, e com satisfações impulsivas uma atrás da outra, numa eterna constância, o excesso hoje em dia se transformou em norma”(p. 183).
Há, todavia outra maneiras de satisfazer os desejos oriundos da solidão e que buscam o conforto individual, o encontro entre amigos é essa associação amorosa sem vínculo sexual necessário. Inclusive, não se sustenta, nesse caso, o que nos dizem Casadore & Hashimoto, ao se referirem ao individualismo dos cidadãos nas cidades,
O individualismo concretizou o silêncio dos cidadãos na cidade; os cenários onde antes pessoas conversavam hoje são apenas lugares apreciáveis visualmente – elas simplesmente simpatizam com as paisagens ao redor. Assim, todos compartilham de um sentimento geral de estranheza e abdicam da vida em comum com os outros (Casadore&Hashimoto, 2012, p.185)
As práticas de encontros amorosos estão vinculadas às diversas sexualidades no espaço, todavia, os casais gays são predominantes. Podemos pensar com isso numa microterritorialização homoerótica, ou seja, espaços de socialização de pessoas do mesmo sexo e justificar que, enquanto casal heterossexual, não há necessidade visível de expressar sua sexualidade apenas em locais aparentemente seguros como o estacionamento.
Como bem nos descreve Jurandir F. Costa (2002), o estigma produzido em torno da homssexualidade produziu a “condição homossexual”, o que acaba por diminuir os espaços possíveis de encontros amorosos para essa sexualidade. Nesse sentido, como não é possível ou ao menos seguro, esses encontros no espaço social ampliado, os sujeitos homoeróticos expressam suas sexualidades em espaços microterritorializados do espaço social.
Esses microterritórios, bem como a dinâmica do espaço social, não são rígidos, ou seja, se tornam fluidos na medida em que os sujeitos produzem e reproduzem significados a eles. São espaços de singulares “rizomáticas” Deleuze&Guatarri, (1995).
Ademais, torna-se evidente que a microterritorialização do C4 para os encontros e sociabilidades gays, transformaram o espaço em um via “alternativa” sendo alternativa uma referência ao homossexual por sua inscrição história numa sociedade rígida e padronizada que o encara como o sujeito incapaz de seguir às
normas padrões, criando uma identidade alternativa à norma. Nesse sentido, é possível falar em “espaço alternativo” como anedota, no sentido de particularidade jocosa utilizada em alguns discursos homofóbicos, mas também como "alternativo” nos discursos simpatizantes que utilizam o termo para descrever em uma única palavra que todas as sexualidades são permitidas.
De todo modo, destacamos mais uma vez que, não são apenas casais ou indivíduos homossexuais que se encontram com intencões amorosas. Pelo fato do espaço ser bastante frequentado por diversos jovens, a paquera é colocada como algo sempre possível, oriunda dessas aproximações espontâneas.
Figura 10 - Os Encontros e/ou Paqueras
Fonte: Acervo do pesquisador, 2017.
Andressa , 22 anos, estudante de enfermagem, reside na zona sul de natal –
bairro de Lagoa Nova. Thiago, 21 anos, graduando em psicologia em instituição privada, atendente de telemarketing, reside no Pajuçara – zona norte da cidade.
Jhonatas, 22 anos, ensino médio completo, auxiliar de manutenção de
computadores, reside em Nova Parnamirim – Grande Natal.
Kelvis: Porque vocês frequentam o C4 e por que acreditam ser tão bem visitado?
A: Às vezes o pessoal gosta de vir pra cá porque aqui é um supermercado, qualquer