1. Description des composés chimiques
4.3 Composition de la phase hydrate
Ricardo III será o condottiere inglês, o príncipe que alcançará a coroa “não através da guerra, mas através da lei”281, como explica Thomas More no início de sua biografia. Esta era a preocupação central do jovem inglês: a de que a tirania poderia ser alcançada não através de meios ilícitos, como guerras e espoliações, mas através dos meios legais e justos que o próprio reino determinou. Isso mostra como o problema da injustiça se torna cada vez mais freqüente na educação humanista; pouco a pouco, a velha noção tomista de que justiça é “um modo de conduta segundo o qual um homem, movido por uma vontade constante e inalterável, dá a cada um o seu direito”282 se transforma em uma ação exterior sem nenhum sentido simplesmente porque ninguém sabe mais o que é um homem e ninguém sabe qual é
281 MORE, Thomas. Life of Picus and The History of King Richard III. Scepter Books, 2007, pág.5. 282
o seu direito. O indivíduo não é mais uma pessoa; é o membro de um reino, o funcionário de um governo que cumpre determinadas funções que saíram da cabeça de um rei. Não há mais espaço para a consciência, para a vida interior, pois o príncipe quer dominá-la a qualquer custo. Se Goethe afirmava que “conhecer-se como homem é reconhecer-se como injusto”, então o Ricardo III de More é o exemplo diabólico da inversão do humano, de alguém enfastiado pela sua própria
pleonexia.
Não é por acaso que More insiste em descrever a deformidade física de Ricardo como prova da desordem espiritual que ataca as suas intenções e as do reino que tenta usurpar. Pouco a pouco, todas as pessoas do reino são manobradas de acordo com suas necessidades; mas elas não entram em seu jogo por ingenuidade – a corrupção moral e espiritual já está incrustada em suas almas. O falecido rei Eduardo é um adúltero; a rainha é tíbia; os membros do Parlamento se vendem por um pedaço de terra; o povo fica encantado com os sermões de falsos pregadores – e toda a base de comunicação racional se fragmenta em uma série de discursos pífios que More mimetiza perfeitamente, como se quisesse reproduzir os sofismas daquela época e mostrar como refletem uma visão de mundo que terminará sem dúvida em tirania. As palavras perdem o sentido; dirigir-se ao seu semelhante, ao outro, é apenas uma forma de vê-lo como instrumento, como parte de uma peça em que o usurpador se vê sozinho como ator, dramaturgo e diretor. Contudo, isso não significa que a integralidade da pessoa tenha sumido para sempre. As pessoas podem perder o significado da justiça, mas esta continua na própria estrutura do real, indiferente à loucura do mundo, esperando apenas o momento certo para reaparecer. E, muitas vezes, ela retorna na alma do próprio tirano, sufocado por um arrependimento que não consegue esconder da consciência que antes tentou destruir. Quando More descreve o inferno espiritual de Ricardo logo depois de ter mandado assassinar seus sobrinhos, as palavras recuperam o seu verdadeiro sentido, a providência joga a fortuna de escanteio e a virtú do príncipe não serve para mais nada:
“King Richarde himselfe as ye shal herafter here, slain in the field, hacked and hewed of his enemies handes, haryed on horsebacke dead, his here in despite torn and togged lyke a cur dogge. And the mischief that he tooke, within lesse then thre yeares of the mischiefe that he dyd. And yet all the meane time spente in much pain and trouble outward, much feare anguish and sorow within. For I haue heard by credible report of such as wer secrete with his chamberers, that after this abhominable deede done, he neuer hadde quiet in his minde, hee neuer thought himself sure.
Where he went abrode, his eyen whirled about, his body priuily fenced, his hand euer on his dager, his countenance and maner like one alway ready to strike againe, he toke ill rest a nightes, lay long wakyng and musing, sore weried with care & watch, rather slumbred then slept, troubled wyth feareful dreames, sodainly sommetyme sterte vp, leape out of his bed & runne about the chamber, so was his restles herte continually tossed & tumbled with the tedious impression & stormy remembrance of his abominable dede.283”.
(Como veremos a seguir, o Rei Ricardo será morto no campo de batalha, destroçado pelas mãos dos inimigos, entregue morto por seu cavalo, virado como um cachorro. E a má-ação que causou, em menos de três anos ele a tomou para si. Ainda assim, nesse meio tempo, ele se gastou em muita dor e muita preocupação no seu exterior e em muita angústia e em muita tristeza por dentro. Pois ouvi por testemunha confiável que, quando se segredava em seu quarto, ao pensar sobre o abominável ato que praticou, nunca teve paz em sua mente e nunca mais se achou em seu caminho.
Quando ia ao estrangeiro, seus olhos observavam tudo, seu corpo se agitava, sua mão ficava sempre ao lado do punhal, seu comportamento e hábitos eram sempre de alguém prestes a atacar, nunca deitava-se são à noite, ficando longo tempo em vigília e em sussurros, doído no cuidado e na vigilância, dormia muito mal e se preocupava com sonhos terríveis, para acordar de repente, saltar da cama e correr pelo quarto, pois seus descansos eram freqüentemente interrompidos e jogados pela impressão tediosa e pela lembrança tempestuosa do seu feito abominável.)
É nítida a influência de Platão neste trecho, especialmente da análise que o filósofo grego faz do que ocorre na alma do tirano, mostrando que ele é o mais infeliz dos homens:
“E quando os outros desejos zumbem em torno do amor, cheios de incenso, perfumes e grinaldas, de vinho e de todos os prazeres dissolutos e próprios de semelhante companhia, e alimentam o zangão e o excitam ao máximo e nele implantam o aguilhão do desejo, então esse presidente
283
da alma, tendo como guarda pessoal a loucura, comporta-se com verdadeiro frenesi, e se porventura ainda encontra no seu íntimo desejos e opiniões de alguma utilidade e passíveis de ruborizar-se, mata-os e os atira de longe, até purgar a alma de toda a temperança e enchê-la daquela modalidade de loucura”284.