MATERIEL ET METHODES
1.26 Complications du traitement :
Produzido e publicado em 2014, o vídeo “Terra Firme” é um dos trabalhos mais acessados na página do Tela Firme no Youtube (4.889 visualizações). Trata-se de um mini
documentário de 11 minutos e 42 segundos que faz um contexto geral sobre o bairro Terra
Firme. No trabalho, o grupo procurou retratar historicamente a ocupação e formação do espaço, destacando os principais problemas existentes no local como a falta de saneamento básico, por exemplo. Um descaso que permanece ainda nos dias atuais.
Além disso, na referida produção, o Coletivo evidencia a realidade existente hoje no bairro e como se deu sua ocupação desde a década de 1940. Nesta época os primeiros moradores construíram suas casas em área de Terra Firme, mas com o aumento da população as áreas alagadas também passaram a ser habitadas. Isso repercutiu na formação de habitações
palafitas53, que se identifica em alguns trechos da comunidade.
No local observa-se ainda um conglomerado de moradias e sem nenhuma organização espacial, um cenário muito comum na periferia. Entende-se que essa característica apontada no vídeo seja resultado da ocupação desordenada. Como apontam Silva e Sá (2012, p. 182) “as famílias que lá se instalam, o fazem por não terem outra alternativa de acesso à terra para
morar, resultado da intensa concentração demográfica nas terras altas da cidade de Belém”.
Figura 14 - Imagem de uma área do bairro Terra Firme (2014)
Fonte: imagem copiada da página do Tela Firme no Facebook (2017).
Nesse aspecto observa-se no trabalho do grupo que há uma preocupação em evidenciar a problemática, mas ao mesmo tempo enfatizar que em meio a essa realidade existem pessoas que buscam melhorar o espaço onde vivem. Isto é, tentam mudar a concepção imposta sobre a periferia, ou seja, que viver nesse território é estar sujeito a pobreza, a uma ideologia capitalista e opressiva.
Entre outras abordagens, o vídeo o Tela Firme narra a história de vida de seu Antônio
Terra da Trindade54 (fig. 12), era um dos moradores mais antigos do bairro Terra Firme. Na
entrevista concedida ao Tela Firme, no período da produção do documentário em 2014, ele destacou as dificuldades enfrentadas no início da ocupação do espaço. De acordo com seus
53 Habitação sobre as águas
relatos, o lugar era alagado, com muita pobreza e insetos peçonhentos, mas o sonho de dar um futuro para sua família fez com que não desistisse de morar no bairro. “Hoje nós estamos melhor, mas foi muita dificuldade no começo. [...] Nosso pensamento era educar nossos filhos
para eles terem uma vida melhor” (informação verbal)55.
Figura 15 - Antônio Trindade, morador do bairro Terra Firme
Fonte: Imagem reproduzida do vídeo “Terra Firme” (2014).
Com base no depoimento, observa-se o que Ojima (2011) chama de paradigma da periferização, ou seja, assim como o morador do bairro Terra Firme Antônio Trindade, diversas pessoas na mesma situação terminam por ocupar áreas periféricas pela falta de opção. A realidade descrita “está fortemente relacionado à segregação sociodemográfica das camadas mais pobres da população para as regiões mais distantes dos centros consolidados” (OJIMA, 2011, p. 123). O pensamento do autor leva a reflexão sobre direitos básicos, como uma moradia digna, que são negados às pessoas que vivem nesses espaços.
Questões como saúde, educação, economia, transporte, segurança, folclore popular e crença religiosa também são abordadas nesta produção do Coletivo. Segundo informações obtidas a partir da análise do vídeo “Terra Firme”, atualmente o bairro, considerado um dos mais populosos de Belém (cerca de 61 mil habitantes, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE), como já foi citado nesta pesquisa. Por meio desta produção audiovisual, o grupo destaca pontos de referência do bairro como as três feiras da comunidade, evidenciado a falta de organização espacial que existe nos referidos locais; a Unidade de Saúde; as mais de 20 escolas das redes pública e privada; a Unidade Integrada Pro Paz (UIPP) e o ponto de memória, que tem como objetivo apoiar iniciativas de
reconhecimento e valorização da memória do lugar e do que ele tem de melhor, ou seja, as pessoas.
Por meio do contexto apresentado acima e também das falas do vídeo “Terra Firme” (como do morador do bairro Antônio Trindade) nota-se nesta produção que o Coletivo de Jovens novamente faz uma importante reflexão sobre o exercício da cidadania, especificamente sobre questões voltadas aos interesses individuais e coletivos da comunidade. Como os jovens do Tela Firme conhecem a realidade do lugar, pois é onde vivem, eles têm uma relação com o bairro, e como Freire (1983) enfatizou anteriormente, é por meio de uma relação dialógica comunicativa que os sujeitos se expressam.
Por ser um dos maiores e mais populosos bairros de Belém, o Terra Firme é também um lugar com problemas sociais provocados pelo descaso do poder público, especialmente no que se refere à moradia digna, já que muitas pessoas ainda residem em áreas alagadas e sem saneamento básico. A atenção médico-hospitalar também é precária, já que o bairro conta com apenas uma Unidade Municipal de Saúde – UMS, para atender a demanda local. Além da questão da educação que também acaba gerando protesto na comunidade devido o sucateamento e falta de recursos nas instituições de ensino do bairro.
Diante do exposto, observa-se que no local não há uma infraestrutura para atender a todas as pessoas da comunidade de forma justa. Por isso, o Tela Firme, por meio da referida produção evidencia a problemática de forma a chamar a atenção do poder público sobre determinadas situações críticas do bairro como as mencionadas anteriormente. O grupo tenta também sensibilizar a população que vive no espaço sobre as coisas boas que existem no lugar, como por exemplo, os pontos e memória, a cultura local, o dia a dia na feira, o comércio, etc. Essas intervenções do Coletivo se mostram como uma prática comunicativa que revela a intenção dos jovens em promover a cidadania no bairro, principalmente, porque o grupo faz referência aos direitos dos cidadãos (civis, políticos e sociais) constituídos historicamente e que na prática não são efetivados, especialmente quando se trata da periferia.