A capacidade inovadora e regeneradora da Literatura e do Cinema, bem como uma certa audácia, conferem-lhe um papel de relevo na disseminação das realidades que refletem o mundo atual, numa época de arrojadas caminhadas que apontam para um futuro incerto cujo desfecho não se perceciona. As metas das tecnologias de informação e comunicação parecem intermináveis, deixando nos cidadãos insegurança e desconfiança em direção ao futuro. Tudo parece desmoronar-se perante o que, supostamente seria a salvação da humanidade: os meios informáticos que conduziriam a mais lazer e menores afazeres profissionais. O que de facto se reconhece é que não têm sido colocados ao serviço do homem, para facilitar a sua vida.
Numa sociedade em que a livre iniciativa, auxiliada pela tecnologia, impera, deixando vulnerável o indivíduo enquanto cidadão com direitos e deveres, integrado num estado social em crise profunda, a problemática da disfuncionalidade e da conflitualidade no seio da sociedade e da família, constituem realidades preocupantes, na medida em que estas situações podem corroer o tecido social e os seus necessários equilíbrios. As ruturas, as desconstruções que podem causar indiciam transformações conducentes a novos grupos sociais, arrastando consigo novos valores e práticas, dinâmicas e ações. Pela sociedade americana têm perpassado, nas últimas décadas, enormes convulsões sociais, nas quais a família se defronta com uma situação de pressão permanente. No século XXI, os problemas desestruturantes da família tradicional continuam, agravados pela crise profunda do estado social que parece ruir a cada momento. As famílias são quem mais diretamente sofre, confrontadas com as usuras e egoísmos de uma reduzida camada da população que manipula os meios tecnológicos e informáticos à disposição de todos, para seu exclusivo interesse.
O tecido empresarial foi-se tornando cada vez mais livre e menos regulado, conduzindo a uma desumanização da população que os empregadores ‘usam’ em função das suas exclusivas necessidades e, por esta razão, obriga cidadãos a deslocações e ausências que
115 provocam a criação de sentimentos de insegurança e frustração, o que pode acarretar conflitualidades e ruturas dos núcleos familiares. De igual modo, os valores que remetem para a afetividade positiva46 e para o conceito de individualidade, no sentido da unicidade/singularidade e identidade de cada indivíduo, tornando-o único, têm vindo a ser desvirtuados em favor das vantagens económicas que esta inversão de valores acarreta para o tecido empresarial e para a especulação financeira. Jacob Lumier, em “Sociologia da Literatura nas Relações Humanas” refere que, “Hoje em dia, o indivíduo-alvo das expectativas de promoções e premiações sabe de antemão que as relações nas hierarquias do mundo corporativo são variáveis e que o peso específico do indivíduo nas relações empresariais não tem o alcance que teve.”47
A realidade histórica, sociocultural e económica das últimas décadas do século XX e da atualidade evidencia um mundo em mudança, que se reveem na apologia do individualismo e da livre iniciativa desregulada, tem debilitado a procura de uma realização individual, suportada nos princípios e valores da civilização ocidental, o que tem preocupado vários setores da comunidade internacional. Estas inquietações têm sido protagonizadas por diferentes grupos da vida social e cultural contemporânea e expressas, nomeadamente, na Literatura e no Cinema. As escolhas de abordagem no âmbito do universo literário são múltiplas. Das muitas narrativas literárias criadas por escritores americanos, nas últimas décadas, destacamos a trilogia de Philip Roth que evoca as problemáticas da moralidade americana decorrentes do período histórico do pós-guerra, especificamente, era Macarthy, a Guerra do Vietname e a presidência de Bill Clinton que considera terem tido enorme influência na sua geração. American Pastoral (1997), I Married a Communist (1998) e The Human Stain (2000), constituem exemplos de como a obra literária acompanha e reflete a vivência e a experiência dos seus autores. Roth cria um alter-ego, Nathan Zuckerman, recorre ao narrador omnisciente, explora a autocompreensão através do monólogo interior e insere a História da América na obra literária, para fortalecimento da narrativa. À semelhança de Roth, outros escritores americanos souberam equacionar as problemáticas em evidência de períodos históricos que desencadearam crises e trouxeram para o domínio público, através das
46 Já vimos que aos afetos podem estar subjacentes sentimentos negativos como a raiva ou a revolta, entre outros,
razão pela qual se realçam os termos afetividade positiva, afetos positivos.
47 Lumier, Jacob J. “Sociologia da Literatura nas Relações Humanas”. Disponível em <http://sociologia-
116 suas obras, os problemas das respetivas épocas, bem como os caminhos alternativos e consequências prováveis destas transformações. Os escritores americanos das últimas décadas têm sabido equacionar novos caminhos e retomar a importância do indivíduo, emotivo e de identidade própria. A Literatura acompanha os tempos, por conseguinte, se atravessamos um período conturbado de mudança, naturalmente que esta forma de arte reflete essas transformações e acaba por se metamorfosear de forma similar, porque “Everything is changing and fiction is, too.” (Maass, 2012:3)
Torna-se cada vez mais urgente quebrar a apatia que tolhe a ação e tanto a narrativa literária como a cinematográfica contribuem para este facto com enorme argúcia e inteligência, apesar de a “Change is hard. The future is uncertain.” (Ibidem) Por conseguinte, a urgência do restabelecimento dos valores do indivíduo pensante refletivo e atuante, a criação de personagens autênticas que se desafiem a si próprias, que acreditem na verdade, que ouçam os seus chamamentos, podem ser opções para a Literatura da atualidade, porque,
The characters (…) don’t merely reflect our times, they reflect ourselves.”(…) “Get out of the past. (…). To write high-impact 21st
century fiction, you must start by becoming highly personal. Find your voice, yes, but more than that, challenge yourself to be unafraid, independent, open, aware and true to your own heart. You must become your most authentic self.” (op.cit.,4)
No século XXI, a tendência para a criação da obra literária situa-se na oposição a um formalismo abstrato em favor da figuração de um “mundo da vida real” de uma forma criativa, mas procurando autenticidade, torneando o realismo social fotográfico em nome da ficção criadora, da obra de arte. Os chamados “Literacy novelists create art. They treasure fine writing and seek to capture the world the way it is, making it alive in the minds of their readers.” (op.cit.,5)
Neste âmbito, o cinema tem desempenhado um papel relevante, através da forma como aborda as temáticas escolhidas, seguindo, com frequência, um princípio que lhe é característico. “The principle of classical film is well known: the end must reply to the beginning; between one and the other something must be set in order; the last scene frequently recalls the first and constitutes its resolution.” (Bellour, 2000:238), restabelecendo equilíbrios à semelhança do que o ser humano necessita e a sociedade reclama, espelhando as
117 vivências do quotidiano, numa dualidade de contraditórios, no reflexo da luta permanente entre o bem e o mal. As artes apresentam uma dualidade, consequência de uma duplicidade de caráter sociocultural inerente à própria realidade. A Literatura e a arte fílmica não se concebem desligadas das vivências quotidianas dos seus criadores e dos seus públicos. Pelo contrário, repercutem as práticas da vida quotidiana e apelam à reflexão, uma vez que intentam que o seu público-alvo se reveja nelas, nas suas contradições, angústias e pesares. Segundo Quart,
(…) fictional films reveal something of the dreams, desires, displacements, and, in some cases, the social and political issues that confront American society. (…). During the past 30 years, a number of historians and culture critics have begun to give films their due as important social and cultural evidence. (Quart, 2011:2-3-4)
No caso concreto americano, em muitos filmes, verifica-se uma trivialização do mundo social, em detrimento de abordagens conscientes da condição social dos indivíduos e das condicionantes do todo social ou grupal. “(…) the great majority of American films, rarely attempt to consciously illuminate cultural and social patterns. They usually stylize, mythologize, and at times trivialize the social world.” (op.cit.,4)
As situações reais e problemáticas da sociedade, por vezes, abordadas por entre parâmetros de ambiguidade ou trivialização, encontram, porém, eco em filmes que, pelo contrário, remetem o espectador para realidades menos cor-de-rosa. O filme de Hollywood, apesar das suas características votadas ao entretenimento, consegue refletir a cultura americana e as suas contradições, criando imagens, personagens e formas de comunicação refletivas dessa cultura. O cinema produzido por Hollywood encerra o pensamento da inquestionabilidade das virtudes do sistema económico e social americano, incluindo a supremacia da masculinidade de raça branca, que difunde com convicção, acreditando “that most white males have the ability and opportunity to succeed in America.” (op.cit.,5)
No entanto, o subversivo e o anárquico coexistem com a expressão da tradição clássica de Hollywood, descobrindo um mundo convencional cujos valores se questionam. Quart faz referência a esta questão desenvolvendo um ponto de vista parecido, razão pela qual o citamos. Nas suas palavras, “Socially subversive and anarchic elements obviously exist in popular American film.” (op.cit.,6) Porém, verificam-se algumas sujeições a uma política
118 sociocultural conservadora, empenhada em repor a ordem social tradicional, no cinema de Hollywood. Em oposição a este conformismo e submissão, constatamos a existência de cineastas, cujo percurso independente, desvela um país multifacetado e multicultural, procurando representar a diversidade da sociedade americana a braços com as suas angústias e contradições, que se debate entre um poder hegemónico, que intervém e interfere na vida dos seus cidadãos e no mundo e o ensejo de cumprir “The Song of Myself”48, verificando-se tentativas de preservação do direito à realização pessoal. À semelhança da alternância dos republicanos conservadores e dos democratas no poder, uma enorme variedade de filmes tem procurado elevar e repor os valores da constituição americana, a supremacia do homem branco, os princípios da moral de origem puritana, a proteção das minorias a par de uma alteridade centrada no indivíduo pensante e refletivo em busca da sua identidade.
Numa procura de consagração do passado, o pensamento reaganista remeteu o cinema para a nostalgia de um romantismo que se revê no regresso da família tradicional. Stephen Prince, em Visions of Empire: Political Imagery in Contemporary American Film reafirma estes desígnios de uma era de retrocesso na sociedade americana enunciando dois filmes emblemáticos da década de 1980. Segundo o autor,
(…) certain key films of the 1980s, such as Back to the Future (1985) and Field of
Dreams (1989), seem to be intimately connected with (…) the nostalgic myths incarnated
by the Reagan-era political culture and the desire for retrieval of and reconciliation with a past conceived in idealized and romanticizes terms. In both films, the protagonists are able to magically reenter this familial and cultural past and rearrange it to suit the needs of the present.” (Prince, 1992:9)
Nos anos 1980, assistiu-se à tentativa de recuperar a prevalência da hegemonia branca e masculina em consequência de vários acontecimentos históricos de décadas anteriores. As lutas pelos direitos civis e das mulheres, vigorosas nos anos de 1960, deram os seus frutos, sendo que, nas décadas seguintes, o poder patriarcal perdia terreno a favor das mulheres. Também os negros passaram a desempenhar papéis de parceria nas patrulhas policiais dos filmes de ação, numa clara abertura à entrada, no cinema, de atores afroamericanos em papéis
48 Poema integrado na obra intitulada Leaves of Grass, de autoria do poeta transcendentalista do século XIX,
119 de menor subalternidade contrariando a tradição de Hollywood da presença do negro serviçal, escravo néscio, por vezes, portador de alguma demência, como em Gone with the Wind. Os privilégios tidos como garantidos pelo género masculino, pelo chefe de família de classe- média americana de raça branca são colocados em risco nos anos 1970, assistindo-se à fragilização de uma hegemonia masculina de raça branca em favor de uma distribuição de poder mais igualitária.
A emergência e consolidação da mulher no mercado de trabalho, realidade pouco pacífica em alguns setores mais conservadores da sociedade americana contribuíu para a criação, nos anos 1980, do super-herói musculado do cinema de Hollywood, homem de raça branca, física e psiquicamente forte. Na visão de Carroll, “A personal crisis was expressed not through emotion, but through direct talk and action. The hero’s body, therefore, became a site where masculine crisis was inscribed, and the spectacle of his body in action (or injured) became paramount.” (Carroll, 2003:111) Por consequência, o filme de ação passa a dominar o cenário fílmico de Hollywood durante a referida década. A superioridade de classe média, masculina vê-se ameaçada, o que desencadeia a emergência de um herói masculino em ação.
Na década seguinte, no decénio de 1990, assiste-se a uma viragem no cenário fílmico, principalmente de Hollywood, identificando-se o recolhimento à sensibilidade e vulnerabilidade do homem em oposição ao ‘herói’ viril e másculo dos anos de 1980. “Actors who played action heroes in the 1980s found themselves playing new roles in the 1990s.” (Ibidem)
Do final do século passado até à atualidade, verifica-se que, apesar da realização de obras cinematográficas que invocam as grandiosas missões destinadas aos americanos, veiculadas por filmes de tramas que consubstanciam missões impossíveis comoIndependence Day (1996), de Roland Emmerich, Mission: Impossible (1996), de Brian De Palma, Batman - The Dark Night Rises (2012), de Christopher Nolan, e Avatar (2009), de James Cameron, que integram super-heróis, constata-se existir um espaço para as interações complexas entre cultura e sociedade contemplado na Sétima Arte, na medida em que esta tem figurado as contradições da sociedade, mais concretamente, da sociedade americana, através de obras cinemáticas de diferente abordagem, que remetem o cidadão americano para um patamar de esperança. Num reforço da nossa opinião, apresentamos o ponto de vista de Leonard Quart, em American Film and Society, em que o autor afirma, o que “(…) makes one feel hopeful is that by the end of the 1990s and into the first decade of the 21st century, (…) there seemed to
120 be a great deal more room in theaters for low-budget and idiosyncratic films.” (Quart, 2011:11).
A produção cinematográfica atingiu níveis nunca imaginados e transpôs todas as fronteiras. No século XXI, assiste-se ao interesse do cinema americano, por questões da globalização e do terrorismo que ensombrou o princípio do século com os acontecimentos do 11 de setembro de 2001, dos desequilíbrios, das paranoias, das patologias demenciais que levam à violência, à violação, ao crime, ao suicídio, às angústias existenciais, ao questionamento interior.
Não só o Cinema, mas também a Literatura, numa relação de proximidade e intimismo com o leitor, promove um diálogo sobre factos, pensamentos e reflexões com o recetor. De igual modo, o leitor deve ter sempre presente que “O escritor é um fabulador: não diz a verdade e é sempre a verdade que ele diz… à sua maneira”49
, o mesmo acontecendo com o realizador. A subjetividade que assiste à obra literária ou fílmica imprime-lhe um cunho pessoal, um ‘olhar’ subjetivo, não deixando porém de refletir o mundo que ficciona. Quer isto dizer que os factos, as ações e dinâmicas das personagens podem constituir exemplos padronizados/tipificados de vivências do quotidiano e, por isso, o espectador se revê neles. No que diz respeito à temporalidade da ação fílmica ou literária, esta é ilusória, o que significa que, no quotidiano real nem sempre a solução, ou o caminho para ela, se vislumbra tão velozmente quanto na ficção. Assim, cabe ao leitor ou ao espectador equacionar estas diferenças e refletir sobre as probabilidades apresentadas, agindo, no terreno, num tempo real. Ao recetor compete tirar as elações de uma produção literária e fílmica multifacetada que reflete as contradições da sociedade americana, sempre colocada entre a elevação da glória dos seus feitos, das capacidades dos americanos e a realidade quotidiana, pejada de fragilidades, como acontecem noutras sociedades, o que identifica a universalidade da Literatura e do Cinema.
A narrativa literária e cinematográfica expressa as vozes da consciência subjetiva dos seus criadores, contribuindo para a consciencialização dos leitores e dos espectadores e para a sua mudança de atitudes. O Cinema e a Literatura continuam a desempenhar, neste novo
49 Lumier, J. Jacob. A Utopia Negativa. Leituras de Sociologia da Literatura – Ensaio. Publicação do Websitio
Leituras do Século XX – PLVS: Literatura Digital. Agosto 2010. Disponível em <http://www.leiturasjlumierautor.pro.br>. Consultado em 12 setembro 2014.
121 mundo da comunicação quase em tempo real, o espaço e o tempo para o sonho, para a fantasia e isso transforma-os numa força criativa de combate à receção passiva. Estas duas formas de arte, principalmente em tempos de globalização,
(…) prefiguram (…) um novo tipo de subjetivação, novos modos de relacionamento do ser consigo, com “os outros” e com o mundo.
Por isso, é de fundamental importância refletir sobre as questões (…) referentes à representação da realidade, (…) para re – descobrir o valor mediático da ficção – do sonho – que permite chegar perto do verdadeiro despertar, isto é, o real do desejo. O derradeiro esteio de “realidade” é a fantasia, o que não significa que a vida é apenas um sonho ou que a realidade é só uma ilusão. (Droguett, 2004:21-22)
Na visão de Droguett, da ilusão transcorre a capacidade de criação, onde se mistura e, por vezes, se confunde o real e a ilusão. Contrariando a tradição da conceção de arte enquanto apenas imitação do real, muitos cineastas e escritores rompem com os convénios tradicionais e partem para novas abordagens que exprimem pontos de vista particulares e subjetivos, evidenciando novas formas de relação consigo e com os outros, demonstrando ter percecionado a importância mediática do cinema na era global. Numa época em convulsão, em processo de profundas transmutações ao nível da correlação de forças político- económicas, da conjuntura económica, das infraestruturas que suportam o estado social, das relações sociais, familiares e individuais, a Literatura e o Cinema podem desempenhar um papel de relevo na representação dos novos paradigmas em direção ao futuro. Refletir sobre as suas problemáticas, apontar caminhos para a minimização e/ou resolução das situações em que, mudanças tão profundas e preocupantes, podem colocar em risco a sobrevivência de equilíbrios sustentáveis na vivência quotidiana dos indivíduos, constitui mais um dos muitos desafios a que estas duas formas de arte sempre têm dado resposta.
A arte fílmica continua a integrar um conjunto sequencial de imagens e de sons, pejado de intencionalidade discursiva, que patenteia a experiência da vida quotidiana do homem no mundo atual e as suas problemáticas e os desafios do devir. A Sétima Arte persiste em percorrer um trilho complexo, entrevendo-se uma longa caminhada do cinema num mundo em permanente convulsão.
A situação instável da economia e da sociedade atual, impeditiva do bem–estar e da felicidade de uma larga faixa da população mundial, causa nos indivíduos um estado de
122 insatisfação e descrédito, por vezes uma enorme letargia, buscando no alheamento da realidade, na ilusão, alguma compensação. O cinema quando manipulado, remete o espectador para instantes de felicidade, para a ilusão e o sonho, anestesiando a sua capacidade de reação. Todavia, esses momentos colocam-no perante um juízo, um julgamento, um pesadelo que o situam entre a realidade penosa e a felicidade representada no ecrã, o que pode abalar a sua inércia, mas, ao mesmo tempo, a imobiliza. O entretenimento que a arte fílmica proporciona pode constituir um meio de aliviar pressões e constrangimentos e, também, de encontrar equilíbrios, proporcionar acalmia, pois o retorno à realidade é sempre doloroso. Imitar a realidade pode conduzir apenas a uma constatação da mesma, recriá-la pode transformá-la, constatando-se que a Sétima Arte pode constituir também uma força impulsionadora da mudança, daí o desafio que se lhe coloca.
O discurso diegético da arte literária, suportado na palavra escrita, em forma de romance e conto, como é o caso das obras em análise, recorrendo a uma imagética suportada, não na imagem em movimento, como no cinema, mas na construção dessa imagética através da leitura, pode surtir os mesmos efeitos, isto é, proporcionar a ilusão, o sonho, ser a mensageira do mundo real e, por conseguinte, propiciar equilíbrios e desejos de mudança.